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Correio Braziliense

Pesquisas mostram benefício do veganismo na rotina de atletas profissionais

Revisão de 77 pesquisas mostra os benefícios da dieta vegana na rotina de atletas profissionais, como melhora da performance e da recuperação após competições. Há sinais de que o regime também evita complicações cardiovasculares


postado em 20/01/2019 08:00

(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Quem associa a dieta vegana a um biotipo esquálido e macilento não imagina que, entre os adeptos desse padrão alimentar, há maratonistas, halterofilistas, jogadores de futebol, tenistas, boxeadores... Agora, um estudo de revisão científica publicado na revista especializada Nutrients diz que cortar carne e produtos de origem animal do cardápio beneficia esportistas, melhorando a saúde cardiovascular, a performance e a recuperação pós-treino e competição.

“Cada vez mais atletas buscam uma dieta vegana”, afirma James Loomis, diretor médico do Centro Médico Barnard, em Washington, e coautor do artigo. “Seja lá se você treina para sair do sedentarismo, seja se é um triatleta, a dieta à base de vegetais é uma ferramenta poderosa para melhorar a performance atlética e a recuperação”, diz Loomes, que é vegano e, atualmente, se prepara para o Ironman, uma das provas de triátlon mais puxadas do mundo.

No estudo de revisão, os autores avaliaram 77 artigos científicos sobre esportes e nutrição. Na primeira parte do trabalho, eles descrevem as evidências de deficiências nutricionais e de efeitos negativos das dietas tradicionais em atletas. Depois, apresentam os benefícios potenciais da alimentação baseada em plantas para a saúde cardiovascular, o desempenho e a recuperação dos esportistas. Segundo Loomes, embora o foco do estudo seja o veganismo, a equipe também encontrou indicações de que o vegetarianismo, no qual ovos e laticínios são permitidos, é melhor para os atletas que o consumo de carne.

Os autores destacam que os atletas não estão imunes à aterosclerose e a outras complicações cardíacas. “Surpreendentemente, atletas de alto desempenho podem até ter mais aterosclerose e danos no miocárdio comparado a sedentários, particularmente quando envelhecem”, escreveram. Um dos artigos revistos por eles, da Associação Norte-Americana de Cardiologia, constatou que, em um universo de 152 ciclistas de corredores de meia-idade e 92 não praticantes de atividades físicas, entre os primeiros, o percentual de placas gordurosas nas artérias era de 44,4%, enquanto que, nos segundos, a taxa caía para 22,2%. Outro trabalho da revisão foi realizado com 50 homens que correram ao menos 25 maratonas consecutivas e constatou que, comparados a 23 sedentários, eles tinham mais danos nas artérias.

“Esses estudos mostram que mesmo atletas bem treinados estão em risco significativo para aterosclerose e danos no miocárdio. O que eles não mostram é se essas mudanças são consequência da atividade atlética ou dos alimentos geralmente utilizados como combustível dessas atividades”, destaca Loomis. Para o médico, a segunda alternativa é a mais provável. Ele lembra que atletas costumam consumir suplementos e alimentos à base de proteína animal, que contém gordura saturada, substância que contribui para aumentar o colesterol, os triglicérides e, consequentemente, formar placas nas artérias. “Além de aumentar o risco de eventos cardíacos, a aterosclerose pode estreitar as artérias de pernas, cérebro e outras partes do corpo, reduzindo o fluxo sanguíneo e, potencialmente, afetando a performance”, explica.


Gasto de energia

Por outro lado, defende Loomis, uma dieta baseada em plantas reduz a gordura corporal porque inclui ingredientes ricos em fibras e pobres em gordura. Além disso, ele afirma que esse tipo de regime alimentar influencia o gasto de energia pós-prandial (depois da alimentação), ajudando na saúde cardiovascular. Um dos estudos avaliados pela equipe e conduzido pelo Centro de Pesquisa Biomédica Pennington, de Los Angeles, constatou que duas semanas de alimentação vegana aumentou o consumo energético pós-prandial em 16%.

“Uma dieta baseada em plantas tem o poder não apenas de prevenir doenças cardiovasculares, mas muitas vezes revertê-las”, afirma Hana Kahleova, pesquisadora do Comitê de Médicos pela Medicina Responsável, organização não governamental que promove a medicina preventiva. Ela é autora de um estudo publicado, no ano passado, na revista Progress in Cardiovascular Diseases que investigou a associação entre um cardápio livre de produtos animais e a saúde cardiovascular. De acordo com Kahleova, uma dieta vegana associada a exercícios físicos reduz o risco de ataque cardíaco entre 81% e 94%. “Dietas veganas beneficiam o coração porque são ricas em fibras e fitonutrientes como licopeno, carotenoides e antocianinas, que reduzem a inflamação e o estresse oxidativo das células”, explica. De acordo com ela, esses dois últimos fatores também podem explicar o motivo pelo qual o organismo do atleta se recupera mais rápido depois de um treino intensivo.

Susan Levin, especialista em dietética esportiva e coautora do estudo de revisão publicado na Nutrients, afirma que os artigos consultados também sugerem que a dieta vegana melhora a oxigenação dos órgãos internos, o que colabora com a performance dos atletas. Ela conta que o fato de cada vez mais esportistas aderirem a esse estilo de alimentação foi o que motivou a pesquisa. “Há algum tempo, temos tomado conhecimento de que ultramaratonistas e triatletas estão adotando a dieta vegana. Eles têm justificado a escolha porque dizem se sentir mais leves, além de se recuperarem mais rápido e melhorarem a performance. E isso faz sentido. Quando sua gordura corporal cai, você tem uma capacidade aeróbica mais alta. Os exercícios produzem estresse oxidativo; ao mesmo tempo, comparados aos carnívoros, os veganos consomem muito mais antioxidantes”, explica.

A dieta vegana não é unanimidade entre especialistas, contudo. Enquanto alguns estudos mostram os impactos positivos, alguns especialistas preocupam-se com a carência de nutrientes críticos, como ácidos graxos ômega-3, ferritina e vitamina B12. Um estudo de 2016 conduzido pela Clínica Mayo no Arizona mostrou que, embora não apresentassem deficiência proteica, os adeptos da dieta sem produtos animais tinham níveis menores de substâncias importantes para combater distúrbios neurológicos, anemia e força dos ossos.

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