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Correio Braziliense

COP-14 começa com um cenário de atraso em relação a Acordo de Paris

Até o próximo dia 14, espera-se que líderes de 197 países criem um plano de ação para implementar o acordo climático de 2015.


postado em 04/12/2018 06:00

Antonio Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas(foto: Janek Skarzynski/AFP)
Antonio Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (foto: Janek Skarzynski/AFP)
 

Três anos depois da assinatura do Acordo de Paris, os países que se comprometeram a conter as emissões de gases de efeito estufa a partir de 2020 seguem se “movendo lentamente” e na direção errada”. Por isso, chegam à 24ª Conferência do Clima (COP-24), em Katowice, na Polônia, em uma condição de atraso generalizado, segundo Antonio Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). “A mudança climática avança mais rápido do que nós, e precisamos alcançar nosso atraso o mais rápido possível, antes que seja tarde demais (…) É difícil entender por que, coletivamente, ainda estamos nos movendo tão lentamente e na direção errada.”

A cúpula do clima teve ontem o seu primeiro dia de negociação, sem a presença de chefes de Estado e de governo das nações mais poluentes. Até o próximo dia 14, espera-se que líderes de 197 países criem um plano de ação para implementar o acordo climático de 2015. A delegação brasileira está menor do que as de edições anteriores e, para especialistas, também deverá ter uma atuação diferente. Segundo Alfredo Sirkis, coordenador executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, as posições do presidente eleito Jair Bolsonaro, como a desistência de sediar em 2019 a COP-25, vão pesar na nova participação.

“A delegação brasileira vai estar profundamente constrangida e inibida com essa situação. E o Brasil, que sempre foi vanguarda nos processos negociadores, teve um grande papel de articulação dos outros países, possivelmente, será o mais discreto possível”, acredita. Segundo Sirkis, a COP deste ano terá importância política, com discussões influenciadas pelo anúncio do presidente americano, Donald Trump, de que os Estados Unidos sairão do Acordo de Paris, além de aceno semelhante feito por Bolsonaro.

Desdobramentos da recente reunião do G-20, em Buenos Aires, também devem interferir politicamente no encontro na Polônia. Na capital argentina, o presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que os acordos comerciais do seu país estão condicionados ao compromisso dos governos da América Latina em relação ao Acordo de Paris. Na ocasião, Michel Temer e outros chefes de Estado latino-americanos reforçaram a adesão ao tratado.

De acordo com o secretário de Mudança do Clima e Florestas do Ministério do Meio Ambiente brasileiro, Thiago Mendes, o Brasil apresentará, na COP-24, 42 projetos de empresas e da sociedade civil que promovem baixas emissões de gás carbônico. “Isso é muito inovador. Não vimos nenhum país trabalhando nessa linha, com número de casos tão vasto e tão diverso”, diz.

Também serão anunciados “dados sólidos” de redução do desmatamento nos últimos 10 anos. “Mesmo tendo variações, caímos de mais de 20 mil metros quadrados (desmatados) para 7,9 mil metros quadrados por ano”, afirmou Mendes.  No fim de novembro, o governo brasileiro divulgou aumento de 13,7% no desmate entre agosto de 2017 e julho de 2018, em comparação ao ciclo anterior.

 

Financiamento

Outro ponto-chave da COP-24 deverá ser o financiamento das ações necessárias para a implementação do acordo climático, considerando a meta de doação de pelo menos US$ 100 bilhões (cerca de R$ 386 bilhões) por ano de países desenvolvidos para as nações de menor renda. “Para muitas pessoas, regiões e até mesmo países, já é uma questão de vida ou morte”, alertou ontem Guterres.

O grupo dos Países Menos Avançados (PMA) pretende pressionar em torno dessa questão ao longo da cúpula. “Representamos quase 1 bilhão de pessoas. Elas são as menos responsáveis pela mudança climática, mas as mais vulneráveis a suas consequências”, comentou, antes da conferência, o presidente da delegação, o etíope Gebru Jember Endalew. “Temos a sensação de que estão nos punindo por erros que não cometemos. A comunidade internacional deve agir para que se faça justiça”, declarou a presidente do Nepal, Bidhya Devi Bhandari, aludindo em particular ao degelo das geleiras do Himalaia.

Como a questão do financiamento Norte-Sul atrapalhou negociações em edições anteriores, o Banco Mundial anunciou, ontem, a liberação de US$ 200 bilhões, entre 2021 e 2025, para ajudar na redução das emissões e na adaptação da mudança climática. O valor é o dobro do anunciado no período anterior. “Isso envia um sinal importante para a comunidade internacional. Cada um deve fazer o que pode contra as mudanças climáticas. Do contrário, nossos filhos e netos não nos perdoarão”, alertou a diretora-geral da instituição  Kristalina Georgieva.

 

 

 

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