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Correio Braziliense

Terapia reduz danos causados pelo AVC

Em testes com ratos, implante de células-tronco mesenquimais usando uma fibra orgânica diminui lesões cerebrais provocadas por derrame. Brasileiros criadores do tratamento cogitam o uso em humanos e em casos mais graves, como a perda de massa encefálica


postado em 05/02/2019 06:00

Clique na imagem para ampliar(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Clique na imagem para ampliar (foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
O acidente vascular cerebral (AVC) pode gerar danos neurológicos severos e, muitas vezes, irreversíveis aos pacientes. Para mudar esse cenário, cientistas brasileiros apostam em uma alternativa bastante explorada na área médica: o uso de células-tronco. A ideia teve resultados positivos em testes com camundongos: diminuiu lesões causadas pela isquemia cerebral no cérebro das cobaias. Detalhes do trabalho foram publicados recentemente na revista especializada Nanomedicine: Nanotechnology, Biology and Medicine. 

Os autores do estudo explicam que existem dois procedimentos para tratar pacientes que sofreram um AVC: a terapia de recanalização intravascular, que consiste na aplicação de um remédio ativador que ajuda a desfazer o trombo, e o cateterismo, que também desobstrui o vaso, fazendo com que o sangue volte a circular. Apesar de eficazes, as duas intervenções precisam ser feitas em até quatro horas e meia após o derrame. Por isso, os brasileiros buscam um procedimento que possa ser aplicado mesmo depois desse intervalo de tempo.

Em um primeiro estudo, eles usaram células-tronco mesenquimais (CTMs) retiradas da medula óssea de animais. Essas estruturas podem gerar tecidos diversos, e a escolha veio para recuperar uma área danificada no cérebro de camundongos. Porém, quando foram implantadas diretamente na lesão dos roedores, poucas CTMs sobreviveram, e as que se mantiveram vivas migraram para outras regiões neurais. Os pesquisadores também tentaram injetá-las na corrente sanguínea, mas as células ficaram retidas nos rins ou nos pulmões das cobaias.

Na pesquisa atual, esses obstáculos foram driblados com a criação de um material biocompatível para ser utilizado na entrega das CTMs: uma fibra feita à base de um polímero orgânico. O uso da tecnologia aumentou a sobrevivência das células-tronco, permitindo a permanência delas na área lesionada e a redução de inflamações. As fibras contendo as CTMs foram colocadas sobre a lesão e acompanhadas por 30 dias. Depois de alguns meses, o material foi completamente absorvido pelo corpo.

“Quando usamos esse material para implantar as células no cérebro lesionado, vimos uma melhora considerável. As células protegeram os neurônios de degeneração e a lesão ficou com um terço do tamanho que ficaria caso não houvesse ocorrido a nossa intervenção”, detalha ao Correio Marimélia Porcionatto, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do estudo.

A cientista conta que, com a fibra biocompatível, as CTMs produzem a citocina CXCL12, que as atrai para a região da lesão, e proteínas integrinas, que as fazem aderir à área em que estão. “É como se a célula-tronco mesenquimal estivesse produzindo um ambiente apropriado para ficar. Ainda não sabemos o que nessa combinação causa isso, mas é muito interessante ver como um material não biológico interfere no comportamento da célula”, complementa Marimélia Porcionatto.

Mais estudos
Os pesquisadores adiantam que mais testes são necessários para que seja possível compreender melhor os efeitos observados nos textos com ratos e para que a técnica seja uma opção promissora de tratamento em humanos. Uma das áreas a serem exploradas é a análise das células-tronco em casos de traumatismo crânio encefálico, quando existe perda de parte do cérebro. “Hoje, quando se perde massa encefálica, controla-se a hemorragia e se faz uma cirurgia, mas o que perdeu está perdido. Não tem como melhorar. Esse poderia ser um novo tratamento”, diz, ao site da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Laura Zamproni, uma das autoras do estudo e pesquisadora da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

Segundo a cientista, o grupo pretende usar a bioimpressão para recriar partes perdidas do cérebro com a ajuda de impressoras 3D. O uso de biomateriais também será de extrema importância para essa parte do projeto. “O campo de pesquisas de células-tronco neurais é extremamente promissor. Quando você tem um problema neurodegenerativo ou uma lesão traumática, como o AVC, essas células podem ajudar na criação de estratégias de recuperação. Porém, também podem ser usadas para além do sistema nervoso, como um auxílio na recuperação de outros órgãos”, ressalta Laura Porcionatto.

Até Alzheimer

Marcelo Lobo, neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), destaca que o estudo brasileiro é interessante e pode ajudar um problema antigo relacionado ao tratamento do AVC. “A gente sabe que existe um tempo limite. Depois das primeiras horas, apesar de todo o esforço e contando com a neuroplasticidade, as células que morreram não vão se regenerar. Daí, a importância desse estudo”, explica.

O que mais chamou a atenção do especialista foi a criação do material usado para conduzir o enxerto biológico. “Sabemos que uma das maiores dificuldades no uso de células-tronco é identificar a maneira de entregá-las de maneira eficaz. Outro ponto importante é que o estudo foi feito por cientistas brasileiros. Esse é um grande passo para nossa área de pesquisa”, frisa.

O neurologista acredita que, apesar de inicial, a pesquisa tem potencial para ajudar a área terapêutica, com opções para outras enfermidades relacionadas à área neural. “Sabemos que ainda é um estudo básico, feito com animais, mas a ideia é muito boa e pode ajudar na área de regeneração do tecido cerebral, englobando tratamentos para enfermidades como o Parkinson e o Alzheimer, ou seja, patologias relacionadas aos neurônios”, explica Marcelo Lobo.

Letal

O derrame é o segundo causador de mortes no mundo, perdendo apenas para a cardiopatia isquêmica, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Juntas, as duas complicações foram responsáveis por 15,2 milhões de óbitos em 2016.  Segundo o Ministério da Saúde, o AVC mata mais de 100 mil brasileiros por ano. Trata-se da causa mais frequente (10% do total) de óbito na população adulta do país e responde por 10% das internações no Sistema Único de Saúde (SUS).

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