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Correio Braziliense

Sistema computacional seleciona pacientes que precisam de desfibrilador

A cirurgia costuma ser feita em jovens e tem de ser repetida a cada 10 anos


postado em 27/03/2019 06:00


Problemas cardíacos são enfermidades que necessitam de total atenção, já que podem ser fatais. Atentos a essa situação, pesquisadores americanos desenvolveram um sistema computacional que prevê o risco de batimentos cardíacos irregulares. Os autores do estudo, divulgado na última edição da revista especializada European Heart Journal, explicam que o novo sistema que, nos testes, obteve resultados iniciais positivos, oferecerá aos médicos uma ferramenta preventiva, ajudando, por exemplo, a identificar pacientes com maior probabilidade de se beneficiar do uso de desfibrilador implantável.

Os autores do estudo explicam que a pesquisa foi feita para ajudar no tratamento de pessoas que sofrem com cardiomiopatia ventricular direita arritmogênica (CAVD). Segundo os cientistas, estima-se que uma a cada 5 mil pessoas apresenta o problema, uma doença hereditária complexa e que, embora rara, é causa frequente de morte súbita de adultos jovens. Em grande parte dos casos, a CAVD pode ser tratada com o uso de um desfibrilador cardioversor implantável (CDI, em inglês), um dispositivo que detecta anormalidades elétricas no músculo cardíaco e, por meio de choque, reanima imediatamente o coração para restabelecer o ritmo normal.

Os CDIs previnem a morte cardíaca súbita, mas carregam riscos e efeitos colaterais, segundo os pesquisadores. Há o risco de choques inapropriados, de falhas pelo uso prolongado, de ocorrência de infecções e o desgaste da bateria. Esses problemas geram a necessidade de substituição do aparelho por meio de cirurgia. “Obter um CDI é uma grande decisão com sérias consequências. Como os pacientes desenvolvem essa condição em uma idade jovem, eles normalmente precisam de várias substituições do CDI ao longo da vida”, detalha, em comunicado, Cynthia A. James, professora na Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e principal autora do estudo.

Na tentativa de encontrar um forma de identificar os pacientes que têm necessidade maior de usar o aparelho, os cientistas usaram dados de 528 pacientes, homens e mulheres, com base em registros de 14 centros médicos acadêmicos nos Estados Unidos e na Europa. Nenhum deles havia experimentado arritmia com risco de morte no início do estudo. Com base em fatores de risco derivados de estudos prévios — idade, sexo e desmaios de causas relacionadas ao coração, por exemplo —,    os cientistas desenvolveram um algoritmo para tentar prever qual dos participantes poderia sofrer uma arritmia grave.

Ao longo de quase cinco anos de acompanhamento, pouco mais de um quarto dos pacientes analisados apresentou  arritmia perigosa e 18 pacientes morreram. Segundo os pesquisadores, o modelo criado explicou com precisão quais pacientes teriam eventos com risco de morte. Mais de 95% das arritmias ocorreram em pessoas com pelo menos 15% de risco previsto pelo sistema em cinco anos.

Terapia personalizada

Para os autores, o novo sistema computacional poderá ajudar os médicos a escolher o tratamento dos pacientes da melhor forma possível. “Se alguém está em risco de morte cardíaca súbita, você não quer perder a chance de colocar um dispositivo salva-vidas. Mas você também não quer sofrer esse risco se não valer a pena”, diz Hugh Calkins, professor de cardiologia da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins e um dos pesquisadores. “Esse novo modelo pode ajudar médicos e pacientes a decidir melhor se um CDI é garantido”, acrescenta.

O implante de um CDI pode custar até US$ 20 mil, segundo os autores, e a mesma quantia é necessária para substituir o dispositivo quando a bateria desgasta, de cinco a 10 anos depois. “Acreditamos que as nossas descobertas e a calculadora de risco que desenvolvemos têm o potencial de contribuir para a medicina personalizada e para os esforços de cuidados de saúde mais eficazes que surgem ao longo dos anos”, ressalta Calkins.

Para Lázaro Miranda, coordenador de Cardiologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, a tecnologia criada é um acréscimo para uma situação chamada estratificação de risco. “Nela, usamos uma série de recursos para saber quais as chances de o paciente sofrer um problema grave, como um infarto ou um AVC. Esse novo recurso poderá refinar esse processo que ajuda a determinar qual paciente necessita do uso de um CDI”, frisa.

O médico brasileiro frisa que a cardiomiopatia ventricular direita arritmogênica pode surgir na infância e acompanhar o paciente por toda a vida, com a possibilidade de ocorrência de uma série de complicações e a necessidade de cuidados. “Por isso, ela merece toda a atenção. É importante saber em que situação o CDI é o tratamento mais indicado. Esse estudo mostrou que, em um quinto dos pacientes, o uso do aparelho não era necessário. Isso é importante”, explica.  

Mais testes

Apesar dos resultados promissores, a equipe lembra que, como foram utilizados registros de pacientes em hospitais especializados no tratamento da doença e que atendem muitos pacientes portadores de uma mutação do gene CAVD, os resultados podem não corresponder ao que ocorreria em indivíduos que carregam outros tipos de alterações genéticas causadoras da doença. Por isso, a equipe planeja validar o modelo em um grupo maior de voluntários.

A intenção é de, no futuro, disponibilizar um aplicativo gratuito que permitirá a médicos e pacientes inserirem dados clínicos para calcular riscos cardíacos pessoais, facilitando o processo de tomada de decisão. “É uma ferramenta importante e extremamente prática para o uso dos dados obtidos nessa pesquisa”, frisa James.

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