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Correio Braziliense

Mata Atlântica perde metade dos mamíferos nas últimas cinco décadas

Sob pressão humana, bioma tem a população de carnívoros e outros animais de maior porte reduzida drasticamente há cinco séculos. A agricultura e a extração da madeira estão entre os principais responsáveis pela devastação


postado em 26/09/2018 06:00 / atualizado em 26/09/2018 10:01

Carnívoros, como a onça-pintada, estão entre os animais mais atingidos pela redução do habitat(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Carnívoros, como a onça-pintada, estão entre os animais mais atingidos pela redução do habitat (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Um "colapso" nunca antes registrado abate a Mata Atlântica. Pressionado pela excessiva exploração humana, o maior trecho latitudinal contínuo de floresta tropical do mundo teve a população de mamíferos reduzida pela metade desde o início da colonização, há cinco séculos. As principais vítimas são animais de médio e grande portes, como onças-pintadas e antas, segundo pesquisa divulgada na última edição da revista Plos One.

“A diversidade de mamíferos da outrora majestosa Mata Atlântica foi reduzida em grande parte a uma sombra pálida de seu antigo eu”, lamenta Juliano Bogoni, que liderou o estudo com Carlos Peres, professor da Universidade de East Anglia (UEA), no Reino Unido. Bogoni atualmente é pesquisador de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP). À época do estudo, a dupla contou com a ajuda de colaboradores da Universidade Federal de Santa Catarina.

A equipe comparou inventários sobre a Mata Atlântica publicados nos últimos 30 anos com dados sobre a biodiversidade da área na época do Brasil Colonial. As análises mostraram que a pressão de atividades humanas — principalmente a agricultura, a extração de madeira e os incêndios — reduziu drasticamente o tamanho do bioma, o que teve impacto significativo nas populações de mamíferos.

Novas políticas

Houve perdas de indivíduos em cerca de 500 espécies. Ao considerar grupos de animais, os pesquisadores concluíram que os mais afetados foram os grandes carnívoros, como onças-pintadas e pumas, e herbívoros de grande porte, a exemplo das antas. “Esses habitats estão severamente incompletos, restritos a remanescentes florestais insuficientemente grandes e presos em um vórtice de extinção em aberto. Esse colapso é sem precedentes tanto na história quanto na pré-história e pode ser diretamente atribuído à atividade humana”, diz Juliano Bogoni.

Para Carlos Peres, os resultados destacam a “necessidade urgente de ação na proteção desses frágeis ecossistemas”. “Em particular, precisamos realizar estudos mais abrangentes em escala regional para entender os padrões locais e os determinantes da perda de espécies. Os esforços para proteger a Mata Atlântica e outros ecossistemas de florestas tropicais geralmente se baseiam em vontade política e políticas públicas robustas. Por isso, precisamos de dados convincentes para impulsionar a mudança.”

Início das plantações

Uma descoberta feita por pesquisadores da  Universidade de York, no Reino Unido, pode colocar a Mata Atlântica no mapa do início do cultivo de plantas nas Américas. Ao analisar dentes e outros ossos encontrados no sul do Brasil, a equipe concluiu que seres humanos podem ter cultivado plantas em uma estreita faixa costeira do país há 4.800 anos.

“A costa da Mata Atlântica tem sido em grande parte periférica nessa narrativa, apesar de sua biodiversidade única de plantas e registro arqueológico de ocupação humana densa. Nosso estudo desafia essa visão tradicional”, diz André Colonese, autor sênior do trabalho, divulgado no Royal Society Open Science.

A equipe detectou indícios de alto consumo de alimentos ricos em carboidratos, o que, de acordo com Colonese, sugere que populações permanentes subsistiam de uma economia mista e, possivelmente, de plantações de inhame e batata-doce. Outras evidências ajudaram na conclusão: como ferramentas de pedra para processamento de plantas e restos de plantas aprisionadas no tártaro dos dentes.

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