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Correio Braziliense

Cientistas tentam descobrir o que impulsiona a religiosidade de uma pessoa

Estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Coventry, no Reino Unido, tenta desvendar o que impulsiona a religiosidade. Investigadores mostram que a escolha por determinada crença pode ser explicada pela cultura e por influências do próprio ambiente


postado em 18/09/2018 06:00 / atualizado em 02/10/2018 12:58

Peregrinos no Caminho de Santiago de Compostela: especialistas estudaram comportamento dos romeiros por meio de questionários, testes e exames de imagens do cérebro(foto: Arquivo Pessoal )
Peregrinos no Caminho de Santiago de Compostela: especialistas estudaram comportamento dos romeiros por meio de questionários, testes e exames de imagens do cérebro (foto: Arquivo Pessoal )


O que impulsiona a religiosidade humana: a intuição ou a razão? Pesquisadores se dedicaram a desvendar esse mistério, alvo de diversos debates na área científica. Os especialistas utilizaram questionários, testes e exames de imagens do cérebro para analisar o comportamento de peregrinos que fizeram o Caminho de Santiago de Compostela, no norte da Espanha. Com base nos resultados publicados pela revista especializada Scientific Reports, eles concluíram que a crença religiosa provavelmente está arraigada na cultura e não em alguma intuição primitiva, além de sofrer forte influência da educação. Para os cientistas, entender melhor a relação do homem com as crenças pode ajudar na condução de tratamentos médicos.

“Muitos estudos defendem que pessoas religiosas não possuem um pensamento mais lógico, e, sim, mais intuitivo. Várias pesquisas foram realizadas sobretudo na América do Norte. Porém, nós quisemos colocar essa teoria novamente à prova”, justificou ao Correio Miguel Farias, autor principal da pesquisa e professor da Universidade Coventry, no Reino Unido. “O que impulsiona a nossa crença nos deuses — intuição ou razão, coração ou cabeça? Tem havido um longo debate sobre este assunto, mas os nossos estudos desafiaram a teoria de que ser um religioso é determinado pelo pensamento intuitivo ou analítico”, ressaltou Farias, especialista em psicologia experimental.

Farias e sua equipe tentaram decifrar a relação do homem com a religião ao observar o comportamento de viajantes de uma das maiores rotas de peregrinação do mundo — o Caminho de Santiago de Compostela. Em uma primeira etapa, eles aplicaram um questionário com perguntas que englobavam temas diversos. Os andarilhos podiam optar por escolhas lógicas ou por respostas baseadas em mitos. Os resultados mostraram que os indivíduos tendiam a escolher a opção mais relacionada à razão.


Fiéis em missa celebrada pelo papa Francisco, em Palermo, na Itália: resultados da pesquisa poderão ajudar na condução de tratamentos médicos(foto: AFP / VATICAN MEDIA / Handout )
Fiéis em missa celebrada pelo papa Francisco, em Palermo, na Itália: resultados da pesquisa poderão ajudar na condução de tratamentos médicos (foto: AFP / VATICAN MEDIA / Handout )

 

Em um segundo experimento, os pesquisadores ofereceram uma série de enigmas aos analisados. A conclusão se repetiu: os peregrinos resolveram todos os desafios, mesmo os matemáticos, que envolviam elementos mais racionais e menos intuitivos, sem dar preferência aos menos subjetivos. Na última parte da pesquisa, os investigadores induziram uma corrente elétrica no couro cabeludo dos participantes, por meio de dois eletrodos. A estimulação cerebral foi utilizada para aumentar a atividade do giro frontal inferior direito, a parte do cérebro que controla a inibição cognitiva. “Um estudo anterior, que envolveu imagens cerebrais, mostrou que os ateus usavam mais essa área do cérebro quando queriam suprimir ideias sobrenaturais”, justificou Farias.

Os resultados mostraram que o aumento da inibição cognitiva não alterou os níveis de crença no sobrenatural. O achado sugere que não existe relação direta entre a inibição cognitiva e a fé e a espiritualidade. “Vimos que a estimulação elétrica não refletiu em qualquer alteração, não teve efeito”, destacou o autor do estudo.

Com o resultado dos três experimentos, os investigadores acreditam que a origem da crença religiosa é bem mais complexa do que se imaginava e, portanto, mais difícil de se explicar.

Os pesquisadores defendem que a religiosidade se desenvolve por causa de processos socioculturais, incluindo a educação. “Nós não achamos que as pessoas são ‘crentes nascidas’. Os dados sociológicos e históricos disponíveis mostram que nossas crenças são principalmente baseadas em fatores sociais e educacionais e não em estilos cognitivos, como o pensamento intuitivo ou analítico”, ressaltou Farias. “A crença religiosa, provavelmente, é arraigada na cultura e não em alguma intuição primitiva”, complementou o autor da pesquisa.

Influências

Nicole Bacellar Zaneti, doutora em psicologia da religião e professora substituta do Departamento de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), destaca que o estudo internacional mostra resultados interessantes, e que outros elementos — além da educação — podem ser considerados como influenciadores das crenças religiosas. “Esses pesquisadores destacam que não tem como provar que pessoas religiosas sejam mais intuitivas que racionais, e atestam isso por meio desses experimentos. Concordo que essas crenças possuem, como forte influência, um contexto sociocultural da própria pessoa. Acredito que temos de considerar ainda outros fatores, como a dimensão familiar, por exemplo, que é o primeiro ambiente social que experimentamos”, explicou a especialista, que não participou do estudo.

Miryelle Pedrosa, psicóloga do Hospital Sírio-Libanês, também crê que a pesquisa consegue identificar pontos importantes relacionados à origem das crenças no comportamento humano. “A investigação mostra a importância da cultura, e a responsabilidade que ela tem de constituir cada sujeito. E falamos da cultura como um todo, seja em casa, na escola, nas leis que seguimos”, opinou a especialista. Pedrosa acredita que mudanças recentes na sociedade poderiam interferir nessas crenças futuramente. “Claro que só vamos saber depois das mudanças terem ocorrido. Mas o mundo se transforma. Hoje, temos o universo virtual, com maior acesso a informações do que antes, com dados sobre culturas e filosofias distantes de nós. Essa mudança vai interferir na maneira como construímos nossas crenças ou na não construção delas”, completou.

Aprofundamento

Farias pretende prosseguir com os estudos e se aprofundar ainda mais no comportamento humano. Há planos de realizar análises no território brasileiro. “A próxima pesquisa nós tocaremos no Brasil, ainda está começando, mas pretendemos fazer um grande estudo e recolher dados de pessoas que não são religiosas. Queremos saber como elas lidam com seus problemas, o que pensam e como reagem em relação a suas vivências”, adiantou o autor do estudo.

Zaneti entende que o tema da religiosidade merece ser ainda mais explorado, pois pode ajudar consideravelmente a área médica. “Temos muita dificuldade em lidar com a espiritualidade do paciente. Na formação de psicólogos, esse tema não é tão explorado. Apesar de muito silenciada, a religiosidade é algo que interfere no comportamento do indivíduo, inclusive em sua sexualidade”, destacou a especialista. “Muitas vezes pensamos que uma pessoa precisa frequentar uma instituição para ser religiosa, mas o que ela faz e pensa sobre o sentido da vida é uma religiosidade, não é necessário estar em uma instituição religiosa”, complementou.

De acordo com Pedrosa, compreender melhor a relação do homem com as crenças pode auxiliar no tratamento médico, principalmente em casos mais complicados. “A pesquisa sobre esse tema é válida e importante, principalmente na área em que atuo, em pacientes com câncer. Quando uma pessoa enfrenta uma situação difícil, como uma doença grave, para o tratamento é ideal saber como a mente dela trabalhará, pois a cura também depende disso”, frisou.

“Nós não achamos que as pessoas são ‘crentes nascidas’. Os dados sociológicos e históricos disponíveis mostram que nossas crenças são principalmente baseadas em fatores sociais e educacionais e não em estilos cognitivos, como o pensamento intuitivo ou analítico”

Miguel Farias, principal autor da pesquisa

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