Jornal Correio Braziliense

Ciência e Saúde

Terapia reduz danos causados pelo AVC

Em testes com ratos, implante de células-tronco mesenquimais usando uma fibra orgânica diminui lesões cerebrais provocadas por derrame. Brasileiros criadores do tratamento cogitam o uso em humanos e em casos mais graves, como a perda de massa encefálica

O acidente vascular cerebral (AVC) pode gerar danos neurológicos severos e, muitas vezes, irreversíveis aos pacientes. Para mudar esse cenário, cientistas brasileiros apostam em uma alternativa bastante explorada na área médica: o uso de células-tronco. A ideia teve resultados positivos em testes com camundongos: diminuiu lesões causadas pela isquemia cerebral no cérebro das cobaias. Detalhes do trabalho foram publicados recentemente na revista especializada Nanomedicine: Nanotechnology, Biology and Medicine.

Os autores do estudo explicam que existem dois procedimentos para tratar pacientes que sofreram um AVC: a terapia de recanalização intravascular, que consiste na aplicação de um remédio ativador que ajuda a desfazer o trombo, e o cateterismo, que também desobstrui o vaso, fazendo com que o sangue volte a circular. Apesar de eficazes, as duas intervenções precisam ser feitas em até quatro horas e meia após o derrame. Por isso, os brasileiros buscam um procedimento que possa ser aplicado mesmo depois desse intervalo de tempo.

Em um primeiro estudo, eles usaram células-tronco mesenquimais (CTMs) retiradas da medula óssea de animais. Essas estruturas podem gerar tecidos diversos, e a escolha veio para recuperar uma área danificada no cérebro de camundongos. Porém, quando foram implantadas diretamente na lesão dos roedores, poucas CTMs sobreviveram, e as que se mantiveram vivas migraram para outras regiões neurais. Os pesquisadores também tentaram injetá-las na corrente sanguínea, mas as células ficaram retidas nos rins ou nos pulmões das cobaias.

Na pesquisa atual, esses obstáculos foram driblados com a criação de um material biocompatível para ser utilizado na entrega das CTMs: uma fibra feita à base de um polímero orgânico. O uso da tecnologia aumentou a sobrevivência das células-tronco, permitindo a permanência delas na área lesionada e a redução de inflamações. As fibras contendo as CTMs foram colocadas sobre a lesão e acompanhadas por 30 dias. Depois de alguns meses, o material foi completamente absorvido pelo corpo.

;Quando usamos esse material para implantar as células no cérebro lesionado, vimos uma melhora considerável. As células protegeram os neurônios de degeneração e a lesão ficou com um terço do tamanho que ficaria caso não houvesse ocorrido a nossa intervenção;, detalha ao Correio Marimélia Porcionatto, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do estudo.

A cientista conta que, com a fibra biocompatível, as CTMs produzem a citocina CXCL12, que as atrai para a região da lesão, e proteínas integrinas, que as fazem aderir à área em que estão. ;É como se a célula-tronco mesenquimal estivesse produzindo um ambiente apropriado para ficar. Ainda não sabemos o que nessa combinação causa isso, mas é muito interessante ver como um material não biológico interfere no comportamento da célula;, complementa Marimélia Porcionatto.

Mais estudos
Os pesquisadores adiantam que mais testes são necessários para que seja possível compreender melhor os efeitos observados nos textos com ratos e para que a técnica seja uma opção promissora de tratamento em humanos. Uma das áreas a serem exploradas é a análise das células-tronco em casos de traumatismo crânio encefálico, quando existe perda de parte do cérebro. ;Hoje, quando se perde massa encefálica, controla-se a hemorragia e se faz uma cirurgia, mas o que perdeu está perdido. Não tem como melhorar. Esse poderia ser um novo tratamento;, diz, ao site da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Laura Zamproni, uma das autoras do estudo e pesquisadora da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

Segundo a cientista, o grupo pretende usar a bioimpressão para recriar partes perdidas do cérebro com a ajuda de impressoras 3D. O uso de biomateriais também será de extrema importância para essa parte do projeto. ;O campo de pesquisas de células-tronco neurais é extremamente promissor. Quando você tem um problema neurodegenerativo ou uma lesão traumática, como o AVC, essas células podem ajudar na criação de estratégias de recuperação. Porém, também podem ser usadas para além do sistema nervoso, como um auxílio na recuperação de outros órgãos;, ressalta Laura Porcionatto.

Até Alzheimer

Marcelo Lobo, neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), destaca que o estudo brasileiro é interessante e pode ajudar um problema antigo relacionado ao tratamento do AVC. ;A gente sabe que existe um tempo limite. Depois das primeiras horas, apesar de todo o esforço e contando com a neuroplasticidade, as células que morreram não vão se regenerar. Daí, a importância desse estudo;, explica.

O que mais chamou a atenção do especialista foi a criação do material usado para conduzir o enxerto biológico. ;Sabemos que uma das maiores dificuldades no uso de células-tronco é identificar a maneira de entregá-las de maneira eficaz. Outro ponto importante é que o estudo foi feito por cientistas brasileiros. Esse é um grande passo para nossa área de pesquisa;, frisa.

O neurologista acredita que, apesar de inicial, a pesquisa tem potencial para ajudar a área terapêutica, com opções para outras enfermidades relacionadas à área neural. ;Sabemos que ainda é um estudo básico, feito com animais, mas a ideia é muito boa e pode ajudar na área de regeneração do tecido cerebral, englobando tratamentos para enfermidades como o Parkinson e o Alzheimer, ou seja, patologias relacionadas aos neurônios;, explica Marcelo Lobo.

Letal

O derrame é o segundo causador de mortes no mundo, perdendo apenas para a cardiopatia isquêmica, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Juntas, as duas complicações foram responsáveis por 15,2 milhões de óbitos em 2016. Segundo o Ministério da Saúde, o AVC mata mais de 100 mil brasileiros por ano. Trata-se da causa mais frequente (10% do total) de óbito na população adulta do país e responde por 10% das internações no Sistema Único de Saúde (SUS).