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Correio Braziliense

Periodontite: inflamação na gengiva pode ter origem autoimune

Células de defesa impulsionam o processo que leva bactérias orais a causar a periodontite. Constatação feita por pesquisadores americanos abre a possibilidade de novos tratamentos para uma das doenças bucais mais incidentes no mundo


postado em 18/10/2018 06:00 / atualizado em 17/10/2018 23:52

 

A periodontite é uma das doenças bucais mais comuns e também um fator de risco de doenças pulmonares e cardíacas. Dentistas sabem que ela é provocada pela má higiene, já que o acúmulo de bactérias desencadeia inflamação nas gengivas. Mas há desconfiança sobre a atuação de outros fatores. Em experimentos com ratos e análises de humanos, cientistas americanos identificaram que o acúmulo de um grupo de células imune também está relacionado ao problema. As descobertas foram publicadas na última edição da revista Science Translational Medicine.

“Os cientistas sabem, há anos, que os micróbios na boca podem causar inflamação nos tecidos ao redor dos dentes, mas nós queríamos entender os detalhes subjacentes”, conta ao Correio Niki Moutsopoulos, uma das autoras do estudo e pesquisadora da Instituto Nacional de Pesquisa Dental e Craniofacial (NIDCR, em inglês), nos Estados Unidos.

Em observações laboratoriais, a cientista e sua equipe viram que células-T auxiliares (Th) 17 eram muito mais prevalentes no tecido gengival de humanos com periodontite do que nas gengivas de pessoas saudáveis, e que a quantidade de células Th17 estava correlacionada com a gravidade da doença. “Observamos que pessoas com doença gengival severa, ou periodontite, têm altas proporções de células imunes Th 17 em tecidos orais. Isso despertou nosso interesse, já que essas células têm sido implicadas em várias doenças inflamatórias, como psoríase e colite”, detalha a autora.

Para comprovar a relação, os investigadores realizaram um experimento com ratos e descobriram que, semelhante aos seres humanos, mais células Th17 se acumulam nas gengivas dos animais com periodontite, quando comparados aos saudáveis. Para checar se o microbioma oral seria o gatilho para o acúmulo de células Th17, os pesquisadores deram aos camundongos um coquetel de antibióticos.

A equipe descobriu que a eliminação de micróbios orais preveniu a expansão de células Th17 nas gengivas de camundongos com periodontite, enquanto outras células imunes não foram afetadas. Para os investigadores, o resultado aponta que uma população bacteriana não saudável desencadeia o acúmulo de células Th17. “Nossos resultados sugerem que as células Th 17 são impulsionadores desse processo, fornecendo a ligação entre bactérias orais e inflamação”, frisa Niki Moutsopoulos.

 

 

Teste terapêutico

Em uma segunda etapa, o grupo modificou geneticamente os camundongos para que não tivessem células Th17 ou deu às cobaias uma pequena molécula que evita o desenvolvimento dessas células. Houve a mesma resposta nos dois grupos: redução da perda óssea provocada pela periodontite. Análises de RNA mostraram que o fármaco bloqueador de Th17 levou à  diminuição da expressão de genes envolvidos na inflamação, na destruição de tecidos e na perda óssea, sugerindo, novamente, que as células Th17 podem mediar esses processos na periodontite.

Em uma última etapa, os pesquisadores estudaram 35 pacientes com um defeito genético que causa falta de células Th17. Esses voluntários eram menos suscetíveis à periodontite e apresentaram menos inflamação e perda óssea, em comparação a indivíduos pareados por idade e sexo. Niki Moutsopoulos ressalta que, apesar dos resultados animadores, análises mais amplas são fundamentais para comprovar o fenômeno em humanos. “Nossos estudos em ratos sugerem que o bloqueio seletivo de células Th17 pode ser benéfico na periodontite. No entanto, estudos adicionais são necessários para determinar se essa estratégia terapêutica será benéfica para pacientes com a doença bucal”, frisa.

Outros fatores

Heloisa Crisostomo, cirurgiã-dentista da clínica Dental Concept, em Brasília, destaca que o mecanismo constatado pela equipe americana é o mesmo de doenças autoimunes. “Quando o corpo não está em equilíbrio, esses linfócitos chamados Th17 podem fazer mal. Nas autoimunes, por alguma falha, a defesa do corpo é feita de forma irregular, e isso prejudica o organismo”, compara. A dentista também explica que existem subtipos da doença bucal. “Temos pacientes que perdem todos os dentes e, nesse caso, sabemos que pode ter influência de família, ou seja, existe a suspeita de outras causas envolvidas, além da má higienização.”

Crisostomo acredita que o trabalho americano poderá render tratamentos que sejam mais eficazes que os atuais. “Há a possibilidade de um medicamento mais certeiro. Manteríamos a limpeza, com a remoção da placa bacteriana, mas teríamos também um remédio que atuasse de forma mais direta e parasse, de imediato, com a perda óssea, como visto nos experimentos iniciais. Seria algo extremamente eficaz e muito bem-vindo”, completa.

Também câncer

Estudos científicos têm mostrando que a inflamação severa da gengiva pode estar relacionada ao surgimento de tumores malignos. Uma pesquisa da Universidade de Oxford sinaliza que a doença bucal está associada a um risco 24% maior de incidência de câncer e duas vezes maior de câncer de pulmão, quando comparado à ausência dela ou de graus mais leves da doença.  A equipe liderada por Dominique S. Michaud analisou 7.466 voluntários com idade entre 44 e 66 anos, provenientes de quatro regiões dos Estados Unidos. Foram constatados ao menos 100 casos de câncer de pulmão, próstata, mama, pâncreas, colorretais e de células sanguíneas, além de aumento da mortalidade geral em rações dos carcinomas. Resultados do trabalho foram divulgados, em janeiro, no Journal of the National Cancer Institute.

“Há a possibilidade de um medicamento mais certeiro. Manteríamos a limpeza, com a remoção da placa bacteriana, mas teríamos um remédio que atuasse de forma mais direta e parasse, de imediato, com a perda óssea”

Heloisa Crisostomo, cirurgiã-dentista da clínica Dental Concept, em Brasília

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