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Correio Braziliense

Exame de sangue acusa lesão pré-cancerígena no pulmão

Resultado é obtido em testes com ratos modificados para ter o tumor maligno mais incidente em humanos. A abordagem criada por pesquisadores britânicos foca no DNA liberado na corrente sanguínea por células que começam a se dividir indiscriminadamente


postado em 13/02/2019 06:02 / atualizado em 13/02/2019 10:03

Até que os primeiros sintomas da doença surjam, pacientes seguem com os hábitos perigosos, como o tabagismo(foto: Susana Vera/Reuters)
Até que os primeiros sintomas da doença surjam, pacientes seguem com os hábitos perigosos, como o tabagismo (foto: Susana Vera/Reuters)

Mais incidente no mundo — são diagnosticados, em média, 1,8 milhão de casos por ano —, o câncer de pulmão costuma não ter sintomas clínicos nos estágios iniciais. Geralmente, quando confirmada, a doença está avançada e, portanto, com possibilidade menor de cura. Criar instrumentos que facilitem a identificação precoce desse tipo de tumor desafia cientistas, e uma equipe britânica apresenta uma solução que chama a atenção pela simplicidade e pelo ganho de tempo. Segundo eles, um exame de sangue poderá ser usado para identificar alterações pré-cancerígenas, antes mesmo de o carcinoma surgir. Detalhes do trabalho foram divulgados ontem, na revista Disease Models and Mechanisms.  

O foco dos pesquisadores das universidades de Cambridge e de Leicester é o nível circulante de DNA no sangue. Células cancerígenas vão derramando essa molécula na corrente sanguínea à medida que crescem e se multiplicam indiscriminadamente. Em experimentos com ratos, os cientistas conseguiram identificar alterações do corpo antes de elas se tornarem um tumor maligno. “Essa observação é excitante porque sugere que as mutações causadoras de tumor podem ser detectadas no DNA circulante de pacientes com câncer em estágio inicial ou com tumores pré-cancerígenos”, diz, em comunicado, Miguel Martins, pesquisador na Unidade de Toxicologia do Medical Research Council (MRC), ligado à Universidade de Cambridge, e principal autor do estudo.

A equipe usou ratos modificados geneticamente para ter uma mutação no gene KRAS. Dessa forma, o corpo das cobaias passou a replicar os primeiros sinais de câncer de pulmão. Os cientistas realizaram exames regulares de tomografia computadorizada (TC) para monitorar o desenvolvimento de pequenos tumores de pulmão pré-cancerosos nos camundongos, acompanhados de coletas de amostras de sangue. Uma das constatações a que chegaram é de que os animais que desenvolveram o tumor maligno apresentavam níveis mais elevados de DNA circulante que aqueles que permaneceram saudáveis. Além disso, os níveis de DNA liberados pelos tumores cancerígenos no sangue dos camundongos se correlacionavam com o tamanho dos tumores vistos nas tomografias.

Em uma segunda etapa, o DNA circulante nas amostras de sangue foi analisado quanto à presença da mutação ligada ao gene KRAS, responsável pelo surgimento da doença. Os pesquisadores descobriram que isso era possível também em fases posteriores ao desenvolvimento do carcinoma, quando os tumores eram considerados pré-cancerígenos. Segundo Miguel Martins, novos estudos serão realizados em camundongos que tenham lesões anteriores ao câncer em outros tecidos do corpo. “Isso nos dará uma ideia melhor sobre se a o DNA circulante tem potencial uso para detecção precoce da doença”, explica.


Área promissora

Diretor médico da British Lung Foundation, Nick Hopkinson pondera que se trata de um estudo inicial, feito em ratos. Ainda assim, para o especialista, a equipe de cientistas está investindo em uma “área muito interessante de pesquisa”. “Um exame de sangue para câncer de pulmão seria um grande passo à frente, desde que seja sensível e específico, para que não haja muitos resultados falso positivos ou falso negativos”, afirma, em comunicado.

Mariana Delfino-Machin, gerente do Programa de Câncer do MRC, que financiou a pesquisa, também considera o trabalho promissor. “O câncer de pulmão é incrivelmente difícil de diagnosticar na fase em que pode ser tratado com sucesso. Desenvolver estratégias de detecção precoce para melhorar as taxas de sobrevivência é fundamental. E, se isso pode ser alcançado usando apenas uma amostra de sangue, seria ainda mais benéfico aos pacientes”, justifica.

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