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Correio Braziliense

Mutação cancerígena tem efeitos conflitantes, descobrem cientistas

Variante mais associada a tumores de cérebro faz com que eles cresçam lentamente, mas também neutraliza a radioterapia, descobrem cientistas de universidade americana. Em testes com ratos, o problema é tratado com drogas já usadas por humanos


postado em 14/02/2019 06:00

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
De todos os tumores de cérebro conhecidos, os associados à mutação IDH1 têm os melhores prognósticos. Pacientes de glioma com essa variante vivem, em média, 6,6 anos após o diagnóstico, contra a sobrevida de 18 meses relacionada a outros subtipos da doença. Esse tempo poderia ser muito maior não fosse o fato de que, em 50% a 75% dos casos, o câncer volta mais agressivo, sem responder ao tratamento. Há cinco anos, uma equipe de pesquisadores do Centro de Câncer Rogel da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, busca entender por que isso acontece. Agora, eles afirmam ter a resposta.

Em um artigo publicado na revista Science Translational Medicine, a equipe, conduzida pela neurocirurgiã argentina Maria G. Castro, relata que a mutação IDH1 aumenta a sobrevida dos pacientes porque faz com que o tumor cresça mais lentamente. Porém, a variante também tem a habilidade de corrigir os danos causados pela radioterapia ao DNA das células cancerosas. Por isso, ao longo do tempo, o tratamento se torna inócuo.

Além da descoberta desse mecanismo, os cientistas dizem ter conseguido reverter o problema. Em camundongos, o uso de substâncias já aprovadas no mercado evitou que a IDH1 reparasse o efeito da radiação. Segundo os autores, o resultado do estudo abre perspectiva para o aumento da expectativa de vida de pacientes com gliomas que carregam a mutação. “O maior desafio para pacientes de glioma de baixo grau (o menos agressivo) é que, depois do tratamento inicial com cirurgia e quimioterapia, o tumor sempre volta, e volta muito mais agressivo. Se pudermos intervir precocemente, antes que o tumor retorne, isso poderia ter um grande impacto nos pacientes”, afirma Maria G. Castro.

Sheri Holmen, pesquisadora do Instituto do Câncer Huntsman da Universidade de Utah, que não participou desse estudo, conta que o IDH1 é a mutação mais comum nos gliomas — ao menos 80% dos tumores de baixo grau, além de outros tipos de câncer, apresentam a variante. Uma pesquisa prévia desenvolvida por ela e citada no artigo da equipe de Michigan, sugere que o gene mutante funciona como a ignição do glioma: ele seria o primeiro passo para o desenvolvimento do tumor que, de fato, se forma quando outros genes das células glia, presentes no cérebro, sofrem alterações. “Ao compreender o mecanismo dessa mutação em particular (a IDH1), poderemos entender mais sobre a biologia da doença, explorando as vulnerabilidades dela e o desenvolvimento de novos alvos terapêuticos”, opina.

Estudos clínicos

No laboratório de Michigan, a equipe de pesquisadores liderados por Maria G. Castro criou um modelo de camundongo com glioma contendo três mutações: IDH1, p53 e ATRX. “Nós elucidamos como o IDH1 interfere com os tratamentos e descobrimos uma pista de como passar por cima disso”, conta Petro R. Lowenstein, professor de biologia do desenvolvimento e coautor do trabalho. Para isso, os cientistas usaram uma droga que inibe o reparo do DNA alterado pela radioterapia. O tratamento foi positivo nos animais e em tecidos humanos retirados de pacientes de glioma.

De acordo com Lowenstein, o Food and Drug Administration (FDA), órgão regulatório do setor de medicamentos dos Estados Unidos, já aprovou algumas substâncias que agem por essa via. “Estamos trabalhando com alguns colegas para implementar uma nova série de estudos clínicos (com pacientes humanos) na nossa instituição, no futuro próximo”, conta Lowenstein. Segundo ele, a expectativa é de que a combinação entre esses medicamentos bloqueadores e a radioterapia evitem a recorrência do glioma.

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