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Correio Braziliense

Molécula em frutas cítricas pode ser aliada no combate à leishmaniose

O composto natural foi testado em laboratório, in vitro, em células humanas infectadas pelos parasitas Leishmania amazonensis


postado em 29/01/2019 06:00

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
 
A leishmaniose faz parte do grupo das doenças consideradas negligenciadas — mais presentes em países pobres, despertam pouco interesse da indústria, o que se reflete na limitação de opções terapêuticas. Dispostos a mudar esse cenário, cientistas brasileiros testaram, com sucesso, uma substância presente em frutas cítricas para combater o parasita que causa esse mal. Nos estudos iniciais, o tratamento promoveu resultados melhores que os obtidos pelos medicamentos existentes hoje no mercado. A pesquisa foi descrita na revista Plos Neglected Tropical Diseases.

A substância escolhida pelos cientistas, a 2-hidroxiflavanona, é produzida pelo metabolismo das plantas. Ela faz parte de um grupo de moléculas chamadas de flavonoides, encontradas em alimentos como frutas, vegetais, vinho e café, e já demonstrou potencial anti-inflamatório e anticancerígeno em estudos anteriores. “Nós temos investigado há 10 anos a ação ‘antileishmania’ dessas substâncias e obtivemos resultados animadores”, explicou ao Correio Elmo Eduardo de Almeida Amaral, pesquisador do Laboratório de Bioquímica de Tripanosomatídeos do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro (RJ), e principal autor do estudo.

O composto natural foi testado em laboratório, in vitro, em células humanas infectadas pelos parasitas Leishmania amazonensis, e apresentou desempenho superior a medicamentos usados atualmente para combater a enfermidade. “O tratamento reduziu o tamanho da lesão cutânea e também diminuiu a carga parasitária em cerca de 99%, tanto na infecção causada por parasitos sensíveis quanto por resistentes, que já não respondem aos medicamentos atuais da mesma forma”, detalhou o cientista brasileiro.

Numa segunda fase, a molécula foi administrada por via oral em ratos infectados com a leishmaniose cutânea. Mais uma vez, foram obtidos bons resultados. Os pesquisadores disseram acreditar que a eficácia da molécula testada é extremamente promissora, abrindo portas para um método mais eficiente de combate à leishmaniose. “O mais interessante a se destacar foi esse ganho duplo, o sucesso no combate aos dois tipos de parasitas, até mesmo nos que já mostravam uma força maior. Isso indica potencial para o desenvolvimento de uma terapia que poderia se tornar a primeira opção de tratamento ou uma alternativa nos casos de resistência”, ressaltou Elmo Amaral. “O resultado do novo trabalho é importante porque demonstra, pela primeira vez, a ação de um composto desse grupo em parasitos resistentes”, complementou o autor do estudo.

De acordo com o pesquisador brasileiro, a resistência aos antimoniais vem sendo relatada em alguns países africanos, como a África do Sul, e também na Ásia. Essa é uma das principais causas de falha terapêutica no tratamento da leishmaniose cutânea. “Ainda não foram registrados casos de resistência no Brasil, porém, esse é um problema emergente no mundo. Demonstrar a capacidade de uma molécula natural, administrada por via oral, para tratar cepas sensíveis e resistentes é especialmente importante nesse contexto”, reforçou o pesquisador.

Aperfeiçoamento

Outro ponto positivo, constatado pelos cientistas no estudo, foi relacionado à segurança da molécula. Nos testes, não foram registrados sinais de qualquer efeito tóxico. Os experimentos também revelaram características consideradas extremamente positivas no desenvolvimento de novas drogas, como uma boa absorção. Uma vantagem importante, de acordo com os pesquisadores, diz respeito à forma de uso do possível novo medicamento, que seria por via oral. “A maioria dos remédios usados para tratar a leishmaniose no Brasil é usada de forma intravenosa. Esse seria o primeiro com essa característica, o que auxiliaria no tratamento”, detalhou Elmo.

Para Valéria Paes, infectologista e membro da Associação Médica de Brasília (AMBr),a forma de uso e a baixa toxicidade seriam os pontos mais importantes do estudo, caso ele evolua para a geração de um novo medicamento. “Temos casos de leishmaniose em todo o país, porém, as opções que existem no Brasil para tratamento são restritas. As que existem carregam o problema de toxicidade e efeitos colaterais, como distúrbios cardíacos e insuficiência renal. O uso oral também é importante, pois você não precisaria internar o paciente. Temos muitas pessoas idosas em que o tratamento é limitado por causa dessas complicações que podem ocorrer”, ressaltou a especialista, que não participou do estudo.

A infectologista também destacou o uso de uma substância natural como base para o remédio. “Isso pode ser que ajude no custo da produção. Nós vivemos em um país tropical, isso ajuda a ter mais acesso a essas fontes”, opinou. “Essas enfermidades geralmente negligenciadas sofrem pela falta de pesquisa. O desenvolvimento de tratamentos para elas se torna mais lento e escasso. Por isso, é importante pesquisas como essa, que apresentem opções mais eficazes para o seu combate”, complementou.

A equipe de pesquisa dará continuidade ao estudo e deverá se concentrar em mais testes de eficácia e, principalmente, em parâmetros necessários para a criação de uma droga comercial. “Existem muitos pontos a serem abordados para que ele chegue as prateleiras, como a dosagem correta, que é o que daremos foco principal, precisamos saber a quantidade necessária de uso para que a droga gere os resultados esperados, entre uma série de outras determinações”, ressaltou Elmo Amaral.

Resistência


Há mais 70 anos, os antimoniais pentavalentes são os medicamentos utilizados como primeira opção para tratar a leishmaniose. Eles têm alta toxicidade e podem provocar reações adversas que vão de dores articulares, musculares e náuseas até alterações cardíacas, pancreáticas e renais. Nos casos de resistência, as alternativas disponíveis são a anfotericina B e a pentadimina, porém ambas também apresentam efeitos colaterais importantes.

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