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Correio Braziliense

2017, o ano que entrará para a história como o dos extremos climáticos

Registros de fenômenos como chuva e seca intensas batem recorde e tendem a aumentar, segundo relatório divulgado na COP-24. Países pobres e em desenvolvimento estão em pior colocação em ranking de vulnerabilidade. Brasil melhora a posição


postado em 05/12/2018 06:00

Fogo em Coimbra, Portugal: país ficou mais vulnerável em decorrência dos incêndios florestais do ano passado(foto: Patricia de Melo Moreira/AFP)
Fogo em Coimbra, Portugal: país ficou mais vulnerável em decorrência dos incêndios florestais do ano passado (foto: Patricia de Melo Moreira/AFP)

Eventos climáticos extremos têm perdido a condição de excentricidade. Calor e chuvas intensos, por exemplo, são cada vez mais registrados em pontos diversos do globo. No ano passado, as perdas relacionadas a esses fenômenos foram as maiores já registradas no mundo, segundo a organização não governamental alemã Germanwatch. A estimativa é de que 11.500 pessoas morreram em consequência de ciclones, seca, deslizamentos, furacões, entre outros desastres. Os danos econômicos totalizaram aproximadamente US$ 375 bilhões.

Os dados fazem parte da nova edição do Índice Global de Risco Climático, elaborado pela ONG alemã e lançado ontem, na 24ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP-24),  que ocorre em Katowice,  na Polônia. O documento mostra ainda que os países mais afetados por catástrofes climáticas são pobres ou em desenvolvimento.

“A COP-24 tem que aumentar os esforços para lidar adequadamente com perdas e danos (…) Os países pobres são os mais atingidos. Mas eventos climáticos extremos também ameaçam o desenvolvimento de países de renda média alta e podem até sobrecarregar países de alta renda”, alerta David Eckstein, da Germanwatch, principal autor do índice.


Porto Rico sofreu com os impactos do furacão Maria e contabiliza as piores perdas do ano passado(foto: Hector Retamal/AFP)
Porto Rico sofreu com os impactos do furacão Maria e contabiliza as piores perdas do ano passado (foto: Hector Retamal/AFP)

 

Em termos de perda, o Brasil ocupa a 79ª posição no ranking de vulnerabilidade, uma posição melhor que a de 2016, quando ocupou a 48ª posição. Foram considerados dados do NatCatSERVICE, um dos bancos de dados mais abrangentes para análise e avaliação de catástrofes naturais, e informações socioeconômicas do Fundo Monetário Internacional (FMI) referentes a 168 países. A ONG alemã também avaliou os impactados dos eventos climáticos considerando o período de 1998 a 2017. No cenário acumulado, o Brasil ocupa a 90ª posição.

Furacões

No ano passado, o principal vetor das perdas e danos foi a temporada de furacões que atingiu o Mar do Caribe. Dessa forma, Porto Rico e Dominica ocupam o primeiro e o terceiro lugares do ranking, respectivamente. “Tempestades recentes com níveis de intensidade nunca vistos tiveram impactos desastrosos”, diz David Eckstein. “Em 2017, Porto Rico e Dominica foram atingidos por Maria, um dos mais mortíferos e caros furacões registrados.” A estimativa é de que mais 3 mil pessoas morreram nos dois países em consequência dos eventos climáticos extremos.

Segundo colocado da lista, o Sri Lanka sofreu com chuvas excepcionalmente fortes, responsáveis por inundações que mataram 200 pessoas e deixaram centenas de milhares de desabrigados. Esse tipo de evento — tempestades e suas diretas implicações, como inundações e deslizamentos de terra — foi a principal causa de danos em 2017. Entre os 10 países mais afetados, quatro foram atingidos por ciclones tropicais. Fecham os 10 primeiros colocados no ranking de 2017 Nepal, Peru,  Vietnã, Madagascar, Serra Leoa, Bangladesh e Tailândia.

Sem distinção

Apesar de os países pobres e em desenvolvimento estarem entre os mais afetados e serem os que mais têm dificuldade para se recuperar, o aumento da vulnerabilidade também foi observado em nações ricas.  Os Estados Unidos saltaram da 28ª posição em 2016 para a 12ª no índice mais recente, também como reflexo dos furacões. Portugal passou da 21ª posição para 11ª, em decorrência dos incêndios florestais.

A vulnerabilidade dos países mais pobres, porém, se torna mais evidente no índice de longo prazo: oito dos 10 mais afetados entre 1998 e 2017 são países em desenvolvimento com baixa ou média baixa renda per capita. “Mas as economias industrializadas e emergentes também precisam fazer mais para enfrentar os impactos climáticos que elas sentem mais claramente do que nunca. A proteção climática efetiva, assim como o aumento da resiliência, também é do interesse desses países”, ressalta Eckstein. “Por exemplo, os Estados Unidos ocupam o décimo segundo lugar no índice de 2017, com 389 fatalidades e US$ 173,8 bilhões em perdas causadas por condições climáticas extremas.”

Os autores do relatório alertam que não é possível fazer projeções de perdas a partir dos dados do índice e que nem todos os impactos podem ser atribuídos ao aquecimento global. Mas reforçam que as catástrofes podem aumentar em quantidade e em gravidade se o clima continuar aquecendo. Eckstein chama a atenção ainda para a importância de o tema fazer parte do texto final da COP-24. “Países como Haiti, Filipinas, Sri Lanka e Paquistão são repetidamente atingidos por eventos climáticos extremos e não têm tempo para se recuperar. É importante apoiar esses países na adaptação às mudanças climáticas,  mas isso não é suficiente. Eles precisam de apoio financeiro previsível e confiável para lidar com a perda e os danos induzidos pelo clima”, defende.

Milhares de mortos


De 1998 a 2017, mais de 145 mil pessoas morreram no Brasil devido a eventos climáticos. Só no ano passado, foram pelo menos 30 mortes, contra 49 em 2016. Em 20 anos, a média anual dos custos financeiros das catástrofes para o país soma mais de US$ 1,7 milhão. No mesmo período, mais de 526 mil mortes foram diretamente ligadas a mais de 11.500 eventos climáticos extremos nos 168 países analisados. Os danos econômicos somam cerca de US$ 3,47 trilhões.

 

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