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Correio Braziliense

Estimulação elétrica em idosos recupera atividade cerebral, mostra pesquisa

Em estudo com 84 voluntários, metade deles com idades entre 60 e 76 anos, pesquisadores resgatam temporariamente a memória de trabalho nos mais velhos. No futuro, resultados podem auxiliar no desenvolvimento de terapias para doenças que afetam o vigor cerebral


postado em 09/04/2019 10:43

(foto: Thiago Fagundes/CB/D.A Press)
(foto: Thiago Fagundes/CB/D.A Press)
 
Com o passar dos anos, o corpo e a mente se desgastam e sofrem danos que podem ser irreversíveis, como a perda de memória. Em busca de maneiras de combater essa diminuição cognitiva, pesquisadores internacionais usaram a eletroestimulação em pacientes idosos para recuperar a atividade cerebral. Os resultados foram positivos, os voluntários conseguiram resgatar temporariamente a memória de trabalho, que consiste na capacidade de conter brevemente informações para uso posterior. Os resultados foram publicados na última edição da revista britânica Nature Neuroscience e podem ajudar futuramente no desenvolvimento de terapias para doenças como o Alzheimer.

“Entender o envelhecimento normal do cérebro e desenvolver métodos para manter ou melhorar a cognição em adultos mais velhos são os principais objetivos da neurociência”, defenderam os autores do estudo, que foi liderado por Robert Reinhart, pesquisador da Universidade de Boston, nos Estados Unidos. Reinhart e sua equipe escolheram como alvo principal a memória de trabalho, uma das funções cognitivas afetadas no envelhecimento. Os pesquisadores explicam que, em adultos jovens, a memória de trabalho envolve dois padrões de oscilação neural, chamados de ritmo gama e ritmo teta, nas áreas pré-frontal e temporal do cérebro.

No experimento, 42 jovens adultos, com idades entre 20 e 29 anos, e 42 mais velhos, de 60 a 76 anos, foram avaliados por seu desempenho em uma tarefa de memória de trabalho, com ou sem estimulação cerebral não invasiva. Por meio da eletroencefalografia (EEG), os pesquisadores conseguiram observar detalhadamente a atividade cerebral do grupo. Eles constataram que, sem estimulação cerebral, os idosos eram mais lentos e menos precisos na tarefa de memória de trabalho do que os adultos mais jovens. Verificaram ainda que os participantes mais novos apresentaram interações aumentadas entre os ritmos teta e gama no córtex temporal esquerdo, e uma maior sincronização dos ritmos teta nas regiões frontotemporais ao realizar a tarefa de memória de trabalho.

Ao receber estimulação cerebral ativa, a precisão da tarefa de memória de trabalho dos idosos melhorou e se assemelhou a dos adultos jovens, um efeito que durou 50 minutos após a provocação ter sido feita. Também foram registrados melhorias na exatidão das tarefas, com um incremento das interações entre teta e gama no córtex temporal esquerdo, e um aumento na sincronização das ondas cerebrais teta entre o córtex temporal esquerdo e pré-frontal. “Desenvolvemos um procedimento de estimulação não invasivo para modular as interações teta e gama em adultos entre 60 e 76 anos. Após apenas 25 minutos de estimulação, observamos uma mudança brusca. O resultado final foi uma melhoria rápida de desempenho de memória de trabalho que sobreviveu a um período pós-estimulação de 50 minutos”, detalharam os autores na pesquisa.

Os cientistas ficaram entusiasmados com os resultados. Eles acreditam que os ganhos observados foram conquistados devido à estimulação ter sido extremamente específica. Para Vladimir Litvak, professor do Departamento de Neuroimagem da University College London (UCL), a técnica adotada foi essencial para o sucesso da pesquisa. “A estimulação foi feita de uma forma muito bem direcionada, visando duas áreas diferentes do cérebro envolvidas na memória e sincronizando sua atividade e a frequência de estimulação para cada indivíduo com base na frequência de seus ritmos cerebrais naturais. Os autores mostraram que todos esses ingredientes são essenciais para o procedimento funcionar”, disse o especialista, que não participou do estudo, em um comunicado à imprensa.

Mas, apesar dos resultados positivos, Litvak ressaltou que alguns detalhes precisam ser levados em consideração para análises futuras. “O tipo de memória que os autores estudaram é a de trabalho e não a memória episódica. Portanto, não se trata de lembrar de eventos passados, mas de, por exemplo, gravar os dígitos de um número de telefone na sua mente enquanto você está anotando”, frisou o professor britânico. “Mas, ainda assim, o mesmo tipo de ritmo cerebral também desempenha um papel na memória episódica. Por isso, é possível que um protocolo de estimulação semelhante também impulsione a memória episódica, apesar de isso ainda não ter sido mostrado”, complementou.

Auxílio médico


Os autores do estudo reconhecem que muito ainda precisa ser estudado para que a técnica utilizada possa ser explorada em tratamentos médicos, como no caso do Alzheimer, doença neurodegenerativa caracterizada pela perda de memória. “Os resultados fornecem informações sobre a fisiologia e os fundamentos do comprometimento cognitivo relacionado à idade, que contribuem para a fundamentação de futuras intervenções não farmacológicas visando o tratamento do declínio cognitivo”, frisaram os autores no estudo.

Dorothy Bishop, professora de Neuropsicologia do Desenvolvimento da Universidade de Oxford, no Reino Unido, concorda que mais pesquisas são necessárias para que a técnica possa ser adotada na área de tratamentos médicos. “Não há indicação de que quaisquer efeitos benéficos da estimulação persistam além da sessão experimental. Por isso, mais pesquisas precisariam ser feitas antes de se concluir que esse método tenha aplicação clínica”, afirmou a especialista. “O próximo passo é confirmar os resultados em um estudo mais amplo, onde os parâmetros de estimulação e as medidas cognitivas são definidas e analisadas com mais antecedência”, complementou a cientista.

Investigação mais ampla

“Embora essa seja uma pesquisa interessante e positiva, é necessário ter cuidado ao interpretá-la como algo que pode render benefícios clínicos. Os resultados precisam ser replicados em ensaios mais amplos, com maior número de participantes. Os benefícios do ‘mundo real’ de qualquer melhora aparente na função da memória de trabalho também precisarão ser avaliados com o impacto de quaisquer potenciais efeitos adversos da estimulação cerebral. Por exemplo, melhorias induzidas na memória de trabalho podem resultar no agravamento de outras áreas da função cognitiva? Essa é uma questão que também precisa ser explorada.”

Robert Howard, professor de psiquiatria da University College London, no Reino Unido
 
 

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