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Correio Braziliense

Exercícios físicos melhoram habilidade cognitiva de pacientes com Parkinson

Estudo mostra que a prática de atividades físicas, além de amenizar tremores e outros sintomas motores, melhora a memória e a capacidade de os pacientes resolverem problemas. O resultado da pesquisa pode ajudar na proposição de novas práticas clínicas


postado em 05/03/2019 06:00 / atualizado em 04/03/2019 22:48

Cientistas identificaram benefícios físicos não motores em pacientes adeptos de exercícios de resistência, de coordenação e aeróbicos(foto: Yuya Shino/Reuters)
Cientistas identificaram benefícios físicos não motores em pacientes adeptos de exercícios de resistência, de coordenação e aeróbicos (foto: Yuya Shino/Reuters)

É amplamente reconhecido que a prática de exercícios ameniza os sintomas motores da doença de Parkinson (DP), incluindo tremores, distúrbios na marcha e instabilidade postural. Os efeitos nas funções cognitivas dos pacientes, porém, ainda não são claros. Uma revisão de estudos publicada na edição desta segunda-feira (4/3) do Journal of Parkinson’s Disease busca esclarecer o tema. Cientistas da Alemanha e da Austrália analisaram 11 pesquisas recentes sobre a enfermidade degenerativa e concluíram que as atividades físicas também impactam positivamente em aspectos não motores dos pacientes.

“Nosso trabalho mostra que exercício é medicina e deve ser rotineiramente recomendado a pessoas com Parkinson para ajudar a combater os desafios físicos e cognitivos da doença”, destaca, em comunicado, Tim Stuckenschneider, principal autor do estudo e pesquisador do Instituto de Movimento e Neurociências da Universidade Alemã do Esporte. As pesquisas avaliadas pela equipe somam informações de mais de 400 pessoas com Parkinson, em graus variados da enfermidade, e relacionam a doença com exercícios de coordenação, de resistência e aeróbicos.

Em quatro estudos, os efeitos positivos do exercício sobre a cognição (memória, funções executiva e cognitiva global) foram detectados sem que houvesse impacto negativo do exercício em qualquer domínio mental. Além disso, a gravidade da doença foi geralmente melhorada pela prática das atividades físicas. A equipe concluiu que os três modos de exercício estão associados à melhoria da função cognitiva, mas, segundo Tim Stuckenschneider, não há uma imagem clara sobre qual deles é o mais eficaz, já que os efeitos parecem ser diferentes.

Alterações foram detectadas, inclusive, em práticas enquadradas na mesma modalidade. Por exemplo, alguns exercícios aeróbicos tenderam a melhorar a memória, mas caminhar na esteira e pedalar a bicicleta ergométrica, não. Os investigadores acreditam que novos estudos, com um número maior de pacientes, precisam ser feitos para que seja possível se aprofundar nessas questões.

Terapia holística


Ainda assim, ressaltam, os resultados obtidos são suficientes para inspirar a adoção de novas práticas clínicas. “A terapia por exercícios precisa ser, e muitas vezes já é, uma parte essencial do tratamento de indivíduos com DP. No entanto, ela é usada principalmente para tratar sintomas motores. Como parte de uma abordagem holística, o potencial do exercício para manter ou melhorar os fatores não motores, como os cognitivos, precisa ser reconhecido”, defende Tim Stuckenschneider. “Opções de tratamento mais eficazes ajudarão os profissionais a recomendar programas de exercícios específicos e também a melhorar a qualidade de vida dos pacientes”, complementa.

A DP é lentamente progressiva, afeta o movimento, o controle muscular e o equilíbrio. Tradicionalmente, é considerada um distúrbio do movimento, mas especialistas têm alertado que se trata de um problema multissistêmico heterogêneo, já que os sintomas do Parkinson geram impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes. Até 57% deles desenvolvem um deficit cognitivo ligeiro nos cinco anos após o diagnóstico da doença. Quando sobrevive por mais de 10 anos, a maioria desenvolve demência. Os mecanismos neurofisiológicos dessas complicações não são completamente compreendidos, mas já se sabe que há, no cérebro, um acúmulo de placas beta-amiloides, relacionadas ao Alzheimer, e alterações na ação de neurotransmissores.


"Nosso trabalho mostra que exercício é medicina e deve ser rotineiramente recomendado a pessoas com Parkinson para ajudar a combater os desafios físicos e cognitivos da doença" 

Tim Stuckenschneider, pesquisador do Instituto de Movimento e Neurociências da Universidade Alemã do Esporte

Risco de pandemia


Um estudo americano alerta sobre o risco de, em poucos anos, os países enfrentarem uma epidemia da doença de Parkinson (DP). Os autores acreditam que subprodutos da industrialização podem estar contribuindo para as crescentes taxas da doença — isso porque o contato regular com pesticidas, solventes e metais pesados tem sido relacionado à maior vulnerabilidade ao desenvolvimento da enfermidade degenerativa.

Em 2015, cerca de mais de 6 milhões de pessoas no mundo tinham Parkinson. Conduzido principalmente pelo envelhecimento, esse número deve chegar a 12 milhões até 2040. Fatores adicionais, incluindo o aumento da longevidade, o declínio das taxas de fumantes e a crescente industrialização, podem elevar a carga para mais de 17 milhões, estimam os cientistas.

“Até 2040, podemos realmente falar sobre uma pandemia que resultará em aumento do sofrimento humano, assim como no crescimento dos custos sociais e médicos”, afirma, em comunicado, Patrik Brundin, editor-chefe do Journal of Parkinson’s Disease, no qual a pesquisa foi publicada, em janeiro.

Os pesquisadores ressaltam a importância de governos e a comunidade científica firmarem um pacto para prevenir a doença, cuidar dos afetados e investir no desenvolvimento de terapias eficazes e inovadoras. “No século passado, a sociedade enfrentou com sucesso pandemias de poliomielite, câncer de mama e HIV em diferentes graus. Para o sucesso desses esforços, foi fundamental o ativismo desenfreado”, justifica Ray Dorsey, cientista da Universidade de Rochester Medical Center e líder do estudo.

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