Ciência e Saúde

Cientistas traçam perfis de alcoolistas para personalizar tratamento

Pesquisadora americana traça perfis de indivíduos cuja ingestão de bebidas alcoólicas pode ser considerada um transtorno. Segundo especialistas, o detalhamento pode ajudar na criação de medidas mais personalizadas de tratamento e prevenção

Vilhena Soares
postado em 02/12/2018 07:00
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O alcoolismo é um problema de saúde para diversos países, e os efeitos do aumento da ingestão de bebidas alcoólicas tem feito com que a doença seja alvo de cientistas, que buscam maneiras mais eficazes de preveni-la e tratá-la. Para entender melhor como o vício pode afetar indivíduos de formas distintas, uma americana analisou mais de mil voluntários e, com os dados, traçou cinco perfis de indivíduos com o transtorno por uso de álcool. Segundo Ashley N. Linden-Carmichael, os resultados podem gerar tratamentos mais personalizados e eficientes. Os resultados do trabalho foram publicados na revista especializada Alcohol and Alcoholism.

A autora do estudo destaca que o abuso de álcool é mais complicado do que simplesmente ;beber demais;. Trata-se de um grande problema de saúde pública, que merece ser mais investigado. ;Alguns bebedores pesados preenchem os critérios para um transtorno por uso de álcool, mas, na maioria das investigações anteriores sobre o tema, os pesquisadores se concentraram apenas na gravidade dos sintomas. Eu e meu grupo estávamos interessados em saber se existem diferentes tipos de ;bebedores problema; para obter uma compreensão mais precisa, que pudesse ajudar em detecção e tratamento precoces;, conta ao Correio a pesquisadora em saúde biocomportamental e professora da Universidade Estadual da Pensilvânia.
[SAIBAMAIS]Linden-Carmichael e sua equipe usaram dados de 5.402 participantes do estudo chamado Pesquisa Nacional de Epidemiologia sobre Álcool e Condições Relacionadas, realizado em 2016, nos Estados Unidos. Para montar a amostra, a equipe considerou indivíduos com 18 a 64 anos e que preenchessem os critérios para o diagnóstico de transtorno por uso de álcool no ano anterior ao estudo (Veja infográfico).

Ao analisar os dados, a equipe chegou a grupos de pessoas que compartilham sintomas similares de transtornos por uso de álcool. A partir dessa informação, foram montados os perfis de bebedores problemáticos. Segundo Linden-Carmichael, o método utilizado, desenvolvido no Centro de Metodologia da Penn State, ajudou também a revelar a prevalência de alguns perfis em diferentes idades.

Para a líder do estudo, os profissionais de saúde podem considerar a possibilidade de personalizar os tratamentos e os esforços de intervenção tendo como base os dados da pesquisa. ;Os terapeutas poderiam considerar, por exemplo, que, em um jovem adulto, deve-se procurar sintomas de abstinência. Por outro lado, em um público mais velho, é indicado procurar pessoas que lutam para não ter ferimentos relacionados ao álcool. Vimos essas características no trabalho;, ilustra.

Além dos manuais


Custódio Martins, psiquiatra do Instituto de Neurociências de Brasília (INCB), destaca que o estudo americano revela informações que se diferenciam de dados atuais na área médica relacionados ao consumo de álcool. ;É uma abordagem interessante, que foge das classificações dos manuais atuais, mostrando dados de dependência diferentes dos conhecidos na saúde mental;, compara.

Helena Moura, psiquiatra especialista em dependência química, também acredita que o grande destaque da pesquisa é trazer novas informações comportamentais relacionadas ao consumo de álcool. ;Esse é um tema que se discute há anos. Sabemos que nem todo alcoolista é igual. Por isso, criar categorias para entender melhor os perfis é algo que pode nos ajudar. Hoje, usamos 11 critérios para caracterizar as pessoas com esse tipo de problema, mas esse estudo usa dados ainda mais detalhados;, diz.

Linden-Carmichael conta que pretende usar o mesmo método em uma nova pesquisa, mas dando ênfase às diferenças etárias. ;Estou interessada em ver, por exemplo, o que acontece mais tarde com alguém que tem um certo perfil em uma idade mais jovem;, exemplifica. ;Se uma pessoa está na classe de efeitos adversos apenas aos 21 anos, como estarão os seus hábitos relacionados à bebida aos 60 anos? Eles aumentam ou diminuem de velocidade? Se pudéssemos ter um estudo similar e maior e ainda seguir os participantes durante seu envelhecimento, isso seria mais intuitivo e benéfico para os resultados.;

;Sabemos que nem todo alcoolista é igual. Por isso, criar categorias para entender melhor os perfis é algo que pode nos ajudar;
Helena Moura, psiquiatra especialista em dependência química

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