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Correio Braziliense

Na UnB, vencedor do Nobel lamenta baixo investimento do Brasil em ciência

Em palestra na UnB, o Nobel de Química Fraser Stoddart falou sobre a importância dos investimentos em pesquisa, elogiou a estratégia da China para a área e explicou sua área de interesse: as máquinas moleculares


postado em 10/04/2019 06:00 / atualizado em 10/04/2019 13:11

O químico escocês Fraser Stoddart (D) com o reitor em exercício da Universidade de Brasília, Enrique Huelva: popularizador do conhecimento(foto: Raquel Aviani/Secom UnB)
O químico escocês Fraser Stoddart (D) com o reitor em exercício da Universidade de Brasília, Enrique Huelva: popularizador do conhecimento (foto: Raquel Aviani/Secom UnB)
É mais fácil encontrar Fraser Stoddart trocando ideias com estudantes universitários de várias partes do mundo do que conferenciando com cientistas sisudos e herméticos. Nomeado cavaleiro do reino da Grã-Bretanha, em 2006, pela rainha Elizabeth II, e laureado com o Nobel de Química há três anos, o químico escocês está longe da imagem que se pode ter de um “sir” que recebeu a maior honraria mundial na área. Stoddart é um popularizador do conhecimento, gosta do contato com o público e defende as máquinas moleculares — seu objeto de estudo —, com a mesma paixão com que cobra maiores investimentos em ciência e tecnologia.

Nesta terça-feira (9/4), ele esteve na Universidade de Brasília (UnB), onde palestrou para estudantes e professores sobre a evolução das máquinas — do motor a vapor ao biológico. Esse último é o que interessa a Stoddart, pois é quem coloca para funcionar as máquinas moleculares, conceito que rendeu a ele, ao holandês Bernard Feringa e ao francês Jean-Pierre Sauvage o prêmio Nobel. Em 1991, com base nos trabalhos produzidos por Sauvage, o químico desenvolveu uma estrutura de escala nanométrica (mil vezes menor que um fio de cabelo), a Rotaxane, que funciona como um elevador, conseguindo se erguer a 0,7 nanômetro acima da superfície. Essa foi a primeira de muitos maquinários inspirados no trabalho realizado dentro das células.

"Motores biológicos são mais antigos que todos os sintéticos", ressaltou Stoddart, na palestra, organizada pela biofarmacêutica AstraZeneca. Como um motor de carro, eles convertem qualquer tipo de energia em energia mecânica, que será usada para a realização de uma tarefa, como um movimento. Uma dessas máquinas moleculares naturais mais conhecidas é a síntese do ATP (trifosfato de adenosina), exaustivamente estudada no ensino médio, que consiste em uma reação que fornece a energia necessária para a célula funcionar. O químico explicou que os seres humanos produzem 40kg diários de ATP, gastos com os movimentos naturais do corpo. "No caso de atletas, eles produzem ATP equivalente ao próprio peso corporal, todos os dias."

As máquinas moleculares são apontadas como o que há de mais promissor na nanorrobótica e na nanomedicina. Por exemplo, é possível desenvolver sistemas inspirados no que acontece dentro do corpo humano para enviar medicamentos diretamente às células doentes, o que poderá causar impacto no tratamento de câncer e, segundo Stoddart, nas terapias voltadas a doenças neurodegenerativas, como Parkinson e mal de Alzheimer. As pesquisas nesse sentido, porém, estão apenas começando e, como ressaltou o químico, ao se falar de patologias complexas, não se pode pensar em uma varinha de condão, capaz de eliminá-las sozinha.

Prioridade

Em uma rápida conversa com a imprensa depois da palestra, o químico lamentou que o Brasil tenha sofrido cortes recentes no orçamento da ciência e tecnologia — em 2018, a pasta perdeu 35% da verba destinada cinco anos antes, o que coloca em risco pesquisas, funcionamento de universidades e bolsas de estudo, entre outros. "Eu lamento muito o fato de um país como o Brasil não ter um governo realmente comprometido com investimento financeiro e com o mais absoluto suporte para ajudar jovens a realizar seus sonhos", disse.

Para Stoddart, países em desenvolvimento e também os mais ricos deveriam seguir o exemplo da China, que, no início do ano, enviou ao lado escuro da Lua a primeira sonda espacial do país a pousar no satélite. "Quando falamos dos países do grupo do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), a China é um exemplo a seguir. Talvez porque os líderes do governo chinês sejam cientistas ou tecnólogos, eles estão comprometidos com a área, o que permite que meninos e meninas brilhantes obtenham seus PhDs. A China vai tomar a liderança da ciência e da tecnologia no mundo. Parte disso é por terem a maior população mundial, mas a outra é o empenho absoluto do governo com a ciência. É uma questão de prioridade", assinalou.

O químico apontou que a falta de prioridade em ciência, tecnologia e inovação não é uma realidade apenas das nações em desenvolvimento. "Eu lamento que países em desenvolvimento e alguns mais desenvolvidos, como Estados Unidos e Reino Unido, não tenham líderes que estejam dando aos jovens de seus países as oportunidades que deveriam dar. Os políticos deveriam apoiar firmemente a ciência, e não falar em tirar dinheiro dessa área”, enfatizou.

Duas perguntas para Fraser Stoddart, Nobel de Química

O senhor está sempre em universidades, conversando com estudantes. O senhor considera que manter contato com os jovens é um dos papéis dos cientistas?

Sim, eu tenho um dever de fazer isso, e eu realmente amo. É muito bom interagir diariamente com jovens nas viagens que faço ou pelo Twitter, muitos deles são brilhantes. Acho isso um privilégio que, entre outras vantagens, me mantém jovem. Eu penso como eles, não penso como as pessoas da minha geração. Por exemplo, se eu estivesse morando agora na Inglaterra, eu não defenderia o Brexit, mas pensaria no oposto, em abrir os horizontes, para os jovens explorarem outras visões além das deles. Nós temos de deixar longe do processo de tomada de decisão pessoas que não estão cientes da importância de apoiar os jovens.

Estamos vendo uma escalada da xenofobia, da intolerância e de divisões, como o Brexit que o senhor citou, além de políticos negando a ciência, a evolução, as mudanças climáticas. Como a ciência pode ajudar a superar esse momento?

Acho que é um problema enorme. Podemos fazer nosso melhor, mas eu tenho de admitir que fazer o que fiz hoje — falar com 200 pessoas, que provavelmente têm o mesmo tipo de visão — não adianta. Não somos uma caixa de ressonância, somos uma bolha. Para fazer chegar a mensagem a um número maior de pessoas, mostrar ao mundo como isso é importante, eu tenho algumas ideias. Acho que antes que qualquer um ganhe acesso ao Parlamento ou ao Congresso, essa pessoa deveria ter a mesma experiência que eu tenho, ou a que um médico ou um engenheiro muito qualificado têm de ter, o que é, no mínimo, 10 anos, dois diplomas, um em ciência e outro em humanidades, e, se vai seguir a carreira política, ter se envolvido em trabalhos sociais durante alguns anos. Esse é um problema grave no mundo, e o Reino Unido é um ótimo exemplo: pessoas que não deveriam nem chegar perto do Parlamento, em termos de experiência ou conhecimento estão lá dentro. São congressistas sem qualificação. Isso não faz sentido.

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