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Correio Braziliense

Passar menos tempo nas redes sociais reduz a solidão, aponta pesquisa

Relação é identificada em universitários que restringiram a 30 minutos diários o tempo dedicado a Facebook, Instagram e Snapchat. A pesquisa com 143 voluntários também mostra diminuição significativa de sentimentos depressivos e da ansiedade


postado em 02/01/2019 06:00

 

As redes sociais tomaram conta do nosso cotidiano. Basta dar uma breve conferida no público à sua volta. A grande maioria das pessoas estará encurvada sobre a tela do celular, verificando atualizações do Facebook, do Twitter, do Instagram... Psicólogos e médicos cogitam a possibilidade de, quando exagerado, o hábito ter impacto direto em quadros de depressão e em outros distúrbios emocionais, aumentando a sensação de solidão e baixa autoestima, por exemplo. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, sinalizam essa relação em um estudo divulgado recentemente no Journal of Social and Clinical Psychology.

A pesquisa foi feita com dados de navegação do celular de 143 voluntários, que, durante três semanas, tiveram monitorados os acessos ao Facebook, Instagram e Snapchat. Ao fim do experimento, os pesquisadores constataram que os participantes que seguiram a orientação de reduzir o tempo dedicado às redes sociais apresentaram diminuição significativa de sentimentos relacionados à depressão e à solidão. Para os autores do trabalho, ao dedicar o tempo a outras atividades, os indivíduos podem ter deixado de comparar a própria rotina com a postada por outros usuários.

Melissa G. Hunt, psicóloga e líder do estudo, acredita que o trabalho da sua equipe se difere de anteriores devido à tentativa de interferir menos no cotidiano dos participantes. “Muitos pesquisadores se precipitaram ao colocar voluntários em situações nada práticas, como abstenção total do Facebook, ou ao confiar em dados de autorrelato. Alguns também optaram por um trabalho de poucas horas em um laboratório, o que não é o ideal”, explica, em comunicado.

Antes do experimento, todos os participantes, que eram estudantes da Universidade de Pensilvânia com idade entre 18 e 22 anos, responderam a um breve questionário, que deu origem a perfis emocionais de cada voluntário. Sete aspectos relacionados ao bem-estar — geralmente citados em estudos que relacionam depressão a redes sociais — guiaram as perguntas: círculo social, medo de se sentir perdido ou isolado, solidão, ansiedade, depressão, autoestima e autonomia.

Em seguida, os voluntários compartilharam cópia da captura de tela do celular, com o registro do tempo gasto na semana anterior em cada um dos três aplicativos avaliados. Os participantes foram, então, separados aleatoriamente em dois grupos: um podia continuar acessando as redes sociais da mesma forma e o outro teve de reduzir o acesso diário para 10 minutos em cada plataforma. Todos os voluntários continuaram compartilhando dados semanais de acesso às plataformas para facilitar o controle dos pesquisadores.

Ao fim de 21 dias, os universitários foram submetidos à mesma entrevista inicial, e os dados das duas respostas, comparados. “Nós constatamos que as pessoas do segundo grupo, que reduziram o tempo de acesso às redes, tiveram clara melhora em dois pontos referentes ao bem-estar: depressão e sensação de solidão. Isso ficou ainda mais claro quando observamos o perfil de voluntários com quadro depressivo mais sério”, conta Hunt. Os pesquisadores também observaram que os dois grupos relataram redução em sintomas de ansiedade e medo de se sentir perdido ou isolado, o que foi creditado ao automonitoramento durante o tempo da pesquisa.

Cautela

Hunt ressalta que as descobertas não sugerem que jovens devam parar completamente de usar as três plataformas, mas mostram que o acesso reduzido pode ter impactos importantes no bem-estar dos usuários. “Algumas publicações sobre rede social dizem que há uma enorme quantidade de comparação nesses aplicativos. Quando você olha para a vida de outras pessoas, particularmente no Instagram, é fácil concluir que a de todos é melhor que a sua”, diz. “Quando você não está ocupado sendo sugado pelas redes sociais, é provável que passe mais tempo em outras atividades que te façam se sentir bem com a própria vida.”

Os autores ressaltam que o trabalho não tinha a intenção de mostrar uma relação de causa e efeito. Raphael Boechat, psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB), reforça que não se pode fazer essa afirmação. “Não é que o uso das redes sociais causa sintomas depressivos. Mas é claro que esse tipo de tecnologia, muitas vezes, reduz nossa socialização e nosso tempo investido em práticas físicas, dois fatores que podem ajudar na recuperação de pacientes com o emocional abalado”, explica.

O médico diz ainda que não existe um tempo ideal para ser gasto nesses aplicativos, e o acesso deve ser seguido de uma organização consciente das atividades. “Precisamos ficar atentos para saber se essas plataformas não estão tomando o tempo de outras atividades de socialização, estudo e práticas esportivas”, observa.

Novas gerações

Para o trabalho de conscientização, Boechat destaca que a educação das crianças é fundamental. “O fenômeno das redes sociais é algo que vai impactar essa nova geração. Por isso, sempre digo que a educação digital deve vir desde criança. Muitos pais, por conveniência, colocam os filhos o dia todo no celular ou no computador porque, assim, não bagunçam a casa. Mas esse tipo de prática cria um condicionamento da tecnologia”, afirma.

Hunt e sua equipe destacam também que outros pontos do estudo precisam ser melhor avaliados, a fim de retratar o fenômeno do uso da internet de forma mais completa. “As mídias sociais não se limitam a Facebook, Snapchat e Instagram. Embora só tenhamos medido e manipulado essas três plataformas, os participantes podiam optar pelo Twitter, Tumblr, Pinterest, Messenger e assim por diante”, declaram, no artigo divulgado. Os autores contam que, durante o experimento, aplicativos de namoro tiveram aumento de acesso significativo.

* Estagiário sob supervisão de Carmen Souza

"Há uma enorme quantidade de comparação nesses aplicativos. Quando você olha para a vida de outras pessoas (...), é fácil concluir que a de todos é melhor que a sua”

Melissa G. Hunt, psicóloga da Universidade da Pensilvânia e líder do estudo

 

Brasileiros fisgados

O relatório 2018 Global Digital constatou que os brasileiros passam mais de três horas e meia por dia usando as redes sociais. Com essa média, o Brasil ocupa o segundo lugar de um ranking com 40 países, perdendo apenas para Filipinas, onde os moradores gastam 18 minutos a mais. Na colocação oposta da lista estão os japoneses, que dedicam, em média, 48 minutos diários às redes sociais.

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