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Correio Braziliense

Perder 10% do peso corporal alivia a arritmia cardíaca e melhora a saúde

Pesquisadores acreditam que o resultado reforça a necessidade de medidas de combate à obesidade e ao sobrepeso


postado em 11/09/2018 06:00 / atualizado em 11/09/2018 00:38

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
A fibrilação atrial é um dos principais fatores relacionados ao acidente vascular cerebral (AVC), o popular derrame, e pode levar à insuficiência cardíaca. Entre os fatores de risco para essa complicação está o excesso de peso. Por isso, emagrecer é uma recomendação comum nos consultórios cardiológicos. Agora, pesquisadores australianos mostram que a orientação médica tem base científica. Eles detectaram a redução dos sintomas da enfermidade, um tipo comum de arritmia cardíaca, e até a reversão dela em voluntários que perderam peso. Detalhes do trabalho foram apresentados na revista Eurospace.

Melissa Middeldorp, pesquisadora da Universidade de Adelaide, na Austrália, e participante do estudo, explica que, por ser progressiva, a fibrilação atrial precisa, e deve, ser tratada o quanto antes. “Os sintomas iniciais breves e intermitentes se desenvolvem em formas mais sustentáveis da doença até ela se agravar, sendo que fatores de obesidade e estilo de vida estão associados a essa progressão.”

Ela e o restante da equipe acompanharam 355 pessoas com sobrepeso ou obesas, todas acometidas por fibrilação atrial, que foram perdendo quantidades variáveis de peso ao longo do experimento. Ao analisar as condições dos voluntários e o progresso do emagrecimento, os cientistas concluíram que a perda de 10% no peso, acompanhada do gerenciamento de fatores de risco associados à doença, pode reverter a progressão dela, reduzir os sintomas e a necessidade de tratamento. “Esta é a primeira vez em que há evidências de que a fibrilação atrial pode ser aliviada pela perda de peso e pelo tratamento dos fatores de estilo de vida”, frisa Melissa Middeldorp.

Segundo Fausto Stauffer, cardiologista do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, e diretor científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia do Distrito Federal (DF), estudos anteriores mostraram a relação da fibrilação atrial com outros fatores de risco, como o diabetes, que também pode influenciar a perda de peso. Para o médico, pesquisas como a australiana reforçam a importância do combate ao sobrepeso e à obesidade. “No Brasil, por exemplo, em torno de 17% dos brasileiros já estão obesos e mais de 50%, com o IMC acima de 25, o que pode ser definido como sobrepeso”, completa.

Os investigadores também ressaltam a necessidade de estar atento à relação próxima entre as duas complicações. Segundo eles, o resultado da pesquisa pode ajudar nesse desafio. “Vemos que a progressão da doença tem uma ligação direta com o grau de perda de peso. Com níveis recordes de obesidade na Austrália e na maioria dos países de alta renda, esse estudo dá a esperança de que pessoas obesas podem ter uma melhora na qualidade de vida e reduzir sua dependência de serviços de saúde se perderem peso”, diz Melissa Middeldorp.

Fausto Stauffer ressalta que outro ponto que merece ser estudado são maneiras de manter os benefícios conquistados pela perda de peso, aprofundando-se, por exemplo, nos mecanismos da fibrilação atrial. “Sabemos que a diminuição de sintomas e a reversão da doença podem ser feitas com a perda de peso, mas temos que descobrir uma maneira de manter essa melhora, com estudos mais direcionados, que analisem medicamentos e mudanças específicas de estilo de vida”, sugere o especialista.

Hormônio da fome não diminui


Vencida a batalha com a balança, surge outra ainda mais complicada: manter o peso. Pesquisadores da Noruega identificaram por que essa segunda etapa é tão difícil. A resposta pode estar no hormônio que nos faz sentir fome, a grelina. Segundo a equipe, a quantidade dessa substância liberada pelo corpo não acompanha a perda de peso. “Todo mundo tem esse hormônio, mas, se você está acima do peso e perde, o nível de hormônio aumenta”, resume Catia Martins, professora da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e líder do estudo, divulgado no American Journal of Physiology, Endrocrinology and Metabolism.

A cientista e a equipe acompanharam 34 pacientes com obesidade mórbida durante dois anos. No início, os voluntários pesavam em média 125kg. Eles foram internados, durante três semanas, em um centro de tratamento especializado, onde puderam praticar exercícios regularmente, fazer exames, receber educação nutricional e conversar com psicólogos. A assistência foi repedia a cada seis meses.

Ao fim da pesquisa, os participantes perderam em média 11kg. Dois em cada 10 conseguiram manter o peso baixo após o programa, Os níveis de grelina, porém, aumentaram em todos eles. Para Catia Martins, isso significa que é provável que as pessoas que estejam acima do peso tenham que lidar com o aumento da fome para sempre. “A obesidade é uma luta diária para o resto da vida. Temos que parar de tratá-la como uma doença de curto prazo, dando aos pacientes algum apoio e ajuda e, depois, deixando-os cuidar de si mesmos”, defende.

Segundo a cientista, a maioria das pessoas com obesidade é capaz de perder peso mesmo sem ajuda especializada, mas pesquisas mostram que apenas 20% conseguem manter o novo peso. “É importante saber quais mecanismos fisiológicos resistem à perda de peso. É claro que existem também as diferenças individuais. As pessoas podem perder a motivação e ter dificuldade para seguir a dieta e fazer exercícios. Tudo isso dificulta a manutenção do novo peso”, ressalta.

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