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Correio Braziliense

Pesquisa traça perfil das pessoas que acreditam em teorias da conspiração

Pesquisador analisa 1.200 voluntários e traça o perfil dos que acreditam em teorias envolvendo planos secretos infundados. Segundo ele, são pessoas desconfiadas, que acham o mundo perigoso e se sentem mais especiais que as outras


postado em 30/09/2018 07:00 / atualizado em 30/09/2018 09:07

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Em 1969, a tevê americana exibiu uma das maiores conquistas da humanidade: o homem pisando na Lua. Quase 50 anos depois, um dos momentos de maior relevância científica segue gerando dúvidas. Há quem acredite que tudo não passou de encenação. Essa e outras teorias da conspiração mobilizam pessoas e despertam a curiosidade de cientistas. Josh Hart, professor da Union University, por exemplo, investiga por que elas geram defesas e adesões fervorosas.

“Percebi que essas teorias parecem ser cada vez mais vistas na era da internet. Nessa perspectiva, elas são incomuns, porque não são tão intrinsecamente positivas, otimistas e edificantes quanto a maioria dos sistemas de crenças, como a religião. Então, me perguntei: o que atrai as pessoas para elas?”, conta ao Correio o líder do estudo, publicado no periódico Journal of Individual Differences.

A pesquisa americana foi feita com mais de 1.200 adultos, entrevistados por Josh Hart e uma aluna. Os participantes responderam a uma série de questões relacionadas a traços de personalidade e visão política. Também foram convidados a dizer se concordavam com afirmações conspiratórias genéricas, como: “Grupos de cientistas manipulam, fabricam ou suprimem evidências a fim de enganar o público?”.

A dupla usou como base pesquisas anteriores mostrando que as pessoas “gravitam” em torno de teorias de conspiração que afirmam ou validam a visão política que adotam. Nos Estados Unidos, por exemplo, os republicanos são mais propensos do que os democratas a acreditar que o ex-presidente Barack Obama não é americano ou que a mudança climática é uma farsa, ilustra Josh Hart.

Com base nos resultados da análise, os cientistas concluíram que o mais forte preditor da crença em conspirações é um grupo de características chamadas esquizotipia. “É um traço de personalidade que combina várias qualidades distintas, incluindo excentricidade (ideias e experiências incomuns) e uma tendência a desconfiar dos outros”, explica Josh Hart.
Segundo o líder do estudo, quem acredita em teorias da conspiração também tende a considerar o mundo como um lugar perigoso. “Essas pessoas precisam se sentir especiais, são mais propensas a detectar padrões significativos, que podem não existir. Aqueles que relutam em acreditar nessas teorias costumam ter qualidades opostas”, diz.

A análise dos dados mostra ainda que os adeptos de confabulações costumam apresentar mecanismos cognitivos distintos: é mais provável que julguem declarações absurdas como profundas. Em um dos testes, os participantes tinham que avaliar a movimentação de objetos não humanos, como formas triangulares, em uma tela de computador. Alguns disseram que as figuras estavam agindo intencionalmente. “Em outras palavras, eles inferiram um significado e um motivo, algo que as outras pessoas não fizeram.”


Fake news

Apesar de o estudo não ter abordado o tema, para Josh Hart, indivíduos que acreditam em confabulações podem ser mais suscetíveis a crer em fake news. “Muitas teorias conspiratórias se qualificariam como notícias falsas”, justifica. Um dos traços de personalidade detectados no estudo e relacionados à crença na conspiração é a tendência a ser atingido pela profundidade de coisas que outras pessoas consideram absurdas, definida como bullshit receptivity, algo como receptividade a besteiras. “Ele também foi encontrado em outra pesquisa como relacionado à suscetibilidade a notícias falsas”, complementa o cientista.

Para Michael Zanchet, psicólogo do Centro Médico de Longevidade Kurotel, no Rio Grande do Sul, a pesquisa traz dados interessantes, com pontos relacionados a características de crentes em confabulações bastante coerentes. “São pessoas com traços mais obsessivos e paranoides. Esse traço paranoide é o que cria para elas uma verdade própria”, diz.

O especialista também concorda com a proximidade com indivíduos mais suscetíveis a acreditar em fake news. “Quando li a pesquisa, foi a primeira coisa que veio a minha mente, ainda mais agora no período eleitoral. Vemos a quantidade de informações geradas e como elas atingem as pessoas”, diz.

O psicólogo chama a atenção para o fato de que a crença em teorias conspiratórias pode gerar infortúnios. “Pode tomar uma proporção preocupante, a pessoa se torna mais ansiosa, vive em alerta. Com a psiquiatria e psicologia conseguimos ter um trabalho bastante efetivo nesse cenário, ajudando a pessoa a se libertar.”

Falta duvidarPesquisadores da Universidade de Regina, no Canadá, analisaram voluntários para traçar o perfil psicológico cognitivo daqueles que acreditam em notícias falsas. Por meio de questionários e experimentos laboratoriais, descobriram que os indivíduos que embarcavam em fake news têm mais facilidade de acreditar em histórias absurdas de uma forma geral, a compartilhar notícias pela internet sem checar a veracidade delas e a exagerar quanto aos próprios conhecimentos.


Possibilidade para intervir

“São suspeitas que já existiam na área, mas, pela primeira vez, elas foram analisadas em conjunto, em uma pesquisa ampla. Essa identificação pode ser usada para saber como intervir, pois ajuda a identificar características de indivíduos que creem nessas teorias. Acredito que o estudo merece ser aprofundado, apesar de ter utilizado um número grande de participantes. Seria interessante avaliar outros tipos de cultura. Outro ponto que vale a pena ser analisado é observar tratamentos voltados para esse comportamento, avaliando se eles são eficazes.”

Sérgio Eduardo Silva de Oliveira, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB)

“Se você olha para o mundo e vê uma paisagem caótica, malévola, cheia de injustiça e sofrimento sem sentido, talvez haja um pouco de conforto em pensar que há alguém, ou um pequeno grupo, que é responsável por tudo isso”

Josh Hart, professor da Union University e líder do estudo
 

Entre o cinismo e a injustiça

 
A disposição para acreditar em teorias conspiratórias é diferente da abertura para a religiosidade e a espiritualidade. O pesquisador Josh Hart explica que, no primeiro caso, há uma visão fundamentalmente sombria das relações humanas. 

“As crenças religiosas e espirituais geralmente descrevem o mundo como ordenado e coerente, e a vida como sendo, em última análise, boa e significativa. Geralmente, existe a noção de um Deus benevolente ou força universal. Em contraste, as teorias conspiratórias, por definição, representam um mundo em que atores maliciosos trabalham em segredo para prejudicar as pessoas em benefício dos conspiradores. Existe aqui uma sensação de injustiça e cinismo que parece não caracterizar a maioria dos sistemas de crenças”, diferencia o professor da Union University.

Para ele, essa visão negativa, à primeira vista, é um enigma. Mas pode ser uma espécie de busca por sentido.  “Se você olha para o mundo e vê uma paisagem caótica, malévola, cheia de injustiça e sofrimento sem sentido, talvez haja um pouco de conforto em pensar que há alguém, ou um pequeno grupo, que é responsável por tudo isso.”

Peso político
Segundo Nicole Bacellar Zaneti, psicóloga do Instituto Castro e Santos, em Brasília, a negatividade envolvida nesses mecanismos está ligada também aos objetivos dos autores das confabulações. Geralmente, há motivos pouco nobres na disseminação dessas informações. “Se analisarmos os temas envolvidos, podemos entender melhor essa identidade. Outra importante informação é que o viés político também tem um peso considerável. Temos visto muito isso agora, durante as eleições”, afirma.

A psicóloga acredita, inclusive, que o viés político poderia render uma continuação do estudo americano. “Também seria interessante analisar outras culturas. Uma observação feita no Brasil, por exemplo, que analisasse o período eleitoral, poderia render dados ainda mais ricos”, sugere.

Josh Hart espera que a pesquisa avance na compreensão do porquê de algumas pessoas serem mais atraídas pelas teorias da conspiração do que outras. Mas ele ressalta que é importante frisar que o estudo não aborda se as teorias da conspiração são verdadeiras ou não. “Depois do Watergate, o público americano aprendeu que a especulação aparentemente estranha sobre as maquinações de pessoas poderosas, às vezes, estão corretas”, justifica. (VS) 

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