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Correio Braziliense

Um teste de DNA de presente de Natal, a última moda nos EUA

O teste permite descobrir de quais países se originaram os antepassados e qual a porcentagem de DNA que vem de cada parte do globo


postado em 21/12/2018 09:12 / atualizado em 21/12/2018 18:21

(foto: Arquivo/ AFP)
(foto: Arquivo/ AFP)
 
Washington, Estados Unidos - Descobrir novos primos debaixo da árvore: esta é a última tendência nos Estados Unidos, onde cidadãos em busca de suas origens alimentam um mercado em auge, apesar do risco de surpresas desagradáveis quando se conhecem os resultados.

"Definitivamente houve surpresa!", afirma Flora Bertrand, de 40 anos, que deu de presente a seu marido um desses kits por cerca de cem dólares. Trata-se de uma simples caixa comprada pela internet, que vem com um tubo de plástico para colocar a saliva antes de reenviá-lo por correio. Os resultados podem ser consultados pela internet aproximadamente um mês depois.

Um mapa mundial então mostra as regiões de onde seus antepassados provêm e qual porcentagem de seu DNA vem de cada parte. Em geral, também é possível ver as migrações dos antepassados.

O marido de Flora é originário de Trinidad e Tobago, mas não pode voltar muito atrás em sua árvore genealógica porque seus ascendentes foram vítimas do comércio de escravos, explica este residente de Nova York. "O maior choque" foi descobrir um alto percentual de origens europeias, "18% britânicos e 1% irlandeses!", exclama.
 

Setor em pleno 'boom' 

Como eles, milhões de americanos embarcam nesta aventura. O setor "cresceu exponencialmente a partir de 2017", explica Heather Zierhut, professora assistente de genética na Universidade de Minnesota. 

Para o Natal, as cerca de 10 companhias que atualmente dominam o mercado aumentaram as promoções e as campanhas de marketing, com grandes histórias de reencontros, como a de uma mulher de 69 anos que, graças a uma teste que ganhou no Natal, encontrou sua mãe biológica, que pensava que ela havia nascido morta. 

Estes testes comparam "o perfil genético de um indivíduo com uma base de dados de populações em muitas partes do mundo", diz Zierhut. E "as empresas também podem comparar a porcentagem de seu DNA compartilhado com outros que fizeram o teste".

Os dois líderes do setor, AncestryDNA e 23andMe, dizem ter analisado o DNA de 10 e 5 milhões de pessoas, respectivamente. As investigações para encontrar um parente são cada vez mais rápidas, cruzando os resultados com, por exemplo, documentos públicos civis. 

Segundo o porta-voz da MyHeritage, os rendimentos da empresa aumentaram de 60 milhões em 2016 para 133 milhões um ano depois. 

"Planejamos dobrar nossas vendas para o Natal 2018 em comparação com 2017", prevê David Nicholson, cofundador da Living DNA, celebrando o "crescimento rápido" e "inesperado" nos 90 países em que sua empresa opera.
 

Resultados traumáticos

 

No entanto, "os exames de DNA nem sempre são o melhor presente para o Natal", alerta Maarten Larmuseau, um pesquisador especializado em genética na Universidade KU Leuven, na Bélgica.  Primeiro, os resultados podem ser decepcionantes e variam de um teste para outro, já que dependem em grande medida da base de dados de comparação. 

Os participantes, além disso, em alguns casos não são conscientes do fato de que podem ser revelados "resultados inesperados ou sensíveis", explica Larmuseau. "Com frequência recebo e-mails ou ligações de pessoas que descobriram que seu pai não é seu pai biológico, ou que têm um meio-irmão", lembra.

"Estas pessoas recebem estes resultados perturbadores, com frequência traumáticos, sem nenhuma ajuda psicológica", lamenta o pesquisador, que também critica a possibilidade de realizar testes em menores, inclusive em bebês.

Várias companhias também oferecem serviços opcionais voltados para a saúde, que permitem, por exemplo, detectar predisposições a doenças como Alzheimer e Parkinson, o que não é a melhor notícia para receber em 25 de dezembro.

E o último problema: a proteção de dados. Além dos riscos do hacking, muitas empresas repassam a informação reunida para associações, incluindo empresas com fins lucrativos, como companhias farmacêuticas. 

Os dados anônimos podem ser "compartilhados com outras companhias com fins de pesquisa sobre genealogia ou doenças", alerta Sonia Suter, professora de direito e bioética na Universidade George Washington.  "Não acredito que o controle destas companhias seja suficiente em termos de privacidade", diz, porque não estão sujeitas ao segredo médico garantido por lei nos Estados Unidos.

"Isso não significa que sua informação seja acessível imediatamente para as seguradoras ou a polícia", afirma Suter, mas pense duas vezes e "não use este teste só porque o tem" debaixo da sua árvore.

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