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Correio Braziliense

Apesar das críticas, produção do plástico só aumenta em todo o mundo

O material que revolucionou a indústria também ameaça o ambiente. Gerir bem as sobras é um dos maiores desafios da atualidade


postado em 30/12/2018 08:00

(foto: Fred Dufour / AFP )
(foto: Fred Dufour / AFP )
“Ou se morre como herói, ou se vive o bastante para se tornar o vilão.” A frase dita por Duas Caras — um dos inimigos de Batman no filme O cavaleiro das trevas — pode ser usada para definir de maneira curta, mas exata, a trajetória do plástico. O material que surgiu no começo do século 20, fruto de uma série de contribuições de diversos cientistas (Veja arte), se transformou em queridinho da indústria. Proporcionou a execução de tarefas até então impossíveis, como guardar alimentos por mais tempo sem estragá-los, substituir vidros em garrafas e gerar peças de carro mais baratas. Porém, nas últimas décadas, o uso exagerado desse produto tem resultado em uma grande ameaça ao meio ambiente.

Pesquisas recentes mostram aumento extremo na terra e na água dos mais diversos resíduos de plástico. São embalagens, sacolas, brinquedos, veículos, materiais hospitalares, produtos diversos que, quando perdem a utilidade, demoram mais de décadas para se decompor. De acordo com a ONU, demora cerca de 450 anos para que uma garrafa de plástico desapareça da natureza. Segundo o órgão também, 1 milhão desses produtos é comprado a cada minuto no planeta.

Para onde vai todo esse lixo? Uma das poucas alternativas para impedir que ele se acumule nos lixões e nos oceanos é a reciclagem. Porém, esse processo nem sempre ocorre, segundo o primeiro estudo sobre produção, uso e destino do plástico. Os especialistas descobriram que, de 1950 — data em que começou a produção em larga escala dos materiais sintéticos — até 2015, 8,3 bilhões de toneladas métricas de plástico foram geradas pelo homem.

Desse total, 6,3 bilhões de toneladas se tornaram resíduos, e reciclou-se menos de 10%. “Foi surpreendente ver que a metade de todos os plásticos já produzidos globalmente surgiu apenas nos últimos 13 anos”, conta ao Correio Roland Geyer, professor associado da Escola de Ciências e Gestão Ambiental da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e principal autor do estudo, publicado em julho, na revista Science Advances.

Os cientistas compilaram dados estatísticos de geração de resinas, fibras e aditivos em várias fontes da indústria. Os resultados da análise trazem um cenário alarmante. A produção anual subiu de 2 milhões de toneladas métricas, em 1950, para 400 milhões de toneladas métricas, em 2015. Caso o cenário de consumo não mude, os especialistas acreditam que, nos próximos 33 anos, a quantidade atingirá a marca de 34 bilhões de toneladas métricas.

Ainda de acordo com as estimativas, 12 bilhões de toneladas métricas de plástico se transformarão em resíduos que terão como destino aterros sanitários ou o ambiente natural. “Espero que nossos números mostrem que apenas continuar a reciclar e a incinerar — alternativas que usamos atualmente — não é o suficiente. Precisamos repensar fundamentalmente a forma como produzimos e utilizamos esse material”, defende Roland Geyer.

Alguns países começam a mudar a gestão das sobras sintéticas. A Noruega é uma das nações pioneiras nessa empreitada. Sua  capital, Oslo, se tornou exemplo de sustentabilidade, com intenso projeto de reciclagem de resíduos. “O que precisamos, agora, é da ação de governos, empresas e consumidores”, defende Vidar Helgesen, diplomata e ex-ministro do Meio Ambiente do país (Leia Três perguntas para).


Mais que peixes


A necessidade de combater o aumento do plástico no ambiente é uma das maiores preocupações das Nações Unidas, que têm voltado os olhos para um dos ecossistemas mais prejudicados pelo descarte do material. Em uma de suas campanhas, chamada ONU Mares Limpos, a organização busca combater o acúmulo de microplásticos nos oceanos. “Nosso mundo é inundado por resíduos plásticos prejudiciais. Todos os anos, mais de 8 milhões de toneladas acabam nos oceanos. Agora, os microplásticos nos mares superam as estrelas da nossa galáxia. De ilhas remotas ao Ártico, nada é intocado. Se as tendências atuais continuarem, até 2050, nossos oceanos terão mais plástico do que peixes”, alerta, em comunicado, António Guterres, secretário-geral da ONU.

Cientistas também têm advertido sobre o problema, reforçando o impacto na vida de animais marinhos. “Os plásticos liberam componentes tóxicos na água”, explica Luiz Felipe Mendes de Gusmão, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador do Instituto do Mar, em São Paulo. Em uma de suas pesquisas sobre o tema, o brasileiro analisou a presença de microplástico nas praias de Paranapuã e Itaquidantuva, em São Paulo. Durante um ano de visitas semanais para recolher amostras, ele e colaboradores encontraram taxas altas do produto nas regiões. Os resultados foram divulgados em 2017, na revista Environmental Pollution e Water Research.

Gusmão também realizou testes em laboratório com larvas de mexilhões marrons presentes nos mares. “Vimos que só a presença do plástico na água já os tornou tóxicos”, conta. O cientista acredita que, mesmo sem termos ideia dos efeitos que o material pode causar ao organismo humano, é necessário nos preocuparmos com essa questão. “Sabemos que essa não é uma molécula natural, e isso já é um motivo para nos preocuparmos”, justifica.


Do mar ao corpo

São partículas de plástico com menos de cinco milímetros, criadas a partir do descarte e da degradação de pedaços maiores do material. Também são produzidas industrialmente para o uso em alguns produtos. Pesquisas sinalizam que o microplástico tem impacto na saúde humana, sobretudo no trato gastrointestinal, onde pode interferir na resposta imunológica do organismo.

Três perguntas para idar Helgesen, diplomata e ex-ministro do Meio Ambiente da Noruega 


Como enfrentar o desafio da poluição por plástico? 

Esse é o problema de poluição que mais cresce. Se não for bem administrado por meio de uma gestão adequada dos resíduos, o plástico acaba nos oceanos por meio de canais e inundações. Por outro lado, o fato de esse material ser muito concreto e visível torna possível lidar com ele. Mas isso exige que os países reduzam o uso desnecessário e garantam bons sistemas de gerenciamento de resíduos. Isso é particularmente urgente em nações que experimentaram alto crescimento econômico e uso explosivo de plástico nas últimas décadas, mas que não criaram a infraestrutura necessária para gerenciar o lixo.


O senhor acredita que o problema ficará mais crítico nos próximos anos?

O prognóstico atual para o uso crescente de plásticos aponta para uma maior poluição nas próximas décadas. Até 2030, haverá um quilo de plástico para cada três quilos de peixe no oceano. Em 2050, a proporção será de um para um. Mas a conscientização está aumentando e, portanto, espero que possamos ver uma redução nos resíduos de plástico em alguns anos. A visão precisa ser zero resíduo plástico para o oceano, e o mundo realmente se uniu por trás de tal visão na Assembleia Ambiental da ONU, no ano passado. O que precisamos, agora, é da ação de governos, empresas e consumidores.


No caso do Brasil, o que o novo governo poderá fazer para enfrentar esse problema?

O Brasil demonstrou uma enorme liderança na redução do desmatamento, ao mesmo tempo em que aumentou a produção agrícola, mostrando ao mundo que é possível produzir, proteger e prosperar concomitantemente. A mesma coisa é necessária para o oceano. Superexploração de ecossistemas, em terra ou na água, é ruim para a economia e ruim para empregos. Espero que a nova liderança brasileira continue se dedicando a uma economia florestal sustentável, bem como a  uma economia oceânica sustentável.

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