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Correio Braziliense

Artigo: Resposta à AIDS - de volta para o futuro


postado em 13/03/2019 10:09 / atualizado em 13/03/2019 10:16

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
Por Georgiana Braga-Orillard, diretora do UNAIDS no Brasil

Há alguns anos, assisti com meus gêmeos, que então tinham oito anos de idade, ao filme De Volta para o Futuro, um dos meus preferidos da minha adolescência. E, para meu espanto e decepção, eles não entenderam nada sobre o filme, porque não conseguiam identificar o que era passado, presente ou futuro. No filme, o passado é 1955, o presente é 1985 e o futuro, 2015, com toda a “tecnologia” disponível – incluindo uma máquina de fax. Para eles, tudo aquilo era passado.  

Refletindo sobre o acontecido, percebi que temos feito o mesmo com nossos jovens em relação à educação sexual e, mais especificamente, em relação ao HIV. Estamos conversando com o jovem de hoje com a mesma linguagem e a mesma “tecnologia” de 30 anos atrás. A linguagem que nos tocou quando éramos jovens não é mais capaz de tocar as gerações de hoje. Precisamos falar de prevenção, sexualidade, direitos humanos de uma nova forma, atualizada para os dias e para a juventude de hoje e não para o jovem dos anos 1980.

Ao longo de quase duas décadas trabalhando com o tema HIV, percebo claramente que temos muita lição de casa para fazer em relação aos nossos jovens. A primeira delas é nos questionar: por que a epidemia voltou a crescer entre eles, principalmente entre jovens gays, homens que fazem sexo com outros homens, travestis e transexuais? Assim como no filme, não podemos deixar nossos “Marty McFly” perdidos nesta linha do tempo. Já passou da hora de começar a mudar o presente se quisermos realmente um futuro sem epidemia de Aids.

Depois de cinco anos à frente do escritório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) no Brasil, chego ao fim do meu mandato com sentimento contraditório. Por um lado, dever cumprido! Foram inúmeros obstáculos superados e conquistas alcançadas e tudo isso em uma prazerosa caminhada repleta de resultados positivos que traçamos como fruto do trabalho em equipe e como fruto de parcerias muito importantes com pessoas, movimentos, instituições, governos e empresas. Por outro lado, ainda não alcançamos as metas e não é hora de desacelerar os esforços.

É muito gratificante olhar para trás e ver os resultados concretos que alcançamos, com impacto direto para as pessoas a quem servimos, em especial pessoas vivendo com HIV e aquelas mais vulneráveis ao vírus — jovens gays e outros homens que fazem sexo com homens, travestis e pessoas transexuais, trabalhadores do sexo, pessoas que usam álcool e outras drogas, pessoas privadas de liberdade, entre outras.

Quando cheguei ao Brasil, em 2013, senti que o país seguia uma rota diferente do que apontavam os boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. No primeiro relatório de Monitoramento Global da Aids (sigla GAM, na época GARPR), o centro das preocupações era uma possível “feminização” e “interiorização” da epidemia, enquanto os boletins demonstravam uma crescente epidemia entre jovens, principalmente gays, trans e travestis. Hoje vejo com orgulho os movimentos exigirem mais políticas públicas específicas para essas populações e também o esforço dos vários jovens que integraram a resposta à Aids.

Noto também, com muita satisfação, que o debate da sociedade sobre a epidemia, quase inexistente quando cheguei ao Brasil, revigorou-se nestes últimos anos, trazendo à tona discussões importantes na mídia tradicional, nas redes sociais, nos espaços de convívio em sociedade e até mesmo em instâncias legislativas. Nestas duas décadas trabalhando diretamente com temas relacionados ao HIV, sei como é difícil e complexo inserir e manter como relevante o debate sobre AIDS nestas diferentes arenas, em especial nos dias de hoje.

Sabemos que esse resultado é fruto de um esforço conjunto de diversos atores da resposta ao HIV no país, mas temos a certeza de que contribuímos de forma proativa, inovadora e incisiva para que esse cenário se consolidasse, criando oportunidades, inspirando governos, sociedade civil, populações vulneráveis e pessoas vivendo com HIV para que também trilhassem conosco os caminhos possíveis para chegarmos ao fim da epidemia de AIDS até 2030.

Como fruto de muito esforço, o UNAIDS retomou seu papel de protagonista e parceiro de primeira linha para ações, projetos e iniciativas de resposta ao HIV no país. Tornamo-nos sinônimo de modelo de qualidade, de inovação e de estratégias de ponta nesta área.

Saio do Brasil com orgulho desse trabalho cumprido. Tenho também a certeza e convicção de que este trabalho terá continuidade, porque ainda não chegamos ao fim. Essa meta só será alcançada quando ninguém for deixado para trás.
 
 

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