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Correio Braziliense

Maias cultivavam algodão em zonas úmidas mexicanas, aponta estudo

Análises feitas com o Google Earth e a ferramenta Lidar, da Nasa, revelam estruturas que permaneceram desconhecidas por mais de mil anos. Estudo mostra grau de sofisticação dessa civilização maior que o imaginado


postado em 03/04/2019 06:00

Nicolas Dunning mostra parte do que seria uma fazenda maia: para plantar, os antigos engenheiros precisaram endireitar ou conectar canais(foto: Nicholas Dunning/UC)
Nicolas Dunning mostra parte do que seria uma fazenda maia: para plantar, os antigos engenheiros precisaram endireitar ou conectar canais (foto: Nicholas Dunning/UC)

Com a ajuda da tecnologia, um grupo de pesquisadores americanos descobriu evidências de antigas fazendas maias em zonas úmidas mexicanas. A descoberta foi divulgada na Conferência Anual da Associação Norte-Americana de Geógrafos, realizada em Washington, nos Estados Unidos. O estudo sugere que essa antiga civilização cultivava algodão na região, além de outros produtos, oferecidos nas rotas comerciais de Yucatán.

A civilização maia se estendia por partes da Mesoamérica, uma região que abrangia o México e a América Central, e a evidência mais antiga desse povo remonta a 1,8 mil anos anos antes de Cristo (a.C). Porém, a maioria das cidades floresceu entre 250 e 900 depois de Cristo (d.C). Na época em que navios espanhóis chegaram, em 1.500, algumas das maiores cidades estavam desertas. Algumas perguntas quanto à história desse povo antes da conquista espanhola seguem sem respostas. Para desvendá-las, um grupo de pesquisadores da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, realizou pesquisas em campos irregulares no México.

No estudo, os autores seguiram os caminhos dos canais naturais de água em um lugar chamado Laguna de Términos, no Golfo do México. Trabalhadores locais conquistaram a atenção de pesquisadores há cerca de sete anos. “Um engenheiro florestal que trabalha na área disse que parecia haver uma rede de campos antigos”, explica Nicholas Dunning, professor de geografia na Universidade de Cincinnati e um dos autores do estudo. “Eu olhei no Google Earth e falei ‘Uau!’. Era uma área nas terras baixas maias à qual eu nunca tinha prestado atenção. E, obviamente, muitas outras pessoas também não tinham, do ponto de vista da agricultura antiga”, detalha o cientista.

Nicolas Dunning (E) e Christopher Carr: auxílio da tecnologia foi determinante para os trabalhos (foto: Joseph Fuqua II/University of Cincinnati)
Nicolas Dunning (E) e Christopher Carr: auxílio da tecnologia foi determinante para os trabalhos (foto: Joseph Fuqua II/University of Cincinnati)


Os arqueólogos esperavam encontrar apenas evidências de habitação quando começaram as escavações, mas com a ajuda de imagens de satélite, foi revelada uma colcha de retalhos de blocos ao longo de valas de drenagem que sugeriam que eles foram construídos. Os arqueólogos também estudaram as imagens geradas pela Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) na região usando uma ferramenta chamada Light Detection and Ranging (Lidar, em inglês), que consegue descrever os contornos do solo sob a copa das árvores e da vegetação. A revisão confirmou as suspeitas de Dunning de que a área estava coberta de antigos campos agrícolas.


Excedentes

Segundo os cientistas, as extensas terras agrícolas sugerem que os maias poderiam plantar culturas excedentes, especialmente o algodão, responsável pelos renomados têxteis comercializados em toda a Mesoamérica. “Era uma economia de mercado muito mais complexa do que a frequentemente creditada aos maias”, frisa Dunning. “Parece que eles desenvolveram esses campos de forma bastante simples a partir de modificações da drenagem existente ao longo da borda leste das zonas úmidas. Eles provavelmente aprofundaram e endireitaram alguns canais ou os conectaram em alguns lugares, mas expandiram ainda mais os campos com uma engenharia hidráulica mais sofisticada”, complementa o cientista.

Os pesquisadores do estudo ressaltaram que Lidar proporcionou à equipe uma imagem nunca antes vista da superfície da Terra, mesmo depois de séculos de crescimento desordenado da selva que esconde os restos de estruturas antigas. Nos mapas, surgiram estruturas ocultas, incluindo estradas e aldeias antigas. “Essa é a magia do Lidar”, diz Christopher Carr, professor-assistente da Universidade de Cincinnati e um dos autores do estudo.

Carr, com a ajuda de um mapa de Yaxnohcah, no México, conseguiu encontrar um pequeno reservatório que os antigos maias aparentemente cavaram em uma zona úmida longe de campos cultivados ou assentamentos conhecidos. “O que meus antigos colegas estavam pensando quando construíram aquele reservatório de água? O que eles queriam fazer?”, indaga o cientista. Carr também usou a imagem Lidar no projeto para seguir uma antiga estrada maia que, segundo os cientistas, talvez não tenha sido percorrida em mais de mil anos.

Mercados


Os pesquisadores destacam que identificar possíveis estradas é importante, pois pode ajudar na busca por antigos mercados maias. Ao contrário das pirâmides, ou mesmo de muitos lares, os mercados não tinham fundações ou estruturas permanentes, explicam os cientistas. Eles foram construídos em plataformas baixas ou áreas desmatadas, como uma feira sazonal ou mercado de pulgas, mas eram uma parte importante da vida na cultura maia. “Até agora, identificamos vários mercados possíveis. Não sabemos com certeza se são mercados, mas eles têm um layout arquitetônico sugestivo de um”, destaca Dunning.

Os pesquisadores fizeram uma série de análises na região e identificaram evidências de antigos açougues. Dunning solicitou a ajuda de botânicos para analisar a área, e acredita que, com essas observações, será possível confirmar as hipóteses de mercados na região. O cientista acredita que os antigos maias provavelmente vendiam produtos perecíveis, como milho e mandioca, e negociavam mantas, ou tecidos ornamentados e ricamente modelados feitos do algodão. “Não temos evidências diretas de como são os têxteis nessa área. Mas se você observar pinturas e esculturas antigas, é possível suspeitar que as pessoas usavam roupas muito elaboradas”, diz.

Os cientistas explicam que atualmente muitas das áreas úmidas estudadas estão sendo drenadas ou aradas para pastagens. Dunning diz que, ironicamente, as pastagens de baixo rendimento fornecem muito menos valor econômico para os agricultores de hoje do que propiciavam para os maias, e que as práticas de uso da terra estão causando danos ambientais a algumas dessas terras úmidas valiosas. “É uma pena. A produção econômica desse uso da terra é minúscula em comparação com o que foi produzido pelos maias”, frisa o autor.

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