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Correio Braziliense

Com população mais alta e pesada, falta de comida será um problema até 2048

Baseados em dados demográficos de 186 países, cientistas noruegueses estimam que viveremos uma crise alimentícia até 2048. A população mundial aumentará em peso, altura e quantidade, mas não haverá comida suficiente para mantê-la


postado em 18/11/2018 08:00 / atualizado em 17/11/2018 20:47

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Em cerca de 30 anos, a população mundial ganhará novos contornos. Serão cerca de 9 bilhões de pessoas (somos 7,6 bilhões hoje), mais altas e mais gordas que a média atual, segundo projeções feitas por cientistas noruegueses. Ao trabalhar sobre dados demográficos de 186 países, a equipe também detectou que a oferta de alimentos pode não conseguir acompanhar esse novo perfil de habitantes. Eles estimam que, somando os dois fenômenos com a destruição em curso do meio ambiente, poderemos enfrentar uma grave crise na produção alimentícia, fazendo com que a fome se torne um problema de proporções ainda maiores.

Segundo o estudo, publicado na revista especializada Sustainability, em um futuro próximo, as pessoas comuns precisarão de mais comida do que hoje. Mudanças nos hábitos alimentares, desperdício de alimentos, aumento da altura e da massa corporal e as transições demográficas são algumas das razões envolvidas. “Será mais difícil alimentar 9 bilhões de pessoas em 2050 do que seria hoje”, explica ao Correio Gibran Vita, doutorando do Programa de Ecologia Industrial da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e um dos autores do estudo.

Gibran Vita e seus colegas detectaram que, em 2014,  um adulto médio era 14% mais pesado, 6,2% mais velho, cerca de 1,3% mais alto e precisava de 6,1% mais energia do que uma pessoa com perfil semelhante em 1975. “Um adulto global médio consumia 2.465 quilocalorias por dia em 1975. Em 2014, 2.615 quilocalorias”, explica.

Globalmente, o consumo humano cresceu 129% no mesmo período, sendo que o aumento da população responde por 116% desse valor e o do peso e da altura das pessoas, por 15%. Em contraponto, o envelhecimento reduziu as necessidades energéticas em 2%. Segundo Felipe Vásquez, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, considerando o aumento do peso e da altura e a influência do envelhecimento, a demanda de energia corresponde à demanda por alimento de 286 milhões de pessoas. “Isso corresponde aproximadamente às necessidades alimentares da Indonésia e da Escandinávia juntas”, ilustra.

Brasil 


Os pesquisadores observaram que há países que sofreram mudanças ainda mais expressivas. Em Santa Lúcia, no Caribe, por exemplo, o peso médio dos adultos subiu de 62kg em 1975 para 82kg 40 anos depois. As maiores alterações foram constadas em países da África; e as menores, nos asiáticos.

No Brasil, as necessidades médias alimentares eram de 2.518 quilocalorias por pessoa por dia em 1975 e subiram para 2.729 quilocalorias em 2014. “O peso de um brasileiro médio foi de 58kg para 70kg. Um aumento considerável”, ressalta Gibran Vita. A altura do brasileiro mudou de 1,61m para 1,64m, e a idade média dos adultos de 37 anos para 42 anos.

Os investigadores ressaltam que a pesquisa se diferencia de outras análises pelos métodos utilizados. “Estudos anteriores não levaram em conta as crescentes demandas de indivíduos com excesso de peso e sociedades idosas ao calcular as futuras necessidades alimentares de uma população em crescimento”, explica Felipe Vásquez Vásquez.

Segundo o cientista, a maioria dos estudos estima que as necessidades alimentares de um adulto médio permanecem constantes ao longo do tempo e que são bastantes semelhantes entre as nações. Para eles, o cenário não é bem assim. “Essas suposições podem levar a erros na avaliação de quanto alimento realmente precisamos para atender à demanda futura”, frisa.


Biodemografia


Os autores do estudo reforçam que é necessário olhar mais do que apenas o número de habitantes de um local para entender os mecanismos por trás do consumo de alimentos. “Precisamos considerar a população além de meros números. Estamos mudando rapidamente, e os hábitos de uma geração afetam os corpos das próximas”, lembra Gibran Vita.

Na tentativa de propor novos olhares, a equipe norueguesa conduziu o trabalho inspirado na biodemografia, um híbrido de biologia e demografia. “Esse estudo surgiu com base na ecologia industrial, que ensina como manter uma perspectiva sistêmica sobre esse tipo de problema. Nós tentamos praticar a ecologia industrial com uma mente mais aberta. Por isso, usamos a teoria do metabolismo demográfico, que analisa os componentes relacionados ao crescimento da sociedade. Isso requer uma abordagem multidisciplinar que considera fatores sociais e fisiológicos”, detalha Gibran Vita. “Como próximo passo, queremos explorar outros aspectos da mudança de corpos humanos, além da busca por alimentos.”
 

Novos hábitos podem ajudar

 
A mudança de comportamento alimentar é uma das medidas propostas pelos cientistas noruegueses para reduzir os impactos da possível crise na produção alimentícia. “Estamos comendo mais alimentos do que nunca e ficando mais sedentários. Experimente comer menos. Coma apenas o necessário. Esteja atento ao próprio corpo”, sugere Gibran Vita, doutorando do Programa de Ecologia Industrial da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e um dos autores do estudo.

Maria Edna de Melo, endocrinologista e presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), também acredita que o excesso de peso, já preocupante no cenário atual, poderá ser agravado. Como forma de enfrentar agora o problema, a especialista lista quatro pontos básicos: “A mudança da alimentação escolar, a taxação extra em bebidas açucaradas e alimentos gordurosos, a regulamentação da publicidade infantil e a rotulagem frontal, que identifique alimentos com excesso de gordura e sal”.

A médica ressalta que políticas voltadas para esses pontos, defendidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), começam a ser adotadas no Chile e no México, mas ainda sem a possibilidade de uma análise mais aprofundada. “Ainda não temos como analisar o cenário nesses países porque essa mudança ocorreu recentemente, em 2016”, justifica. “Mas acredito que, em dois anos, teremos resultados reais. Isso seria muito bom para o Brasil, visto que a última pesquisa nacional Vigitel mostra que 54% da população apresenta excesso de peso”, frisa

A médica também destaca que a economia é beneficiada com o combate à obesidade. São reduzidos, por exemplo, gastos relacionados a problemas desencadeados pelo excesso de peso, como diabetes e hipertensão. “Prevenir pode sair muito mais em conta, além dos impactos que isso gera na rotina da pessoa, na qualidade de vida. Temos impactos econômicos e sociais consideráveis.” (VS)
 

Preocupação também ambiental

 
As conclusões a que chegaram os cientistas noruegueses estão em concordância com dificuldades observadas também por organizações não governamentais ambientalistas. “Segundo a WWF, o maior problema ambiental do mundo é a destruição da vida selvagem e do habitat das plantas. Uma grande parte da devastação é devido às demandas de uma população humana em constante crescimento. Por outro lado, Fome Zero é o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e seu desafio é atender a crescente demanda global por alimentos”, ilustra Gibran Vita, doutorando do Programa de Ecologia Industrial da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia.

Izabel Cristina Bruno Bacellar Zaneti, pesquisadora e professora do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), da Universidade de Brasília (UnB), acredita que a produção alimentícia pode não conseguir suprir as necessidades da população em um futuro não muito distante. “Já estamos vivenciando esse problema, com impactos na saúde das pessoas. Produtores preocupados em produzir mais têm abusado do uso de hormônios nos alimentos, como na produção de frangos, visando apenas o lucro. O mesmo acontece com o uso de todos os tipos de agrotóxicos possíveis em plantações”, explica.

Para a especialista, além da preservação do meio ambiente, o incentivo aos pequenos produtores pode otimizar a produção de alimentos e gerar, ao mesmo tempo, uma oferta mais saudável. “A agricultura familiar é uma das poucas que ainda não trabalha com esses recursos tóxicos, mas esses produtos ainda são mais caros,  o que se torna um entrave. É preciso conscientizar a população e também criar políticas públicas que ajudem a esses pequenos agricultores, algo que sabemos que é difícil devido à forma como o mercado funciona”, contextualiza. (VS)
 
 

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