Publicidade

Correio Braziliense

Genes herdados de neandertais ajudam a nos proteger de vírus, mostra estudo

Cientistas americanos identificam 152 porções de DNA herdadas da espécie extinta e que, hoje, atuam na defesa contra organismos que causam doenças como a Aids e a hepatite C


postado em 05/10/2018 06:00

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
 

Cerca de 40 mil anos atrás, os neandertais desapareceram do planeta. Não por completo. Como eles se relacionaram com outra espécie humana, o Homo sapiens, hoje, nós, modernos, carregamos cerca de 2% do DNA desse antepassado. Ao investigar esses genes herdados, pesquisadores dos Estados Unidos descobriram que eles estão relacionados à defesa do corpo contra doenças causadas por vírus que têm o RNA como material genético, como o da hepatite C e o HIV. As descobertas foram publicadas na última edição da revista americana Cell.


Os cientistas analisaram um compilado de mais de 4.500 genes de humanos modernos — essas porções de DNA são conhecidas por interagir com micro-organismos que invadem o corpo humano — e compararam essas informações genéticas com as de um banco de dados de DNA de neandertais. Foram identificados 152 fragmentos de genes de humanos que também estiverem presentes nos ancestrais.

Análises mostraram também que, no homem de hoje, os 152 genes herdados interagem com o HIV, o vírus da influenza A e o da hepatite C — todas enfermidades de vírus de RNA. “Os genes neandertais provavelmente nos deram alguma proteção contra vírus com que eles tiveram contato quando deixaram a África”, explica, em comunicado, Dmitri Petrov, biólogo evolucionário da Faculdade de Ciências Humanas e Ciências de Stanford, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo.

Os investigadores explicam que, antes do primeiro contato entre as duas espécies, os neandertais viveram fora da África por centenas de milhares de anos, tempo suficiente para que seu sistema imunológico desenvolvesse defesas contra vírus infecciosos ao chegar na Europa e na Ásia. “Faz muito sentido para os seres humanos modernos apenas ‘pegar emprestado’ as defesas genéticas já adaptadas de neandertais em vez de esperar pelas próprias mutações adaptativas e  desenvolvê-las, o que teria levado muito mais tempo”, destaca David Enard, também autor do estudo e professor da Universidade do Arizona. “Sabemos que herdamos doenças dos nossos antepassados, isso podemos dizer com respaldo. Agora, vemos que também recebemos defesas.”

Para Fabrício Rodrigues dos Santos, professor de genética e evolução da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a pesquisa mostra um fenômeno comum na história evolutiva, quando genes de uma espécie são passados para outra. “Temos o caso do cavalo também, que tem genes que podem ter vindo do asno”, exemplifica. O especialista chama atenção para o fato de que a defesa tratada na pesquisa não deve ser confundida com o sistema imune. “Nesse caso, são proteínas que interagem menos com esses vírus, o que também é uma forma de defesa, mas distinta”, diferencia.

Um dos pontos que mais chamaram a atenção do professor da UFMG é a oferta de informações relacionadas a um fenômeno bastante conhecido na área científica, a “corrida armamentista”. “Esses dados reforçam o que se mantém até hoje: as mudanças na relação entre o hospedeiro e o parasita. Ambos vão criando defesas ao longo do tempo para se proteger. Quando a gripe espanhola surgiu, por exemplo, causou muitas mortes. Quem sobreviveu, porém, gerou defesas. É algo que vimos agora no Nobel de Química, os ganhadores usaram a evolução para otimizar moléculas”, ressaltou.

Males do passado

Além de oferecer uma nova perspectiva sobre a relação entre os neandertais e os seres humanos modernos, o trabalho americano demonstra que é possível analisar o genoma de espécies e encontrar evidências de doenças antigas. “É semelhante à paleontologia. Você pode encontrar indícios de dinossauros de maneiras diferentes. Às vezes, descobrirá ossos reais. Às vezes, apenas pegadas na lama fossilizada. Nosso método é indiretamente semelhante. Como sabemos quais genes interagem com quais vírus, podemos inferir os tipos de vírus responsáveis por surtos de doenças antigas”, explica David Enard.

O professor da UFMG acredita que a pesquisa americana pode ser utilizar para a análise de outra espécie. “Temos os denisovanos, que viveram na Rússia e também podem ter carregado genes semelhantes”, diz Fabrício Rodrigues dos Santos. Os cientistas acreditam que os denisovanos habitaram a região da Eurásia com os neandertais e que houve cruzamento entre esses hominídeos durante gerações seguidas.

Palavra de especialista

Novos estudos para prevenção
“Nós sabemos que bactérias de diferentes colônias podem trocar informação sobre a defesa contra vírus bacteriófagos ou  sobre resistência a antibióticos. O que esse grupo de pesquisadores mostrou é que, até hoje, no nosso DNA, existem provas de que nossa espécie e os neandertais também fizeram essa troca. Claro, diferente do modo que as bactérias fazem, mas eficiente para nossas espécies. Não esperamos que nenhuma descoberta nesse momento se traduza em um tratamento, mas eles podem indicar caminhos valiosos para pesquisa. O artigo já aponta a possibilidade de estudar epidemias do passado, para as quais não temos mais amostras virais. Uma vantagem seria prever possíveis patógenos para os quais passamos muito tempo sem contato. Outro ponto interessante é entender até que ponto doenças atuais podem ter raízes nessas sequências de DNA de outras espécies. É tentador pensar que parte das doenças autoimunes pode representar nada mais do que uma reação ao encontro entre duas espécies tão distintas”

Gustavo Guida, geneticista do Laboratório Exame, em Brasília

Evolução dirigida

Na última quarta-feira, os cientistas americanos Frances H. Arnold e George P. Smith e o britânico Sir Gregory P. Winter receberam o Nobel de Química devido a pesquisas baseadas em princípios da evolução para o desenvolvimento de proteínas. Essas moléculas podem ser usadas em áreas distintas, da produção de biocombustíveis a medicamentos. Segundo a Real Academia de Ciências da Suécia, o trio “aplicou os princípios de Darwin em tubos de ensaio”.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade