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Correio Braziliense

Chave para controlar a dependência química pode estar no cerebelo

Estudo mostra que a parte do cérebro ligada ao controle motor também está implicada com mecanismos de recompensa desencadeados pelo uso de drogas. Descoberta poderá ajudar na criação de remédios e outras abordagens terapêuticas


postado em 18/01/2019 06:00

(foto: Thomas Samson/AFP)
(foto: Thomas Samson/AFP)
 

Há pelo menos seis décadas, se conhecem os circuitos cerebrais associados à sensação de prazer deflagrada por drogas lícitas e ilícitas. Ainda assim, não há, até hoje, um tratamento que se valha dessa informação para evitar, com total eficácia, que álcool, tabaco, heroína e outras substâncias viciantes estimulem a produção de substâncias como dopamina e serotonina. Por isso, cientistas buscam outras regiões do cérebro implicadas com o fenômeno da adição. Uma delas pode ser o cerebelo, sugere um estudo publicado na revista Science. Maior massa do encéfalo, essa estrutura, até pouco tempo, era relacionada apenas ao controle motor e do equilíbrio.


Nos últimos anos, porém, uma série de pesquisas começou a apontar que as funções do cerebelo vinham sendo subestimadas pela neurociência. Segundo Kamran Khodakhah, diretor do Departamento de Neurociências Dominick P. Purpura, da Faculdade de Medicina Albert Einstein em Montefiore, estudos anteriores demostraram que a estrutura também executa funções associadas ao comportamento. Ele conta que experimentos baseados em imagem funcional, que mostram a atividade do cérebro frente a estímulos, já deram pistas a respeito. Um deles, por exemplo, surpreendeu os pesquisadores, que viram o cerebelo superativar em dependentes químicos em recuperação quando viam a imagem de uma seringa. “O risco de relapso correlacionou-se à intensidade dessa atividade”, conta. Essa, defende Khodakhah, é uma forte evidência de que a região também está implicada com o sistema de recompensas cerebrais.

 

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
 


Apesar disso, Khodakhah afirma que o ceticismo ainda era grande na comunidade científica. “Ninguém havia conseguido mostrar como o cerebelo afeta a liberação de dopamina”, conta. Por isso, ele e os pesquisadores de pós-doutorado Ilaria Carta e Christopher Chen partiram para a missão de demonstrar o processo dentro do cérebro. Os pesquisadores utilizaram a abordagem da optogenética, uma técnica que permite estimular a atividade das redes de neurônio com a luz. A suspeita da equipe, que acabou confirmada, era a de que o cerebelo está diretamente conectado com uma estrutura próxima chamada área tegmental ventral (ATV), conhecida por desempenhar um papel na dependência química.

No experimento, depois de modificar roedores geneticamente para estimular a atividade do cerebelo e da área tegmental ventral sob o estímulo luminoso, os cientistas conseguiram alterar o comportamento esperado dos animais. Primeiramente, os ratos foram colocados em um recinto com três áreas por onde podiam circular livremente. Em uma delas, havia um objeto inanimado; na outra, um roedor; e na última, nada. Enquanto eles andavam pela caixa, os pesquisadores monitoravam as reações do cérebro.

Ao interagir com o animal da segunda câmara, o cerebelo e a área tegmental ventral dos roedores ficavam mais ativos do que nas outras situações, confirmando a relação dessas áreas do cérebro com o comportamento social. Já quando os cientistas silenciavam os neurônios do cerebelo conectados àqueles da ATV usando a optogenética, os ratos deixavam de preferir a companhia dos demais. Segundo Khodakhah, isso mostra que o comportamento social depende também de um padrão cerebelo-VTA funcional.

Rede ativada

Em outra experiência (veja infografia), a equipe também conseguiu alterar o comportamento esperado dos animais com a manipulação da rede entre cerebelo e área tegmental ventral. Por instinto, roedores preferem áreas escuras, onde ficam menos expostos aos predadores. Novamente, os animais foram colocados em uma caixa com duas partes: uma na penumbra e outra mais iluminada. Eles podiam andar livremente por elas e, naturalmente, escolhiam a região escura. Contudo, a cada dois dias, eram confinados na área clara. Nessas ocasiões, os pesquisadores usavam a optogenética para ativar a rede cerebelo-ATV.

Passado o período de condicionamento, os roedores voltaram a poder se deslocar por onde quisessem. “Mesmo livres para evitar a parte iluminada, eles começaram a correr em direção à luz, porque se lembravam que lá recebiam uma recompensa. Isso sugere que o cerebelo desempenha um papel nos comportamentos aditivos”, conta Khodakhah. De acordo com o pesquisador, o resultado é semelhante ao de outros estudos, nos quais os ratos confinados à parte clara das câmaras receberam drogas viciantes, como cocaína, em vez de estimulação cerebelar.

Novas etapas

Khodakhah pretende testar se a via cerebelo-VTA pode ser manipulada, usando drogas ou optogenética, para tratar a dependência química e prevenir a recaída após o tratamento. Ele também investigará se os neurônios cerebelares afetam o córtex pré-frontal e o núcleo acumbentes, duas outras regiões cerebrais que são alvos da VTA e estão intimamente associadas a comportamento aditivo e transtornos mentais. “As anomalias cerebelares também estão ligadas a uma série de outros transtornos mentais, como a esquizofrenia. Então, queremos descobrir se esse padrão também desempenha um papel nesses transtornos”, afirma.

Em um artigo sobre o trabalho, Edigio D’Angelo, neurocientista da Universidade de Parva, na Itália, que não participou dos experimentos descritos na Science, destacou o potencial da pesquisa conduzida por Khodakhah. “Esse estudo abre um novo caminho para a interpretação da função do cerebelo e também para a compreensão do comportamento social e das patologias associadas, com o potencial de se descobrirem novas terapias para tratar essas doenças.”

"Esse estudo abre um novo caminho (…) para a compreensão do comportamento social e das patologias associadas, com o potencial de se descobrirem novas terapias para tratar essas doenças” 
Edigio D’Angelo, neurocientista da Universidade de Parva, na Itália

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