Publicidade

Correio Braziliense

Caso de bebê nascido em SP após transplante de útero é descrito em revista

Mãe foi submetida a transplante de útero a partir de doadora falecida; estudo acaba de ser descrito na revista médica 'The Lancet'


postado em 06/12/2018 10:55 / atualizado em 08/12/2018 11:27

(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)

 

Setembro de 2016. Médicos abrem caminho inédito para a gravidez. Um cirurgia inédita de transplante de útero em uma mulher que nasceu sem o órgão. O primeiro da América Latina. O procedimento durou cerca de 10 horas, no Hospital das Clínicas de São Paulo. Na próxima semana, a bebê completará uma ano. Está saudável e vive sem 

 

A doadora é uma mulher de 45 anos teve morte cerebral provocada por um AVC. No mesmo dia, a receptora teve o órgão colocado no corpo dela. Veias e artérias foram ligadas cuidadosamente para preservar a camada interna do órgão, o endométrio, onde o embrião de fixa para dar início a uma gravidez — o primeiro passo para uma possível gestação. 

 

Para aumentar as chances da mulher engravidar, os médicos fizeram uma fertilização em laboratório com os óvulos dela e os espermatozóides do marido. Oito embriões foram congelados. Cinco meses depois do transplante, a paciente menstruava normalmente. Em dezembro de 2017, os médicos implantaram um embrião único, por fertilização em laboratório. A gravidez vingou. Mais que isso, entrou para a história da ciência como o primeiro bebê concebido em uma mulher estéril graças a um transplante de útero.

 

Essa é a primeira vez que um transplante de útero de uma doadora morta termina em um nascimento. Mãe e filhas estão com boa saúde. A bebê está  com pesando 7,2 quilos. O caso foi revelado em artigo publicado pela revista especializada The Lancet. 

 

O útero transplantado foi retirado durante a cesárea, de modo a interromper o tratamento imunossupressor, que impedia a rejeição do órgão. Depois de três dias, mãe e filho deixaram o hospital. A menina veio ao mundo por cesárea na 36ª semana de gestação. Os autores do estudo destacam que o transplante de úteros post-mortem pode abrir novas possibilidades. Vários países já contam com sistemas de regulação de doação de órgãos após a morte. 

 

O médico Dani Ejzenberg, supervisor do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas, dirigiu o estudo. Ele acredita que esse caso amplia o acesso ao tratamento. “Nossos resultados dão a prova de que isso pode funcionar para oferecer uma nova opção às mulheres atingidas por uma infertilidade de origem uterina”, explicou, no artigo. A única gravidez após um transplante de útero retirado post-mortem é de 2011, na Turquia, e terminou em um aborto espontâneo. Casos nos Estados Unidos e na República Tcheca também fracassaram. 

 

Até então, casos envolvendo doadoras vivas foram bem sucedidos. Desde a primeira cirurgia desse tipo foi, feita na Suécia em 2013, 39 transplantes foram realizados, com 11 nascimentos.  “As melhores equipes, os melhores hospitais do mundo tentaram. E foi aqui que conseguiu. É uma notícia muito positiva não só para a medicina, mas para o país”, ressaltou Ejzenberg. 

 

Para Márcio Coslovsky, integrante das sociedades Brasileira e da Européia de Reprodução Humana, o caso tratado no Hospital das Clínicas de São Paulo é um marco. “Estamos falando de um procedimento cirúrgico delicado e a paciente teve que tomar remédios para evitar a rejeição do útero, que funcionou especificamente para essa gravidez”, acrescentou. 

 

O médico avalia que há outras opções de tratamento de fertilização e procedimentos que apresentam menor risco. “Muitos casais conseguem uma gravidez com útero de substituição, por exemplo. O Conselho Federal de Medicina permite a utilização de úteros de parentes de até quarto grau, o que é bem comum”, concluiu Márcio. 

 

Uma fonte do Conselho Federal de Medicina (CFM), que pediu para não ser identificada, comemorou os resultados, mas destaca que há possibilidades menos “arriscadas”. “Algumas mulheres fazem questão de gestar o filho, em vez de adotar uma criança. Porém, a barriga de aluguel não está disponível para todas que querem um filho biológico. Sem dúvidas é um procedimento histórico, mas que exige mais estudos e avaliações científicas para ser usado em maior escala”, ponderou.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade