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Correio Braziliense

Tecnologia com nanotransportador pode ajudar a tratar a osteoartrite

Remédio acoplado a nanotransportador chega facilmente ao local da articulação que está comprometida, uma limitação das drogas tradicionais. Em testes, cientistas americanos identificam redução de até 60% no tamanho de degeneração no joelho de ratos


postado em 29/11/2018 06:00 / atualizado em 29/11/2018 00:48

(foto: Arte/CB/D.A Press )
(foto: Arte/CB/D.A Press )

 

A osteoartrite — problema de saúde que atinge principalmente a população idosa —, não tem cura e o seu tratamento enfrenta um grande desafio: fazer com que os remédios penetrem o espaço entre os ossos e cheguem ao local afetado. Um consórcio de cientistas americanos desenvolveu uma molécula que consegue transportar as drogas para as articulações, impedindo a eliminação rápida das moléculas e, consequentemente, aumentando a ação da terapia. As descobertas foram publicadas na última edição da revista especializada Science Translational Medicine.

Os cientistas explicam que muitos candidatos a medicamentos para a osteoartrite falham em testes clínicos porque são eliminados das articulações antes de penetrar as células produtoras de cartilagem, os condrócitos. “Iniciamos o estudo com o entendimento de que nanomateriais carregados positivamente poderiam se ligar e penetrar a cartilagem, carregada negativamente. Essas interações positiva e negativa haviam se mostrado promissoras em trabalhos anteriores”, conta ao Correio Brett Geiger, um dos autores e pesquisador do Departamento de Engenharia Biológica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Geiger conta que, depois de muita pesquisa, ele os colegas chegaram ao PAMAM e ao polietilenoglicol. “Vimos que esses polímeros se encaixavam no que procurávamos”, diz. Com os materiais selecionados, a equipe projetou um nanocarregador, molécula minúscula usada para transportar substâncias, que foi batizado de dendrímero. A tecnologia possui uma superfície (positiva), que se liga efetivamente ao tecido de cartilagem (negativo), o que permite uma penetração tecidual mais profunda.

Em testes com animais, os pesquisadores anexaram o medicamento chamado fator de suporte de crescimento de cartilagem (IGF-1) ao dendrímero. Eles observaram que injeções do composto penetraram na cartilagem de vacas — semelhante em espessura à cartilagem humana — em apenas dois dias. Em rato, uma única injeção restaurou com segurança a integridade da cartilagem e dos ossos de forma mais eficaz do que a aplicação de IGF-1 sem o uso do nanocarregador e reduziu a largura da degeneração da cartilagem em joelhos danificados em 60%. “O período de tempo em que o nanocarregador permanece dentro da articulação do joelho e as melhorias proporcionadas aos roedores foram consideráveis”, frisa o autor do estudo.

O especialista destaca que o dendrímero mostrou vantagens extremamente superiores a tecnologias semelhantes. “Outros métodos apresentaram resultados parecidos, mas o que se destaca em nosso trabalho é a capacidade de penetrar a cartilagem das cobaias, que é tão espessa quanto a humana, com cerca de 1mm. Isso é muito importante para acessar todas as células da cartilagem com as drogas pretendidas. Muitas tecnologias que permanecem na articulação durante o mesmo tempo que a nossa não penetraram tão profundamente”, compara Geiger.

Carona variada

Mais um ponto positivo da tecnologia, de acordo com a equipe do MIT, é a capacidade de fornecer uma grande variedade de drogas biológicas, como fatores de crescimento, além de anticorpos, ácidos nucleicos (RNA ou DNA) e outras proteínas. “Alguns sistemas de administração de medicamentos para a cartilagem só podem fornecer pequenas moléculas, como a cortisona ou o ibuprofeno. Drogas biológicas podem fazer coisas realmente importantes, impedir, por exemplo, que o corpo danifique ou regenere a cartilagem, tarefas que muitas moléculas pequenas não conseguem realizar”, explica Geiger.

Os autores do estudo ficaram extremamente satisfeitos com os resultados dos testes com animais, o que, segundo eles,  impulsionará uma pesquisa ainda mais ampla. Um dos próximos passos será testar o nanocarregador em composições humanas diferentes. “Vamos usá-lo em tecidos semelhantes à cartilagem, como o menisco, tendão ou córnea. Estamos interessados em utilizar outros medicamentos biológicos também. E, claro, se quisermos chegar mais perto de sermos capazes de usá-lo em humanos algum dia, precisamos testar essa tecnologia em animais maiores, como porcos ou até cavalos, para garantir que ela seja segura e funcione como pretendido”, adianta Geiger.

Renato Bandeira de Mello, diretor científico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), acredita que o método desenvolvido pelos pesquisadores seria extremamente útil na área médica, mas ressalta a necessidade de mais análises. “Essa molécula de entrega de medicamentos é algo inovador ao propor que, por meio de um sistema elétrico, seja possível penetrar articulações, melhorando doenças articulares generativas. Porém, essa fase ainda é inicial. Para se traduzir em benefícios humanos, ainda demorará. Precisamos de uma análise mais ampla”, pondera.

Para o médico brasileiro, mais testes também podem esclarecer uma preocupação constante, os efeitos colaterais desse tipo de intervenção. “É preciso saber se existe a chance de se formarem tumores benignos ou malignos nessas articulações. Resumindo, precisamos saber se esse método tem segurança”, frisa. Mello lembra ainda que, ao falar em osteoartrose, é importante frisar a importância de cuidados além do tratamento medicamentoso. “É necessário realizar atividades físicas supervisionadas para reforçar a musculatura, evitar a sobrecarga articular, como atividades que geram um alto impacto ao joelho e ao quadril”, frisa.

"O que se destaca em nosso trabalho é a capacidade de penetrar a cartilagem das cobaias, que é tão espessa quanto a humana, (…) Isso é muito importante para acessar todas as células da cartilagem com as drogas pretendidas”

Brett Geiger, pesquisador do Departamento de Engenharia Biológica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e um dos autores do estudo

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