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Correio Braziliense

Pesquisa indica que disposição para colaborar é influenciada pelo ambiente

Ao analisar tribos de caçadores-coletores na África, cientistas americanos concluem que ambiente em que um indivíduo está inserido influi na cooperação


postado em 21/09/2018 06:00

Os hadzas, da Tanzânia, vivem da caça e da coleta e são mais ou menos colaborativos conforme o acampamento em que estão(foto: Jeff Leach/Divulgação )
Os hadzas, da Tanzânia, vivem da caça e da coleta e são mais ou menos colaborativos conforme o acampamento em que estão (foto: Jeff Leach/Divulgação )


A doação de alimentos, roupas, sangue e tantos outros atos de caridade envolvem um comportamento que desperta interesse dos cientistas: a cooperação. A origem e a motivação para esse tipo de atitude são alguns dos campos investigados. Seguindo essa linha, uma equipe de pesquisadores norte-americanos estudou membros da tribo de caçadores-coletores hadza, na Tanzânia, por um período de seis anos e chegou à conclusão de que a colaboração sofre grande influência do grupo em que um indivíduo está inserido. Segundo eles, trata-se de um comportamento “contagioso”.

“Nós ajudamos aqueles que foram afetados por desastres naturais, escrevemos comentários on-line para restaurantes que visitamos... A cooperação é um dos nossos traços definidores. Explicar como os humanos se tornaram uma espécie cooperativa tem intrigado gerações de cientistas”, ressalta ao Correio Coren Apicella, pesquisadora da Universidade da Pensilvânia e uma das autoras do estudo, publicado na última edição da revista Current Biology.

A cientista explica que os hadzas foram escolhidos para a pesquisa devido à forma como se organizam: é  uma sociedade que obtém seus alimentos por meio da caça e da coleta. “Optamos por estudar a cooperação em uma população cujo modo de vida é mais semelhante à vida de nossos primeiros ancestrais. Acreditamos que eles nos oferecem uma janela sobre como a cooperação pode ter sido sustentada em nossos antepassados”, justifica.


Coren Apicella e um integrante da tribo: no teste, participantes tinham que decidir se compartilhariam alimento(foto: Universidade da Pensilvânia/Divulgação)
Coren Apicella e um integrante da tribo: no teste, participantes tinham que decidir se compartilhariam alimento (foto: Universidade da Pensilvânia/Divulgação)

 

O juízo de valor sobre os comportamentos dos integrantes da tribo africana foi outro fator que mobilizou a escolha dos pesquisadores. “Os hadzas não têm instituições formais, como polícia ou leis escritas, para governar o comportamento. A maioria não acredita em um Deus poderoso e onisciente que possa monitorá-los e puni-los se forem maus. Se não há instituições formais e crenças religiosas, quais mecanismos promovem o bom comportamento?”, detalha a autora.

Para descobrir o que impulsiona a cooperação desses caçadores-coletores, os cientistas visitaram 56 campos na Tanzânia ao longo de seis anos. Durante as visitas, cerca de 400 adultos, de todas as idades, foram convidados a participar de um jogo. O passatempo pedia para que cada indivíduo decidisse se gostaria de compartilhar palhas de mel, a comida favorita dessas tribos, com o grupo ou guardá-las para si. “A comida não é algo que você pode confiar que terá infinitamente, e as pessoas, muitas vezes, se preocupam com a quantidade de comida suficiente para alimentar a si e sua família”, contextualiza Coren Apicella.

Cada hadza começou o jogo com quatro canudos de mel, que eles poderiam dividir para todo o grupo ou não. Os resultados mostraram que os hadza que viviam em certos acampamentos eram consistentemente mais generosos do que os outros. Além disso, os indivíduos se comportavam de maneira diferente ao longo do tempo, modificando os costumes de acordo com as normas do local em que estavam vivendo no momento. Para os autores, as constatações ilustram a natureza flexível da cooperação humana.

“Ficamos surpresos ao descobrir que as pessoas não têm uma tendência estável para cooperar e são influenciadas por aqueles que as rodeiam. Nossos resultados mostram que não existem mocinhos e bandidos”, ressalta a autora. “Se você se encontra cercado por pessoas egoístas, não precisa necessariamente encontrar um novo grupo para ajudar os outros. Sendo generoso, pode fazer com que os outros sejam também.”

Austeridade

Segundo Pedro Paulo Záu Vieira, psicólogo clínico e organizacional, o estudo faz uma observação sistemática e mostra o valor da austeridade na construção da personalidade. O especialista explica que a personalidade humana é composta pela identidade, que engloba características natas, como  temperamento, humor e resiliência, e pela austeridade, construída pelo que recebemos de terceiros. “A austeridade surge com as interações sociais. Quando eu convivo com o outro, muito do que tem nele eu trago para mim. Parte disso pode me influenciar, é o que ocorre com a generosidade, como nós vemos nesse estudo”, detalha.

O psicólogo acredita que outra prova da influência dos outros sobre a atitude cooperativa pode ser vista na velocidade com que os grupos de auxílio se espelham pelas redes sociais. “Eu atuo há mais de 20 anos em projetos sociais e, com o advento das redes de relacionamento, é impressionante o quanto o compartilhamento de um pedido de ajuda, como doações, tem grande repercussão”, explica. Pedro Paulo Záu Vieira destaca que o mesmo conceito pode ser usado para comportamentos menos positivos. “É o caso de pessoas que vivem em ambientes de maior risco social, elas podem perder essa capacidade de cooperar e se tornarem mais egoístas.”

Os autores pretendem aprofundar o estudo porque, segundo eles, algumas perguntas relacionadas à cooperação seguem abertas. “Estamos interessados em entender como as normas cooperativas começam em um grupo. São seus principais indivíduos que estão definindo a norma para o resto das pessoas em volta? Suas atividades compartilhadas, como contar histórias, podem ajudar a reforçar ou ajudar a estabelecer cooperação?”, ilustra Coren Apicella.

“Se você se encontra cercado por pessoas egoístas, não precisa necessariamente encontrar um novo grupo para ajudar os outros. Sendo generoso, pode fazer com que os outros sejam também”
Coren Apicella, pesquisadora da Universidade da Pensilvânia e uma das autoras do estudo

 

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