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Correio Braziliense

Paraplégicos submetidos à estimulação elétrica epidural conseguem andar

Paraplégicos submetidos à estimulação elétrica epidural conseguem andar de forma independente e caminhar em uma esteira por até uma hora. Os resultados são melhores do que os de abordagens similares e poderão ajudar a inovar as técnicas de reabilitação


postado em 01/11/2018 06:00 / atualizado em 31/10/2018 23:41


Um tratamento neurotecnológico revolucionário ajudou a reverter a paralisia de pacientes paraplégicos. O método foi desenvolvido por cientistas suíços e funciona por meio da estimulação elétrica aplicada diretamente na medula, com o uso de um implante sem fio. Submetidos à abordagem experimental, três pacientes que sofriam com a paralisação dos membros inferiores conseguiram caminhar em poucos meses. As descobertas foram divulgadas em dois estudos publicados nas revistas britânicas Nature e Nature Neuroscience.

Os autores das pesquisas contam que estudos prévios com a estimulação elétrica ajudaram poucos pacientes paraplégicos a reaver os movimentos parcialmente, percorrendo distâncias consideradas curtas. Nesses casos, assim que a eletricidade era “desligada”, os indivíduos retornavam imediatamento ao estado de paralisia. Em busca de resultados mais animadores, os investigadores investiram na estimulação elétrica epidural (EES), técnica que já restaurou a locomoção em ratos com lesão da medula espinhal.

A EES foi administrada em três homens com lesão medular crônica (sofrida havia mais de quatro anos) e paralisia parcial ou completa dos membros inferiores. Mapas de ativação de neurônios motores e modelos simulados serviram para identificar os padrões de estimulação para diferentes grupos musculares. A EES foi aplicada por um gerador de pulsos, controlado em tempo real via comunicação sem fio e programado para ser coordenado com o movimento pretendido.

“O momento exato e a localização da estimulação elétrica são cruciais para o paciente produzir a locomoção específica necessária. É também essa coincidência espaço-temporal que desencadeia o crescimento de novas conexões nervosas”, explica, em comunicado, Grégoire Courtine, neurocientista do Instituto Federal Suíço de Tecnologia (EPFL em inglês) e principal autor dos estudos. Para funcionar, a estimulação direcionada deve ser tão precisa quanto um relógio suíço. “Em nosso método, nós implantamos uma matriz de eletrodos sobre a medula espinhal que nos permite direcionar o movimento do indivíduo de acordo com os grupos musculares das pernas”, acrescenta Jocelyne Bloch, neurocirurgiã do Hospital Universitário de Lausanne e responsável pelos implantes.

Rapidez

Segundo os pesquisadores, o maior desafio enfrentado pelos pacientes foi aprender como coordenar a intenção do cérebro com a estimulação elétrica. Eles, porém, não demoraram muito para vencê-lo. Alguns dias após o início do tratamento, evoluíram de andar em uma esteira para andar apoiados no chão — nos dois casos, enquanto recebiam a EES. Na mesma condição, também foram capazes de ajustar a elevação e o comprimento da passada. Eventualmente, os pacientes conseguiam andar por até uma hora na esteira.

Após a reabilitação, os três voluntários puderam andar de forma independente (com apoio parcial ou com andador) enquanto recebiam a estimulação elétrica epidural e recuperaram movimentos voluntários das pernas sem estarem submetidos à EES.  “Todos os três participantes puderam andar com suporte de peso corporal após apenas uma semana e melhoraram tremendamente em cinco meses de treinamento. O sistema nervoso humano respondeu ainda mais profundamente ao tratamento do que esperávamos”, frisa Courtine.

Sem fadiga

A abordagem gerou resultados mais positivos do que técnicas similares anteriores devido à forma como a estimulação foi feita. Além de mais minuciosa e de acompanhar os sinais de cada movimento dos pacientes, a abordagem usa estímulos elétricos que não são contínuos. “Dessa forma, ela promove a locomoção, preservando os sinais sensoriais provenientes das pernas. Além disso, os pacientes não exibiam nenhuma fadiga muscular nas pernas, outro ponto positivo”, detalha Courtine.

Renato Deusdara, neurocirurgião do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Coluna, concorda que o diferencial da técnica é a maneira minuciosa de estímulo de movimento. “Os locais em que os eletrodos foram implantados e essa estimulação em forma de looping fazem com que o aparelho refaça o movimento exato dos músculos”, explica. “Por exemplo, se você estiver em pé, vai ter de mexer a coxa e a batata da perna para se locomover. Essa sequência é ‘copiada’ por meio desses estímulos”, ilustra.

O médico explica que essa mimetização é responsável pelos resultados obtidos, ainda que não ocorra a estimulação. “Mesmo após quatro anos sem andar, que é o caso dos participantes do estudo, eles mantêm algumas vias relacionadas ao movimento preservadas. O paciente retoma a forma de agir quando precisa se movimentar, é o que chamamo de noção espacial. Ele consegue saber se o pé se movimenta mesmo de olho fechado”, detalha. “É claro que alguns pacientes podem não ter essa mesma preservação, depende do dano ocorrido na medula.”

Os autores do estudo ressaltam que mais voluntários precisam ser analisados para se considerar algumas especificidades da técnica. A intenção da equipe é que a tecnologia esteja disponível em hospitais e clínicas. “Estamos construindo uma neurotecnologia para ser testada logo após a lesão ter ocorrido, quando o potencial de recuperação é alto, e o sistema neuromuscular ainda não sofreu a atrofia que acompanha a paralisia crônica. Nosso objetivo é desenvolver um tratamento amplamente acessível”, adianta Courtine.

Palavra de especialista

Futuro brilhante

“A tecnologia e a reabilitação avançaram ao ponto de  pessoas com lesão medular poderem se levantar da cadeira de rodas e começar a andar. Por muitos séculos, acreditamos que a paralisia devido à lesão da medula espinhal era incurável se nenhuma recuperação ocorresse nos primeiros seis meses após o acidente. Mas, por meio de uma combinação de tecnologia avançada que fornece estimulação elétrica diretamente para a medula espinhal e fisioterapia intensiva, pessoas com lesão medular estão começando a andar novamente. Esses estudos mostram que alguns movimentos voluntários persistiram mesmo quando a estimulação foi desligada. Esses resultados levam os autores a repensar a forma como vemos e tratamos a lesão da medula espinhal e a plasticidade do sistema nervoso. Esses resultados demonstram claramente o futuro brilhante para o tratamento da lesão medular”

Chet Moritz, pesquisador dos departamentos de Engenharia Elétrica e de Computação e de Medicina de Reabilitação, Fisiologia e Biofísica da Universidade de Washington, em um artigo opinativo publicado na revista Nature

“Todos os três participantes puderam andar com suporte de peso corporal após apenas uma semana e melhoraram tremendamente em cinco meses de treinamento”

Grégoire Courtine, neurocientista do Instituto Federal Suíço de Tecnologia (EPFL em inglês) e principal autor do estudo

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