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Correio Braziliense

Cientistas ligam determinadas bactérias do intestino a causas da depressão

Os resultados do estudo em grande escala, considerando a análise de mais de 2 mil voluntários, foram divulgados ontem, na revista Nature Microbiology


postado em 05/02/2019 06:00 / atualizado em 04/02/2019 23:25

(foto: Kieferpix/University College London/Divulgação)
(foto: Kieferpix/University College London/Divulgação)
A ligação da microbiota intestinal com doenças crônicas tem sido alvo de cientistas, que vêm identificando vínculos com complicações como diabetes e lúpus. Uma equipe belga descobriu que bactérias presentes na flora podem afetar o equilíbrio mental, sobretudo na probabilidade de uma pessoa sofrer de depressão. Os resultados do estudo em grande escala, considerando a análise de mais de 2 mil voluntários, foram divulgados ontem, na revista Nature Microbiology.

Os pesquisadores da Universidade KU Leuven analisaram amostras de fezes de 1.054 indivíduos e descobriram que duas famílias de bactérias eram sistematicamente menores nos participantes depressivos, incluindo aqueles sob tratamento com medicação. O estudo de uma população de controle composta por 1.063 holandeses validou as conclusões de uma ligação estatística entre o número de bactérias e os níveis de bem-estar e saúde mental.

As famílias de bactérias envolvidas — Coprococcus e Dialister — são conhecidas por terem propriedades anti-inflamatórias no intestino. “Também sabemos que a inflamação do tecido nervoso desempenha um papel importante na depressão. Por isso, nossa hipótese é de que os dois estão ligados de uma forma ou de outra”, disse à agência France-Presse de notícias (AFP)  Jeroen Raes, professor de microbiologia na universidade belga e um dos autores do estudo.

A equipe também criou um catálogo de funções do microbioma intestinal com base na capacidade de produzir ou degradar moléculas que potencialmente podem interagir com o sistema nervoso humano. Eles relacionaram esse catálogo com dados de material genético retirados da amostra fecal de um subconjunto do grupo de voluntários, incluindo pacientes com depressão mais resistente ao tratamento tradicional. Os resultados indicaram uma associação entre a capacidade da flora intestinal de sintetizar um metabólito da dopamina — níveis baixos desse neurotransmissor estão ligados à depressão — e a qualidade de vida mental dos pacientes.

Primeiros passos

Segundo Jeroen Raes, o estudo não estabelece uma relação de causa e efeito entre as bactérias e a depressão. A compreensão das ligações entre intestino e cérebro está engatinhando na ciência, e o trabalho belga avança um pouco nesse sentido. “Até agora, a maioria dos estudos se concentrava em ratos ou em um pequeno número de pessoas, e os resultados foram mistos e contraditórios”, explicou.

Ainda assim, a equipe não descarta que esse vínculo seja explorado do ponto de vista terapêutico. “A ideia de que substâncias derivadas do metabolismo de micróbios podem interagir com o nosso cérebro  — e, portanto, com o nosso comportamento e sentimentos — é intrigante”, destacou Jeroen Raes. “Eu realmente acho que é um caminho a seguir: usar misturas de bactérias como tratamento”.

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