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Correio Braziliense

Aquecimento global pode fazer preço da cerveja dobrar em alguns países

Mantido o ritmo de aumento da temperatura do planeta, a colheita de cevada sofrerá queda de produtividade de 16%


postado em 16/10/2018 05:00

Cientistas acreditam que centenas de milhões de pessoas deixarão de tomar a bebida alcoólica: queda maior em países pobres(foto: Kham/Reuters - 25/2/10 )
Cientistas acreditam que centenas de milhões de pessoas deixarão de tomar a bebida alcoólica: queda maior em países pobres (foto: Kham/Reuters - 25/2/10 )


Além de estar relacionado a fenômenos da natureza devastadores, como furacões e incêndios florestais, o aquecimento global pode interferir na produção de uma das bebidas mais consumidas mundialmente: a cerveja. O alerta é feito por pesquisadores britânicos e americanos em uma pesquisa divulgada na última edição da revista especializada Nature Plants. Segundo eles, secas e ondas de calor concomitantes, desencadeadas pelas altas temperaturas, levarão a declínios acentuados no rendimento das colheitas de cevada, a matéria-prima da bebida maltada.

Para chegar à conclusão, os cientistas construíram cenários com base nos níveis atuais e os projetados de queima de combustíveis fósseis e de emissões de dióxido de carbono. Na pior das hipóteses, se o aquecimento global continuar no mesmo ritmo em que se encontra hoje, regiões em que a cevada é cultivada — incluindo as grandes planícies do norte, pradarias canadenses, Europa, Austrália e a estepe asiática — poderão experimentar secas e ondas de calor mais frequentes, causando um declínio na produtividade das colheitas de até 16%. A quantidade é equivalente ao que é bebido em um ano nos Estados Unidos, calcularam os pesquisadores.

“Os níveis atuais de consumo de combustíveis fósseis e poluição por CO2 resultarão nesse pior cenário, com mais extremos climáticos impactando negativamente a produção de cerveja do mundo”, relata, em comunicado, Dabo Guan, professor de economia da mudança climática na Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e um dos autores do estudo. “O clima futuro e as condições de preço podem colocar a cerveja fora do alcance de centenas de milhões de pessoas”, complementa Nathan Mueller, professor-assistente de ciências da Universidade da Califórnia (UCL), nos Estados Unidos e também autor da pesquisa.


Os cientistas destacam que os modelos econômicos usados no estudo demonstraram forte potencial de aumento de preços em alguns países amantes da cerveja. Dessa forma, para decidir se vai ou não se deliciar com uma caneca da bebida, o consumidor passará a considerar mais o quanto pagará por isso. A estimativa é de que o preço médio da cerveja dobre. “O mundo está enfrentando muitos impactos da mudança climática. Dessa forma, as pessoas terão que gastar um pouco mais para beber cerveja, não vai ser mais um gasto tão trivial”, prevê Steven Davis, também autor do estudo e pesquisador da UCL. “Existe um forte apelo cultural à cerveja. Não ter a opção de desfrutar um copo gelado no fim de um dia cada vez mais quente ilustra o quanto nosso futuro será difícil”, acrescenta.


No cenário mais otimista, com uma grande diminuição imediata das emissões de gases do efeito estufa, cerca de 20 grandes eventos climáticos afetariam as regiões em que se cultiva cevada até 2100, o que reduziria a produção mundial de cerveja em 4% e aumentaria seu preço em 15%. “Nosso estudo mostrou que mesmo o aquecimento modesto levará a aumentos na seca e em eventos de calor excessivo em áreas de cultivo de cevada”, complementa Nathan Mueller.

Dilema de produção

Apenas a cevada de melhor qualidade (menos de 20% da produzida no mundo) é dedicada à produção de cerveja, todo o resto é colhido com o intuito de alimentar gado. Segundo os pesquisadores, “as culturas da mais alta qualidade são as mais sensíveis” à mudança de temperatura. Para eles, isso poderá criar um conflito nas próximas décadas: os produtores priorizarão os animais famintos por causa de humanos sedentos? Por conta disso, acreditam, a proporção do grão destinado à fabricação de cerveja diminuirá ainda mais. “A queda na produção mundial de cevada significa uma queda ainda maior na produção de cevada cervejeira”, acredita Guan.

O estudo descreve também como diferentes regiões do mundo serão afetadas, determinando que os preços subirão mais em países ricos e amantes da cerveja, como Bélgica, Canadá, Dinamarca e Polônia, e que o consumo da bebida deverá cair nas nações mais pobres, como a China. Os principais exportadores de cevada do mundo são Austrália, França, Rússia, Ucrânia e Argentina. Os grandes importadores são China, Arábia Saudita e Irã, seguidos por três grandes cervejeiros – Holanda, Bélgica e Japão.

Os pesquisadores também ressaltam que as alterações no clima afetarão a produção e o valor nutricional de outros cereais, como trigo, milho e arroz. “As mudanças climáticas podem reduzir a disponibilidade, a estabilidade e o acesso a ‘bens de luxo’”, frisa Dabo Guan.

Brasileiros no ranking
Uma das pesquisas mais recentes sobre o consumo de cerveja globalmente mostra que os brasileiros ocuparam o 17º lugar no ranking de bebedores de cerveja em 2017. O primeiro lugar ficou com a República Tcheca, seguida das Ilhas Seychelles e da Áustria. Divulgada em agosto, a pesquisa conduzida pela empresa alemã Statista mostra ainda que os brasileiros consomem 35 vezes mais cerveja do que vinho anualmente, uma média de 60,4 litros, praticamente a metade dos primeiros colocados no ranking. Os americanos estão em oitavo na lista, com um consumo médio de 74 litros no ano passado.

“Existe um forte apelo cultural à cerveja. Não ter a opção de desfrutar um copo gelado no fim de um dia cada vez mais quente ilustra o quanto nosso futuro será difícil”
Steven Davis, pesquisador da Universidade da Califórnia e um dos autores do estudo

 

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