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Correio Braziliense

Infecções silenciosas prejudicam o desenvolvimento infantil

Estudo mostra que 95% dos meninos e das meninas de oito países, incluindo o Brasil, estão contaminados por parasitas que não causam sintomas físicos. A presença desses patógenos, porém, compromete o desenvolvimento estatural e cognitivo dos pequenos


postado em 10/10/2018 06:00 / atualizado em 10/10/2018 12:54

Falta de saneamento básico e contato com alimentos contaminados são a principal fonte de infecção(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
Falta de saneamento básico e contato com alimentos contaminados são a principal fonte de infecção (foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

A alta porcentagem de crianças com crescimento atrofiado em países com poucos recursos chama a atenção de cientistas. Em média, 30% de meninos e meninas dessas nações têm o tamanho abaixo do estimado, muitos, inclusive, sendo diagnosticados como portadores de nanismo. A nutrição não adequada e a diarreia são apontadas como causadores do problema. Mas não são os únicos, reconhecem especialistas. Na busca por outros fatores, cientistas da Escola de Medicina da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, descobriram que infecções silenciosas por parasitas comuns podem estar comprometendo o desenvolvimento físico e mental de crianças.

A equipe examinou mais de 44 mil amostras de fezes de crianças de oito países: Paquistão, Índia, Nepal, Bangladesh, Tanzânia, África do Sul, Peru e Brasil. Testes moleculares altamente sensíveis ajudaram a detectar se os pequenos voluntários, mesmo sem apresentar sintomas, estavam infectados por algum patógeno. Mais de 95% testaram positivo para pelo menos um dos seguintes patógenos: parasita giárdia e bactérias Shigella, Campylobacter e Escherichia coli.

“É surpreendente que essas infecções sem diarreia sejam tão comuns, e que elas parecem explicar grande parte do deficit estatural. O desafio agora será ver se podemos reduzir a disseminação desses quatro micro-organismos”, afirma, em comunicado, Eric R. Houpt, pesquisador da Divisão de Doenças Infecciosas e Saúde Internacional da Universidade da Virgínia e um dos autores do estudo, publicado no jornal The Lancet Global Health.

A presença na lista da bactéria Shigella chamou ainda mais a atenção dos investigadores porque esse micro-organismo é conhecido pela ação altamente invasiva no intestino e por causar diarreia sanguinolenta. As amostras analisadas, porém, foram retiradas de crianças que não apresentavam a complicação.

Também causadoras de intoxicação alimentar, mas com efeitos no corpo mais amenos, espécies de Campylobacter entram no corpo pela ingestão de alimentos contaminados ou pelo contato com pessoas ou animais infectados. Entre os sintomas mais comuns causados pela bactéria estão diarreia, febre alta e dor abdominal.

No caso da Escherichia coli, as complicações podem ser tanto intestinais (diarreia) quanto no trato urinário (infecção da uretra, dos rins ou da bexiga, a mais comum). Já o parasita giárdia causa, em humanos, o mesmo problema intestinal e se prolifera devido a contato com más condições de saneamento, água e alimentos contaminados.

Novas práticas

Coautora do estudo, Liz Rogawski McQuade ressalta que o fato de as crianças estudadas apresentarem condição diferente da esperada sinaliza que o olhar para essas infeções precisa ser mudado. “Se apenas estivermos mirando a diarreia,  pode não ser suficiente. Precisamos também abordar essas exposições assintomáticas”, defende.

A cientista acredita que unir os esforços para conter o avanço desses quatro micro-organismos terá impacto considerável no desenvolvimento de crianças dos oito países estudados e de outras nações com características semelhantes. “Poderíamos esperar uma melhora no crescimento que é similar ao detectado em intervenções nutricionais em contextos similares. Isso coloca a exposição ao patógeno, em termos de importância, no mesmo nível da nutrição, que, no passado, foi considerada a principal razão para o fraco crescimento”, cogita.

Segundo James A. Platts-Mills, do Departamento de Medicina da universidade americana, as diretrizes internacionais recomendam que apenas a diarreia sanguinolenta seja tratada com antibióticos. “A detecção frequente de Shigella que não causa esse tipo de complicação e a forte associação entre infecção por essa bactéria e crescimento deficitário sugerem que essas diretrizes precisam ser revistas.”

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Os investigadores também ressaltam a importância de buscar soluções científicas para conter essas infecções silenciosas. “Fizemos enormes ganhos contra a diarreia em todo o mundo, e a taxa de mortalidade diminuiu muito rapidamente. Ambas conquistas são maravilhosas, mas ainda há muito espaço para melhorias, e nós, realmente, precisamos direcionar essas infecções subclínicas”, defende Liz Rogawski McQuade.

Há pesquisas em andamento para a criação de vacinas contra as bactérias Shigella e Campylobacter. A Universidade da Virgínia, por sua vez, conduz um ensaio clínico na Tanzânia para determinar se o tratamento dessas infecções assintomáticas reduzirá o deficit estatural sem aumentar significativamente a resistência aos antibióticos.

Como são assintomáticas, essas infecções costumam acompanhar as crianças por muito tempo e ter efeitos duradouros. Para os autores do estudo, a combinação de desassistência médica e falta de políticas de saúde pública favorece que os quatro micro-organismos comprometam o desenvolvimento de meninos e meninas e perpetuem um ciclo vicioso de pobreza. “Desnutrição significa que as crianças não estão crescendo e significa que elas adoecem mais facilmente. Elas não se saem tão bem na escola, e isso pode aprisioná-las na pobreza”, resume Eric R. Houpt.

 

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