Publicidade

Correio Braziliense

Tese sobre alta capacidade cognitiva de neandertais ganha força

Análise de lanças com 30 mil anos mostra que os neandertais produziam armas poderosas e conseguiam atingir alvos distantes. O resultado reforça a tese de que nossos primos extintos tinham capacidade cognitiva similar à do homem moderno


postado em 26/01/2019 07:00

Espécie que desapareceu há cerca de 40 mil anos era considerada um primo abrutalhado do homem moderno(foto: Nikola Solic/Reuters)
Espécie que desapareceu há cerca de 40 mil anos era considerada um primo abrutalhado do homem moderno (foto: Nikola Solic/Reuters)

Por quase 150 anos, desde que se descobriu o primeiro fóssil de um Homem de Neandertal, prevaleceu a ideia de um primo abrutalhado e com capacidades cognitivas bem inferiores ao do humano moderno. Contudo, na última década, começaram a despontar evidências de que a espécie, extinta há cerca de 40 mil anos, era tão hábil e inteligente quanto o Homo sapiens. Um estudo publicado na revista Scientifc Reports, do grupo Nature, mostra, agora, que os neandertais produziam armas sofisticadas o suficiente para matar a distância.

O estudo, da Universidade College London (UCL), examinou o desempenho de réplicas de lanças de 30 mil anos de idade — as armas mais antigas já registradas na arqueologia — para identificar se os lançadores de dardo poderiam usá-las para atingir um alvo longínquo. O resultado mostrou que os objetos de madeira teriam permitido aos neandertais usá-los como armas poderosas e matar a distância. “É uma constatação significativa, dado que estudos anteriores consideravam que os neandertais só podiam caçar e matar suas presas a curta distância”, observa Annemieke Milks, pesquisadora do Instituto de Arqueologia e principal autora do estudo.

De acordo com Milks, as lanças de Schöningen são um conjunto de 10 objetos de arremesso datando do Paleolítico, que foram escavados entre 1994 e 1999 em uma mina de lignita a céu aberto em Schöningen, na Alemanha. Ao lado, havia aproximadamente 16 mil ossos de animais. As peças representam as mais antigas armas de caça preservadas da Europa pré-histórica já descobertas. Além de Schöningen, há um fragmento de lança de Clacton-on-Sea, na Inglaterra, com 400 mil anos, que pode ser encontrado no Museu de História Natural, em Londres.

O estudo foi conduzido com seis atletas de dardo que foram recrutados para testar se as lanças poderiam ser usadas para atingir um alvo a distância. Os esportistas escolhidos destacavam-se pela habilidade de lançar em alta velocidade, combinando com a capacidade esperada de um caçador neandertal. Owen O’Donnell, um ex-aluno do Instituto de Arqueologia da instituição, reproduziu as réplicas de lança usando ferramentas de metal. Elas foram criadas com madeira de árvores norueguesas cultivadas em Kent, no Reino Unido. No fim, a superfície foi manipulada com ferramentas líticas, reproduzindo, segundo ele, uma lança de madeira do Pleistoceno com precisão.




Até 20 metros

Nos testes, foram utilizadas duas réplicas, de 760g e 800g. Os atletas demonstraram que o alvo poderia ser atingido em até 20 metros e com impacto significativo que se traduziria na morte da presa. Isso é o dobro da distância que os cientistas pensavam que se poderia alcançar, demonstrando que os neandertais tinham capacidade tecnológica para caçar a distância e a curta distância.

O peso das lanças de Schöningen levou os cientistas a acreditar que seria difícil para um caçador utilizá-las ao mesmo tempo em que se deslocava a uma velocidade significativa. No entanto, o estudo mostra que o equilíbrio entre o peso e a rapidez com que os atletas poderiam atirá-las produz energia cinética suficiente para acertar e matar um alvo. “O surgimento do armamento — tecnologia projetada para matar — é um limiar crítico, mas mal estabelecido, na evolução humana”, disse, em nota, Matt Pope, arqueólogo e coautor do estudo.

“Esse trabalho é importante porque acrescenta um progressivo corpo de evidências de que os neandertais eram tecnologicamente experientes e tinham a habilidade de caçar grandes animais por meio de uma variedade de estratégias, não apenas em encontros muito próximos com as presas e, por isso, arriscados. Ele contribui para as visões revisionistas dos neandertais como nossos primos inteligentes e capazes”, observa Annemieke Milks. “São evidências que reduzem a distância entre os neandertais e os humanos modernos.”

"(O estudo) acrescenta um crescente corpo de evidências de que os neandertais eram tecnologicamente experientes e tinham a habilidade de caçar grandes animais por meio de uma variedade de estratégias”
Annemieke Milks, pesquisadora Instituto de Arqueologia e principal autora do estudo

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade