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Correio Braziliense

Homem contribuiu para extinção de grandes herbívoros na África

Extinção de grandes herbívoros na África não se deu em função da atividade de ancestrais humanos, segundo estudo americano. Mudanças ambientais e climáticas estão por trás do fenômeno


postado em 23/11/2018 06:00

Os elefantes são uma das cinco espécies que não foram extintas: ao menos 28 linhagens desapareceram (foto: AFP PHOTO / TONY KARUMBA )
Os elefantes são uma das cinco espécies que não foram extintas: ao menos 28 linhagens desapareceram (foto: AFP PHOTO / TONY KARUMBA )


Cangurus gigantes, lêmures do tamanho de gorilas e felídeos com mais de três metros, entre outros animais de grande porte, poderiam ser vistos em regiões da América do Norte, da Austrália e da África há 50 mil anos. As grandes espécies foram dizimadas, e nossos ancestrais hominídios, apontados como os principais culpados. Um estudo americano divulgado na edição desta semana da revista Science pode mudar essa história. Segundo pesquisadores das universidades de Massachusetts e de Utah, a extinção desses animais se deu em consequência de mudanças climáticas.

“Impactos humanos na biodiversidade da Terra têm sido significativos e, às vezes, catastróficos. Nesse caso, pelo menos, nossos ancestrais não têm culpa. Aqui, há uma perda de diversidade de longo prazo, relacionada a eventos mais amplos no clima e nos ambientes da Terra nos últimos vários milhões de anos”, afirma John Rowan, pesquisador de Massachusetts e participante do estudo.

Para chegar à conclusão, os pesquisadores avaliaram 100 conjuntos de fósseis da África Oriental das maiores espécies de mamíferos, os chamados mega-herbívoros, com mais de 900kg. Junto, esse material representa mais de 7 milhões de anos de história. Na análise, a equipe considerou datas e eventos importantes da evolução dos hominídeos, como a primeira aparição do Homo Erectus, espécie conhecida pelo uso de machados de pedra avançados e pelo grande consumo de carne. O registro é de cerca de 1,9 milhão de anos atrás. Grandes extermínios de mamíferos, há aproximadamente 3,4 milhões de anos, também foram levados em conta.

Segundo Tyler Faith, líder do estudo, as análises mostraram que houve declínio constante e de longo prazo da diversidade de mega-herbívoros há cerca de 4,6 milhões de anos. “Esse processo de extinção começou há mais de um milhão de anos antes das primeiras evidências de ancestrais humanos fabricando ferramentas de caça. Não havia qualquer espécie realisticamente capaz de caçá-los, como o Homo Erectus”, declara o também professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Utah.

No artigo, os pesquisadores ressaltaram ainda que, nesse período, o único ancestral humano vivo conhecido era o Ardipithecus, “que não tinha ferramentas de pedra e, muito provavelmente, caçava presas pequenas, como os chimpanzés fazem hoje.” De acordo com a pesquisa, cerca de 28 linhagens de mamíferos foram extintas no espaço de 4 milhões de anos.  Hoje, existem cinco espécies: elefante, girafa, hipopótamos, rinoceronte negro e branco. “Se os hominídios fossem responsáveis pela extinção, esperaríamos que o declínio acontecesse com marcos comportamentais ou adaptativos na evolução humana”, ressalta Rowan.

Carbono

Na busca por uma nova explicação para a extinção de mega-herbívoros, a equipe examinou registros de características climáticas e ambientais da época, especificamente de presença de gás carbônico atmosférico global (CO2). Para isso, avaliaram registros estáveis de isótopos de carbono em estruturas de vegetação milenares e isótopos de carbono estáveis em fósseis de dentes de herbívoros do leste da África. Com isso, o grupo constatou que o CO2 foi o principal responsável pela morte de inúmeras espécies mamíferas africanas.

“O fator-chave no declínio dos mega-herbívoros parece ter sido a expansão das pastagens, o que provavelmente está relacionado a uma queda global no CO2 atmosférico nos últimos 5 milhões de anos”, explica Rowan. Segundo o pesquisador, baixos níveis de gás carbônico favorecem mais as gramíneas tropicais do que as grandes árvores, que demandam mais o composto químico para sobreviver. Como consequência, as savanas se tornam menos lenhosas e ganham vegetação mais rasteira. “Sabemos que muitos mega-herbívoros extintos se alimentavam de vegetação lenhosa, por isso, parecem ter desaparecido junto com sua fonte de alimento. Neste caso, pelo menos, nossos ancestrais não têm culpa”, diz Rowan.

Em cadeia

A constatação levou a equipe a elaborar uma explicação alternativa à versão de que a competição com espécies cada vez mais carnívoras, incluindo ancestrais humanos, levou à morte de numerosos carnívoros nos últimos milhões de anos. “Sabemos que também existiram grandes extinções entre os carnívoros africanos naquele momento e que alguns deles, como os dentes-de-sabre, podem ter se especializado em presas muito grandes, talvez, elefantes juvenis. Pode ser que alguns desses carnívoros tenham desaparecido com suas presas mega-herbívoras.

"Esse processo de extinção começou há mais de um milhão de anos antes das primeiras evidências de ancestrais humanos fabricando ferramentas de caça”

Tyler Faith, líder do estudo

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