Publicidade

Correio Braziliense

Asmáticos graves têm vias aéreas enervadas, diz estudo com 63 voluntários

Asmáticos graves apresentam excesso de feixes de fibras no sistema respiratório, mostra estudo com 63 voluntários. Método criado pelos cientistas americanos para identificar essa característica poderá contribuir para futuros diagnósticos e tratamentos


postado em 06/09/2018 06:00

 

A asma é um dos problemas de saúde mais incidentes na população, com possibilidade de grande impacto na qualidade de vida dos pacientes. Em busca de melhores formas de tratamento, cientistas americanos apostam no uso de imagens em 3D para analisar minuciosamente o sistema respiratório de asmáticos. Em pesquisa com 63 voluntários, a equipe detectou o aumento dos nervos da via aérea e números mais elevados de uma célula imunológica naqueles que apresentavam os sintomas mais graves do distúrbio respiratório. As descobertas foram publicadas na última edição da revista Science Translational Medicine.

Segundo os autores, o interesse em estudar os nervos das vias aéreas e como eles controlam as contrações respiratórias é antigo, mas esse tipo de análise era dificultada pela complexidade dessa estrutura. Com o avanço da tecnologia, o cenário tem mudado. “Desenvolvemos uma técnica que captura imagens nervosas e as reconstrói em modelos tridimensionais. A partir desses modelos, podemos medir, com precisão, características dos nervos, como o comprimento e o número de ramos que possuem”, explica ao Correio Matthew G. Drake, professor-assistente da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, nos Estados Unidos, e principal autor do estudo.

Com o método de imagem 3D, os cientistas mediram a inervação e contaram os eosinófilos — célula imune presente em mais da metade dos pacientes com asma — em biópsias brônquicas de 13 pacientes com asma leve, 31 pacientes com asma moderada e persistente e 19 indivíduos não asmáticos. De acordo com os resultados das análises, os indivíduos com asma moderada e persistente tinham nervos das vias aéreas mais longos e numerosos, além de níveis elevados de eosinófilos.

Esse aumento da inervação correlacionou-se com os sintomas mais graves da doença, como sensibilidade a irritantes aéreos e uma resposta mais fraca ao albuterol — medicamento que expande as vias aéreas constringidas. “Mostramos, no pulmão humano e em um modelo de asma em camundongos, que uma célula específica frequentemente associada à asma, o eosinófilo, aumenta a densidade do nervo dentro dos pulmões e altera a quantidade de um sinal químico produzido pelos nervos. Isso torna os pulmões mais sensíveis a coisas que os irritam, como pólen e fumaça”, explica Matthew G. Drake.

O pesquisador compara a condição a um machucado na pele. “Pense no aumento da sensibilidade de uma ferida aberta, onde mais nervos estão expostos. Nos pulmões, essa inervação resulta no estreitamento dos tubos das vias aéreas e, consequentemente, em um ataque de asma”, detalha. Para a equipe, as novas informações poderão ajudar a refinar tratamentos, gerando, por exemplo, mais opções direcionadas a pacientes com quadros graves. Esse, inclusive, é um dos próximos passos da pesquisa. “Estamos no meio de muitos experimentos para entender melhor os tipos específicos de nervos afetados e identificar possíveis alvos de tratamento”, adianta Drake.

Outras frentes

O uso de um medicamento já existente também é uma opção cogitada pela equipe. “Pacientes com asma que também têm mais nervos das vias aéreas podem responder favoravelmente a tratamentos específicos. Embora essa possibilidade requeira testes adicionais, um exemplo pode ser o tiotrópio, medicamento que bloqueia as contrações das vias aéreas”, explica Drake.

Pedro Francisco Bianchi Júnior, diretor da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), ressalta mais uma parte do trabalho americano com potencial para ser desenvolvida na busca por melhores abordagens terapêuticas. “O fato de os eosinófilos estarem presentes na asma alérgica e não alérgica é outro ponto que mostra como tratamentos voltados para esse mecanismo podem contribuir para o desenvolvimento de novas terapias”, diz.

Segundo o médico brasileiro, a pesquisa reforça conceitos que têm sido bastante explorados por especialistas em asma. “Esses dados corroboram uma necessidade atual de tratar não só os sintomas, mas também a origem da inflamação. Essas duas vias precisam de atenção”, justifica. “É importante ressaltar que a asma não é uma doença única, são vários problemas que levam a esse problema. Além dos eosinófilos, existem outros vários tipos de fatores de inflamação envolvidos, o que mostra como essa doença é complexa”, complementa.


Menos corticosteroides

Cientistas canadenses desenvolvem um método para tratar a asma grave que reduz a necessidade de uso de corticosteroides em até 70%. A equipe testou o uso do anticorpo dupilumab em mais de 200 voluntários e percebeu melhoras da função pulmonar e dos sintomas característicos da doença respiratória. O dupilumab funcionou bloqueando as proteínas interleucina-4 e interleucina-13, que estão associadas à inflamação das vias aéreas. Estudos anteriores mostraram resultado semelhante, mas o de agora, publicado no New England Journal of Medicine, mostrou que a estrutura de defesa é eficaz independentemente dos níveis de eosinófilos dos pacientes. Os eosinófilos são células imunes presentes em mais da metade dos pacientes com asma e podem servir de indício de gravidade da doença.


“Esses dados corroboram uma necessidade atual de tratar não só os sintomas, mas também a origem da inflamação. Essas duas vias precisam e atenção”

Pedro Francisco Bianchi Júnior, diretor da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade