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Correio Braziliense

Pesquisadores usam ostras para rastrear poluição

Descobertas revelam que, assim como canários em minas de carvão, as ostras localizadas perto de plataformas de petróleo podem detectar quantidades mínimas de hidrocarbonetos


postado em 17/09/2018 17:12

Até agora, a empresa investiu cerca de 1,7 milhão de euros (2 milhões de dólares) na pesquisa de ostras (foto: AFP)
Até agora, a empresa investiu cerca de 1,7 milhão de euros (2 milhões de dólares) na pesquisa de ostras (foto: AFP)
 
Arcachon, França - Pesquisadores franceses, na esperança de obter um alerta precoce sobre a poluição no oceano, encontraram um improvável aliado em um molusco mais frequentemente encontrado na mesa de jantar.

Suas descobertas revelam que, assim como canários em minas de carvão, as ostras localizadas perto de plataformas de petróleo podem detectar quantidades mínimas de hidrocarbonetos, pois cada uma delas filtra constantemente dezenas de galões de água todos os dias. 

Isso pode alertar os cientistas sobre pequenas rachaduras na infraestrutura antes que se tornem derramamentos catastróficos de petróleo que ameaçam a vida selvagem e as comunidades costeiras. 

Anexadas a rochas ou outros suportes, as ostras são ideais para análises quase em tempo real, porque "elas não têm nada a fazer exceto notar os ruídos e variações de temperatura e luz ao redor", disse Jean-Charles Massabuau, pesquisador do instituto científico francês CNRS. 

Trabalhando com a Universidade de Bordeaux, ele vem desenvolvendo processos para medir as reações de uma ostra à exposição ao petróleo e ao gás natural na água desde 2011, junto com biólogos, matemáticos e especialistas em computação.  

O bivalve "é feito perfeitamente para testar a qualidade da água que ele filtra o dia todo", uma vez que reage quase instantaneamente à qualquer quantidade de óleo, disse Massabuau. 

Para estudar as reações, ele e sua equipe criaram um aquário eletricamente isolado usando blocos de espuma plástica e de concreto, pneus velhos de bicicletas e bolas de tênis na segunda estação de pesquisa marinha mais antiga do mundo, na baía de Arcachon, sudoeste da França. 

Os eletrodos estão ligados a cerca de uma dúzia de ostras no tanque, permitindo que os pesquisadores meçam quão rápido as válvulas de cada ostra abrem e fecham para filtrar a água em busca de comida. 

Os picos nos ciclos de válvulas são o primeiro alerta de que o molusco está estressado, com aumentos correspondendo a maiores concentrações de hidrocarbonetos.

 

 'Faca de dois gumes' 

As observações foram testadas em áreas como o Mar de Barents, na Noruega e na Rússia, e em canais construídos para uma instalação de pesquisa operada pela gigante francesa de energia Total, em Pau, no sudoeste da França.

O potencial da tecnologia conquistou a atenção da empresa em 2012, quando esta começou a parceria com o laboratório e a fornecer apoio financeiro. 

Philippe Blanc, que lidera os esforços antipoluição da Total, disse que o sistema pode ajudar a proteger os ambientes marinhos de "vazamentos silenciosos" em suas instalações. 

Até agora, a empresa investiu cerca de 1,7 milhão de euros (2 milhões de dólares) na pesquisa de ostras. 

Após um teste de 14 meses em seu campo petrolífero de Abu Al Bukhoosh, em Abu Dhabi, envolvendo ostras de pérolas, a Total planeja agora um projeto semelhante para o bloco Al Khalij, no Catar. 

Mas Massabuau advertiu que apesar de seu entusiasmo em promover uma imagem ambientalmente consciente, a Total poderia encontrar na sua parceria com o laboratório uma "faca de dois gumes". 

"As ostras podem nos dizer muitas coisas", disse, afirmando que queria que seu trabalho fosse uma "garantia confiável" e não apenas um "selo científico de aprovação" nas operações da Total. 

Isso só acontecerá se "a empresa prometer trabalhar com o laboratório para corrigir de forma completa e transparente qualquer possível risco de poluição assim que este for detectado", acrescentou.

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