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Correio Braziliense

Condutores de carros automatizados prestam menos atenção na estrada

Condutores de carros automatizados deixam de prestar atenção nos perigos da estrada e, quando se esforçam para ser cuidadosos, ficam mais estressados. Constatação feita por americanos sinaliza a necessidade de reformular esse tipo de veículo


postado em 06/10/2018 07:00

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

Carros automatizados proporcionam conforto, e a expectativa é de que eles também propiciem segurança. Com menos um procedimento para se preocupar, o motorista pode focar no trânsito. Cientistas americanos, porém, constataram que pode ocorrer exatamente o contrário. Em testes com voluntários, eles perceberam que os condutores de carros automáticos prestam menos atenção nos perigos da estrada e, quando se forçam a fazer, ficam mais estressados. Segundo os autores do estudo, publicado na revista Human Factors, o resultado poderá contribuir para melhorar a segurança do tráfego.

Os sistemas modernos de automação de veículos são projetados para manter segurança por meio do controle da velocidade, considerando o avanço do veículo na estrada, sem a necessidade de direção manual. “Com tantas vantagens, pensamos que, para compensar esses ganhos, os motoristas permaneceriam vigilantes, monitorando continuamente a pista e reconquistando o controle de seu veículo em caso de necessidade. A questão é que pesquisas mostram que a capacidade de uma pessoa permanecer vigilante diminui conforme a necessidade”, detalha, em comunicado, Eric Greenlee, professor-assistente de psicologia de fatores humanos na Universidade de Tecnologia do Texas, e um dos autores do estudo.

Para avaliar a vigilância durante a direção automatizada, Eric Greenlee e colegas pediram a 22 jovens adultos que dirigissem um veículo do tipo por 40 minutos. Na simulação, os voluntários também tinham que observar os veículos parados nos cruzamentos e identificar aqueles que estavam posicionados em segurança. Para denunciar os veículos considerados perigosos, os participantes tinham que pressionar um botão localizado no volante.

Os voluntário detectaram 30% menos riscos no fim do percurso do que no início. Segundo os cientistas, também houve tendência a reagir mais lentamente aos perigos à medida que o teste foi chegando perto do fim. Em um questionário pós-tarefa, os motoristas relataram que a combinação de tarefas foi difícil e estressante. “A expectativa de que um motorista humano fornecerá supervisão confiável e atenta durante a automação do veículo é insustentável. O monitoramento de falhas de automação pode ser bastante exigente e estressante, sugerindo que a automação do veículo não garante experiência de condução fácil ou despreocupada”, ressalta Eric Greenlee.

Para os autores, a falta de atenção constatada no experimento sinaliza a necessidade de maior fiscalização no tráfego. “Essas conclusões devem ser uma preocupação focal de segurança no desenvolvimento da automação de veículos”, defende o professor americano. “Queremos que pesquisadores de outras áreas relacionadas, desde a área mecânica à neurológica, possam investigar ainda mais a relação entre o carro e o comportamento cerebral humano.”

Para Theo Marins, doutorando em neurociência pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Instituto D’Or, a pesquisa traz dados extremamente interessantes que mostram como a neurociência e o comportamento humano são importantes nas mais diferentes áreas. “É uma área de pesquisa bastante factual, porque tem influência sobre o nosso futuro. Ela fala sobre uma tecnologia que depende menos dos humanos e que, provavelmente, utilizaremos bastante. Para isso, temos que saber como o nosso cérebro funciona nessas situações”, frisa.

O especialista ilustra como os resultados do estudo americano podem se encaixar em outra atividade cotidiana, como assistir a um filme chato. “A pessoa não consegue prestar atenção em nada que acontece. Ocorre o mesmo quando um motorista dirige esse tipo de carro por algum tempo. Ele perde o interesse. Não sabemos se isso é porque o cérebro se acomoda. É algo que ainda precisamos entender.”

Por isso, defende Theo Marins, trabalhos como o americano precisam ser conduzidos e aperfeiçoados. “Vemos que, para construir carros projetados para o homem, não podemos ficar só focados na engenharia, na matemática e na física porque questões sobre a atenção são essenciais para a segurança. É uma prova de como cada vez mais especialistas de áreas distintas precisam se reunir para trabalhar em busca de melhores resultados.”

"Queremos que pesquisadores de outras áreas relacionadas, desde a área mecânica à neurológica, possam investigar ainda mais a relação entre o carro e o comportamento cerebral humano”
Eric Greenlee, professor-assistente da Universidade de Tecnologia do Texas e um dos autores do estudo

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