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Correio Braziliense

Cientistas lamentam a perda dos restos mortais de Luzia

Cientistas lamentam a perda dos restos mortais do mais antigo fóssil humano das Américas em incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Os ossos da primeira brasileira são peça-chave no estudo da ocupação do continente e seguiam impulsionando pesquisas


postado em 04/09/2018 06:00

Fósseis estavam na Seção de Arqueologia; crânio de mulher que viveu há 12 mil anos foi encontrado em Minas Gerais, em 1970, e teve o rosto reconstruído em 2000: traços semelhantes aos de africanos e australianos(foto: Antonio Scorza/AFP)
Fósseis estavam na Seção de Arqueologia; crânio de mulher que viveu há 12 mil anos foi encontrado em Minas Gerais, em 1970, e teve o rosto reconstruído em 2000: traços semelhantes aos de africanos e australianos (foto: Antonio Scorza/AFP)
O incêndio que destruiu grande parte do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, no último domingo, provocou prejuízos incalculáveis para a ciência, incluindo a perda dos restos mortais de uma mulher que viveu há cerca de 12 mil anos e continuava fazendo história. O crânio, outras partes da ossada e uma reconstituição do rosto de Luzia, chamada por arqueólogos de primeira brasileira, estavam na Seção de Arqueologia, uma das partes do prédio em que todos os itens guardados se transformaram em cinzas. Especialistas lamentam a perda do mais antigo fóssil humano encontrado no Brasil e nas Américas, considerado uma peça decisiva para discutir teorias sobre o povoamento da região.

“Acredito que Luzia tenha sido uma das mais icônicas perdas nessa tragédia. Ela faz parte da discussão dos povoamentos das Américas e foi uma das maiores fontes de produção científica do país”, destaca ao Correio Mercedes Okumura, coordenadora do Laboratório de Estudos Evolutivos da Universidade de São Paulo (USP). “Nós teremos de prestar contas disso para a humanidade. Será sempre uma mancha enorme para o Brasil no mundo inteiro”, ressalta o antropólogo Walter Neves, considerado o “pai” de Luzia, em entrevista à Agência Estado.

Luzia foi encontrada em 1970, em uma expedição de franceses e brasileiros pela região metropolitana de Belo Horizonte, em uma gruta localizada em Lagoa Santa. A partir daí, passou a fazer parte do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Os fósseis ganharam ainda mais importância na década seguinte, quando Walter Neves, pesquisador da USP à época, resolveu estudá-los, chegando a resultados que divergiram com teorias clássicas sobre a ocupação da América.

Uma parte dos estudiosos defende que o Homo sapiens chegou ao continente cerca de 11 mil anos atrás, a partir do Estreito de Bering, e teria traços mongoloides (asiáticos). Essa teoria ganhou força depois de artefatos da cultura Clóvis terem sido encontrados em um sítio do Novo México, nos Estados Unidos, no fim da década de 1920.  Acreditava-se, então, que esses norte-americanos constituíram o primeiro povoamento das Américas.

Ao estudar o crânio de Luzia, porém, Walter Neves observou que o fóssil não mostrava o padrão mongol. A primeira brasileira tinha traços negroides, com nariz largo e olhos arredondados, 1,5 metro de altura e morreu com cerca de 20 anos. Com base nessa descoberta, o antropólogo defende que uma outra onda migratória ocorreu antes do povo Clóvis, há cerca de 14 mil anos, com indivíduos semelhantes aos africanos e aos australianos. Eles teriam entrado pelo Estreito de Bering e, com o tempo, migrado para o sul.


Questão de Estado

Walter Neves escolheu o nome Luzia em homenagem a Lucy, um fóssil de australopitecos de 3,2 milhões de anos considerado um dos mais antigos hominídeos. Estudos subsequentes deram origem ao nome Povo de Luzia, em referência aos indivíduos que viveram na região de Minas Gerais no período do Holoceno inicial — há 11.500 anos. Ossos de outros habitantes da região e da época também foram queimados no incêndio.

“Em termos de primeiros americanos, essa é a coleção mais antiga, são mais de 200 esqueletos, todos de Lagoa Santa (…) Acho remota a possibilidade de esse material ter sobrevivido”, lamenta Walter Neves. “Para mim, a maior tragédia, de longe, é a perda das coleções. Em muitos países, por incrível que pareça, até na Etiópia, coleções únicas, como a de Luzia, são consideradas questão de Estado. Isso quer dizer que elas são mantidas em situação ideal de preservação e, para estudá-las, é preciso pedir permissão diretamente ao presidente da República.”

Mercedes Okumura também critica as condições em que as peças eram tratadas pelo governo. “É muito decepcionante porque esses materiais não pertencem apenas ao museu, mas à humanidade”, justifica. Segundo a especialista, a perda é ainda maior porque Luzia e as outras peças incendiadas poderiam gerar ainda mais contribuições à ciência. “As pessoas acham que esses itens ficam lá guardados apenas para exposição, mas eles são usados constantemente para as pesquisas, até porque temos as evoluções tecnológicas. Hoje, por exemplo, conseguimos tirar o DNA dos ossos, mas, para isso, precisamos ter o esqueleto.”

Constrangimento

Andre Strauss, pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, foi um dos pesquisadores brasileiros que trabalharam com Luzia. Em uma dos seus estudos mais recentes, ele mostrou como os Povos de Luzia tinham práticas funerárias elaboradas. “A perda dela simboliza o avanço impetuoso de nosso país em direção a um futuro medieval. Além da óbvia perda científica e do patrimônio cultural, configura profundo constrangimento internacional, atestando a mais absoluta incapacidade do Estado brasileiro de manter as instituições que fundamentam a nação. Espero que Luzia vire um mártir da ciência brasileira e que sua força seja capaz de nos colocar de volta nos trilhos civilizatórios.”

Juan Carlos Cisneros, paleontólogo da Universidade Federal do Piauí (UFPI), também destaca o quanto a perda do fóssil mais antigo das Américas. “Ela mostrava e contava uma parte muito importante da história americana, uma peça-chave que nos ajudava a esclarecer o surgimento da população brasileira, a colonização das Américas”, diz. “Temos poucos exemplares relacionadas à época em que ela viveu, e os que temos conta com ossadas menores. Luzia conviveu com animais extintos, como os mastodontes e as preguiças gigantes. Ela era um testemunho da evolução do Brasil, um símbolo dessas populações, um ícone da identidade brasileira.”


“As pessoas acham que esses itens ficam lá guardados apenas para exposição, mas eles são usados constantemente para as pesquisas”
Mercedes Okumura, coordenadora do Laboratório de Estudos Evolutivos da Universidade de São Paulo (USP)

“Ela era um testemunho da evolução do rasil, um símbolo dessas populações, um ícone da identidade brasileira”
Juan Carlos Cisneros, paleontólogo da Universidade Federal do Piauí

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