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Correio Braziliense

Estudo mostra que adoçantes não emagrecem, mas também não fazem mal

O documento foi financiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e publicado na revista British Medical Journal


postado em 15/01/2019 06:00 / atualizado em 15/01/2019 07:01

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Nem vilões, nem mocinhos. Essa foi a conclusão de um estudo sobre adoçante, financiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que analisou 56 pesquisas comparando adultos e crianças saudáveis com ingestão baixa/não ingestão dessa substância a pessoas que fazem um uso mais pesado dos substitutos do açúcar. O resultado, publicado na revista British Medical Journal, mostra que, se por um lado eles não ajudam muito a emagrecer, por outro estão longe de provocar problemas de saúde, como já foi sugerido.

“Preocupações crescentes sobre saúde e qualidade de vida encorajam as pessoas a adaptarem seus estilos de vida e a evitarem o consumo de alimentos ricos em açúcar, sal ou gordura para prevenir obesidade e outras doenças crônicas. Com o interesse crescente dos consumidores em reduzir a ingestão energética, produtos alimentícios contendo adoçantes artificiais, em vez de açúcares simples, tornam-se cada vez mais populares”, justificam os autores, no artigo. “Trocar açúcares por adoçantes levanta a promessa de benefícios à saúde primariamente pela redução na contribuição dos açúcares na ingestão calórica diária e, portanto, redução no ganho de peso não saudável. Contudo, evidências de efeitos (negativos) devido ao uso dos adoçantes são conflitantes”, continua o texto.

Enquanto alguns estudos reportam associação entre o uso de adoçantes e o risco reduzido de diabetes 2, sobrepeso e obesidade, outros sugerem que essas substâncias poderiam, ao contrário, elevar o risco de ganho de peso, diabetes e até câncer. Por isso, a equipe de pesquisadores europeus, a pedido da OMS, levantou a literatura científica sobre o tema, chegando a 56 estudos que compararam a ingestão frequente de todos os tipos de adoçantes com uso comercial aprovado, como sucralose, sacarina, aspartame e estévia, ao consumo baixo (ou nenhum consumo) desse tipo de produto. Os artigos escolhidos para a avaliação continham informações de peso, índice glicêmico, saúde oral, histórico de câncer, de doenças renais e cardiovasculares, além de comportamento e humor. Todos os participantes eram saudáveis.

No geral, os resultados mostraram que, para a maioria desses parâmetros, não houve diferenças estatisticamente ou clinicamente relevantes entre os indivíduos expostos a adoçantes artificiais e aqueles não expostos, ou consumidores de baixa dosagem. Alguns pequenos estudos inseridos na análise sugeriram melhorias discretas no índice de massa corporal (IMC) e nos níveis de glicose no sangue em jejum, mas a certeza sobre essa evidência foi baixa. O consumo menor de adoçantes sem açúcar foi associado a um ganho de peso ligeiramente menor (-0,09kg) do que as ingestões mais altas, mas, novamente, com baixa certeza. Em crianças, observou-se menor IMC com o uso do adoçante, que, contudo, não impactou no peso. Também não se detectou nenhuma evidência positiva do efeito das substâncias em adultos com sobrepeso.

Por outro lado, os autores não encontraram associações negativas entre o uso do adoçante e problemas de saúde. “Embora o estudo não resolva essa questão em definitivo, já se testou à exaustão a hipótese de o adoçante causar câncer e não se encontrou nenhuma relação. Para ter o poder de mudar a qualidade das células, seria necessário usar uma quantidade absurda, que ninguém conseguiria consumir”, observa Mario Carra, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

Limitações

Os autores da revisão destacam que os resultados são limitados por dois motivos: as pesquisas avaliadas eram de curto prazo e o nível de certeza dos estudos era baixo. O principal autor do estudo, Joerg J. Meerpohl, da Universidade de Freiburg, ressalta que, embora não se tenha encontrado evidências contrárias aos adoçantes, não significa que elas não existam. “Você não precisa de adoçante. Há alternativas mais baratas e amplamente disponíveis aos produtos adoçados artificialmente. Você sempre pode tomar água em vez de Coca-Cola dietética”, sugere.

Porém, Mario Carra lembra que, para muitas pessoas, não é tão fácil abrir mão do sabor açucarado e, nesses casos, o especialista recomenda usar adoçante. “Além de ter mais calorias, o açúcar produz algumas substâncias no cérebro que dão sensação de bem-estar e, por isso, as pessoas costumam comer doces desmedidamente. Ninguém come só um brigadeiro ou só uma colher de sopa de sorvete”, argumenta. O médico da Sbem também destaca que, em excesso, esse ingrediente é tóxico e desencadeia inflamações celulares. “O adoçante não é o bandido que todo mundo fala.”

Em um editorial publicado no British Medical Journal, Vasanti Malik, da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, de Harvard, afirma que mais estudos são necessários para entender os potenciais efeitos dos adoçantes artificiais na saúde e para orientar a formulação de políticas a respeito. De acordo com ela, com base nas evidências existentes, o uso dessas substâncias, particularmente em bebidas, “poderia ser uma estratégia útil para reduzir o risco cardiometabólico (risco de diabetes, doença cardíaca ou derrame), com o objetivo final de se mudar para a água ou outras bebidas saudáveis”. Mas Malik ressalta que “políticas e recomendações precisarão ser atualizadas, à medida que surgem mais evidências, para garantir que os melhores dados disponíveis sejam usados para acrescentar no importante debate sobre o açúcar na saúde pública e suas alternativas”.



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