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Correio Braziliense

Amamentação e parto influenciam na composição da microbiota intestinal

Cientistas americanos acompanham mudanças no intestino de recém-nascidos ao longo de 46 meses e identificam como a amamentação e o parto influenciam na composição desse microbioma. Descoberta poderá ajudar a entender a causa do diabetes


postado em 25/10/2018 06:00 / atualizado em 24/10/2018 22:16

 

A formação da microbiota intestinal é um mistério para a área médica. Ela tem sido alvo de diversas pesquisas devido à importância dos micro-organismos que a compõem para a saúde humana. Em um estudo publicado ontem na revista britânica Nature, um grupo de cientistas americanos traz os resultados de uma análise que revelou detalhes da construção desse microbioma até 46 meses de idade (3 anos e 10 meses). A pesquisa mostra, por exemplo, como a amamentação e o tipo de parto podem influenciar a diversidade das bactérias probióticas que compõem o organismo.

“Há mais de 12 anos que realizamos estudos sobre o microbioma em mais de 300 projetos que examinam o seu impacto na saúde e em muitas doenças”, conta ao Correio Joseph Petrosino, diretor de microbiologia e professor na Universidade de Medicina de Baylor, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo. O cientista explica que, além da predisposição genética, a exposição ambiental — que influencia a construção da microbiota — pode fazer com que um indivíduo tenha risco aumentado de desenvolver uma enfermidade. “Muitos estudos têm procurado examinar as associações do microbioma com o surgimento de problemas de saúde, principalmente o diabetes tipo 1. Mas poucos desses estudos foram feitos em humanos, e nenhum deles com a amplitude e a profundidade dos dados a que tivemos acesso”, compara.

Petrosino e sua equipe usaram o repositório de informações médicas TEDDY, construído nos últimos 10 anos a partir de exames, coletas de material e entrevistas feitos com mais de 8.600 crianças dos Estados Unidos e da Europa Ocidental e seus pais. A equipe analisou 12.005 amostras de fezes coletadas de 903 bebês entre o 3º e o 46º mês de idade e com predisposição ao diabetes tipo 1. Usando sequenciamento de RNA e de DNA, eles descobriram que a microbiota intestinal passa por três fases de progressão: desenvolvimento (3 a 14 meses de idade), transitória (15 a 30 meses de idade) e estável (31 a 46 meses de idade).

O estudo revelou também associação entre a amamentação e a presença em abundância de duas espécies de bactérias com poderes probióticos: Bifidobacterium breve e Bifidobacterium bifidum. Além disso, a cessação da amamentação acelerou a maturação do microbioma de bebês, ou seja, eles passaram rapidamente para o estágio da fase estável, marcada por quantidades maiores de bactérias da espécie Firmicutes spp.

Nas crianças que tinham sido amamentadas, as cepas de Bifidobacterium que têm capacidade de processar leite humano não foram mais detectadas quando houve interrupção da alimentação de leite materno. “Acreditamos que, dessa forma, estirpes desse tipo de bactéria com outras funções podem crescer”, explica Petrosino. “Isso nos fornece uma visão de como a dieta precoce afeta o desenvolvimento do microbioma.”

Os pesquisadores também detectaram associação entre o parto vaginal e a maior abundância de bactérias pertencentes ao gênero Bacteroides. O mesmo foi observado em crianças que nasceram por cesariana. “Isso nos mostra que as implicações ainda não estão claras. Ter a diversidade microbiana é algo considerado benéfico, mas ainda não entendemos completamente quais sinais microbianos precoces são importantes para o desenvolvimento dela”, observa Petrosino.

Intervenção

Para Hermes Aguiar Júnior, gastroenterologista do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia (SBG), a pesquisa traz dados importantes e cada vez mais necessários à área médica. “Cada dia que passa, temos mais certeza do valor da microbiota para a saúde humana. A ideia de associar o microbioma de crianças com problemas de saúde como o diabetes pode ajudar a entender a causa dessa doença. É possível que enfermidades recorrentes na infância, como a asma e a bronquite, também possam ser mais bem compreendidas com esses dados”, frisa.

O médico ressalta que a pesquisa mostra como a alimentação é um fator importante no desenvolvimento humano. “Vemos como os fatores ambientais têm impacto. O que as crianças comem e onde vivem, também. São exemplos de variáveis que podem fazer diferença lá na frente, na fase adulta”, completa. Petrosino também chama a atenção para o uso a longo prazo dessas informações da infância. “Compreendendo as relações entre o microbioma e o hospedeiro, podemos identificar mais facilmente quando algo está errado e, dessa forma, talvez seja possível intervir no momento apropriado para manter a saúde e prevenir doenças”, justifica.

A equipe dará continuidade ao estudo focando justamente em ações clínicas. Eles pretendem desvendar a relação do microbioma com o desenvolvimento de um número diverso de doenças usando amostras do intestino, da cavidade nasal e do sangue. “Espera-se que essas análises revelem alvos para estudos futuros que tenham potencial para serem usados no desenvolvimento terapêutico ou no diagnóstico”, aposta Petrosino.

Hermes Aguiar Júnior também acredita que novas pesquisas poderão contribuir para o surgimento de terapias mais eficazes. “Acho que acompanhar uma pessoa não só na infância, mas até a idade adulta, é necessário. Dessa forma, podemos avaliar se o estímulo de determinada bactéria pode disparar uma imunidade melhor, por exemplo. Outro ponto importante de análise seria considerar diferentes dietas. Os asiáticos se alimentam de forma completamente diferente. Essa seria outra forma de comparação interessante”, opina o gastroenterologista.

É possível que enfermidades recorrentes na infância, como a asma e a bronquite, também possam ser mais bem  compreendidas com esses dados”

Hermes Aguiar Júnior, gastroenterologista do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia

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