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Correio Braziliense

Cientistas acreditam ter descoberto planta que auxilia no combate ao câncer

Os extratos de três ervas encontradas nas Ilhas Maurício podem ajudar a combater a proliferação do carcinoma escamoso, um tumor de esôfago considerado extremamente crítico


postado em 23/04/2019 06:00

Exemplar de Dombeya acutangula: estudo em células de pacientes(foto: FEFU press office/Divulgacao)
Exemplar de Dombeya acutangula: estudo em células de pacientes (foto: FEFU press office/Divulgacao)
Cientistas acreditam ter descoberto, na África, plantas com grande potencial para desenvolvimento de terapias eficazes contra um dos mais graves tipos de câncer. Pesquisadores da Universidade Federal do Extremo Oriente (FEFU), na Rússia, em parceria com cientistas do Reino Unido, demonstram em experimentos laboratoriais que os extratos de três ervas encontradas nas Ilhas Maurício podem ajudar a combater a proliferação do carcinoma escamoso, um tumor de esôfago considerado extremamente crítico.

Durante o estudo, cujos resultados estão na última edição da revista Acta Naturae, os pesquisadores usaram extratos cuidadosamente isolados e fracionados de seis espécies de plantas medicinais endêmicas da ilha africana: Acalypha integrifolia Willd, Labourdonnaisia glauca Bojer, Dombeya acutangula Cav. subsp. Rosea Friedmann, Gaertnera psychotrioides, Baker e Eugenia tinifolia Lam. Em laboratório, as moléculas dessas ervas foram testadas em células de dois tipos diferentes de tumores malignos retirados de pacientes com câncer de esôfago. Como resultado, três das seis substâncias biologicamente ativas presentes nas espécies demonstraram conter um inibidor eficaz das células tumorais.

Os cientistas explicam que as moléculas agem restringindo o crescimento dos cânceres ao ativar uma via de sinalização chamada de AMPK. “Surpreendentemente, em três das espécies de plantas da mesma ilha, vemos o mesmo mecanismo que impede o crescimento das células cancerígenas do esôfago. Isso, por meio da ‘captura’ dessas células em um estágio específico do ciclo celular, imediatamente antes da divisão. Em outras palavras, elas agem durante o nascimento de uma nova célula cancerosa”, ressalta, ao Correio, Alexander Kagansky, chefe do Centro de Medicina Genômica e Regenerativa da Escola de Biomedicina FEFU e um dos autores do estudo.

Natural da Ilha Maurício, a Gaertnera psychotrioides requer atenção
Natural da Ilha Maurício, a Gaertnera psychotrioides requer atenção

Preservação

Apesar de entusiasmados com os resultados, os cientistas ressaltam que muitas perguntas ainda precisam ser respondidas para que as plantas estudadas possam ser, de fato, aproveitadas na área médica. “Ainda não conseguimos saber detalhes que são extremamente necessários para entender melhor essa ação, mas sabemos que leva tempo para descobrir quais mecanismos precisos de ação são afetados pelas células cancerígenas expostas a essas moléculas”, destaca o autor do estudo.

Kagansky assinala que uma preocupação futura é a necessidade de preservação das espécies estudadas. “Não restam muitos exemplares dessas plantas. Precisamos ter o cuidado de saber o que precisamos sintetizar sem matar essas espécies incríveis. Nós também precisamos aprender a cultivar essas plantas. Nessa área, com certeza vamos precisar de atenção de jardineiros especializados em plantas medicinais”, enfatiza Kagansky.

O pesquisador salienta que a Ilha Maurício é um local rico em fauna e flora, que precisa de uma maior atenção das autoridades. “É uma ilha do tesouro da biodiversidade global e faz parte da história da contínua tragédia da ganância humana, do apetite bárbaro e da negligência das verdadeiras maravilhas do planeta destinadas a salvar vidas humanas”, alerta. Para ele, uma maior atenção às plantas medicinais é necessária devido ao grande potencial que elas possuem. “Cerca de um terço das plantas locais são usadas na medicina tradicional, mas ainda há falta de evidências científicas de seu potencial terapêutico, enquanto o genocídio da natureza é mais evidente em pedaços tão pequenos desse paraíso perdido. A etnobotânica, combinada com a moderna química orgânica e biologia celular, é um campo interdisciplinar extremamente frutífero para a pesquisa científica”, complementa.

Maria das Graças Lins Brandão, Coordenadora do Centro Especializado em Plantas Aromáticas, Medicinais e Tóxicas (Ceplamt) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também acredita que a área de pesquisa em ervas medicinais precisa de uma maior atenção devido ao seu grande potencial, principalmente no Brasil, que possui uma fauna extremamente diversa. “As pesquisas com plantas no Brasil, além da falta de recursos e apoio governamental, são também ameaçadas pela destruição da biodiversidade. Estima-se, por exemplo, que cerca de 10% de toda a biodiversidade vegetal do planeta tenha algum uso tradicional, ou seja, tenha algum valor cultural e/ou comercial, desenvolvido pelos povos do passado”, frisa a especialista, ao avaliar o estudo.

A especialista explica que, segundo o site Flora do Brasil 2020, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o país conta com 45 mil espécies diferentes de plantas. “Isso significa que temos, no mínimo, 4.500 plantas medicinais e úteis. Entre essas, infelizmente, apenas 300 espécies foram avaliadas quanto ao seu potencial até hoje”, complementou Brandão.

Tratamentos

Os autores do estudo pregam a urgência do desenvolvimento de novas terapias para o câncer no esôfago. “No  momento, não há meios eficazes suficientes para o seu tratamento, temos apenas a radioterapia e a quimioterapia que podem prolongar a vida em poucos meses, mas geralmente eles são gastos com um tremendo sofrimento”, lembra Kagansky. O cientista ressalta que esse tipo de tumor é extremamente agressivo, pois impede a digestão, o que atrapalha os pacientes a comer, causando uma grande exaustão aos indivíduos.

“O carcinoma escamoso esofágico representa a sexta causa principal de morte na prática oncológica global. Menos de 15% dos pacientes sobrevivem por mais de cinco anos a partir do momento do diagnóstico. Em média, as pessoas com esses diagnósticos vivem menos de um ano. As drogas são extremamente tóxicas e evocam uma série de efeitos colaterais agravando a qualidade de vida dos pacientes. Ao mesmo tempo, a eficácia da quimioterapia atual para esta doença não é muito segura, para dizer o mínimo”, detalha.

Segundo Maria das Graças Brandão, a busca por novas plantas medicinais no território brasileiro pode ajudar a mudar esse cenário pessimista na área médica, auxiliando no tratamento de tumores e também no de outras enfermidades. “O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta, distribuída em diferentes ecossistemas. Essas diferenças ambientais e climáticas permitem que as plantas produzam diferentes substâncias químicas (os princípios ativos) com estruturas únicas, capazes de atuarem em várias doenças”, detalhou.

De acordo com a especialista, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem desde 2002 um programa de apoio às medicinas tradicionais do mundo, e estabelece a necessidade urgente de se conhecer melhor as plantas ameríndias, cuja utilidade foram descobertas há milênios. “Apesar disso, infelizmente o que acontece hoje é o contrário: a vegetação nativa vem sendo impiedosamente destruída, e os povos indígenas massacrados”, lamenta.



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