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Correio Braziliense

Cientistas fazem o maior mapeamento de corais da história

Ideia é ajudar a identificar locais que precisam adotar políticas de conservação mais rigorosas para protegê-los


postado em 07/05/2019 06:00

Coral na costa australiana: especialistas estimam que mais de 50% dessas formações marinhas foram perdidas nos últimos 40 anos(foto: Fundação Khaled bin Sultan Living Oceans/Divulgação)
Coral na costa australiana: especialistas estimam que mais de 50% dessas formações marinhas foram perdidas nos últimos 40 anos (foto: Fundação Khaled bin Sultan Living Oceans/Divulgação)

O primeiro atlas global de recifes foi divulgado em um estudo da Fundação Khaled bin Sultan Living Oceans e da Escola de Ciências Marinhas e Atmosféricas Rosenstiel, da Universidade de Miami (UM). O mapeamento contém dados de mais de 65 mil quilômetros quadrados de corais e de habitats circundantes. Publicados na revista Coral Reefs, os mapas são o resultado de uma expedição de 10 anos que visitou mais de 1 mil recifes remotos em 15 países, os inspecionando até uma escala de um metro quadrado para entender melhor a saúde e a resiliência dessas ameaçadas formações marinhas. Muitos nunca haviam sido estudados.

Os mapas de recifes de corais de alta resolução contêm informações sobre o habitat marinho de águas rasas, bem como informações sobre habitats costeiros, como manguezais, que são componentes-chave dos ecossistemas tropicais. Eles ajudam a filtrar a água e a proteger a costa das tempestades, entre outros benefícios. Assim como os recifes, enfrentam crescentes ameaças devido ao desenvolvimento econômico costeiro, à sobrepesca e às mudanças climáticas.

Para desenvolver o novo modelo de mapeamento, os cientistas coletaram dados de extensas pesquisas realizadas na Global Reef Expedition e extrapolaram essas informações a partir de imagens de satélite de ultrarresolução. Ao comparar os mapas com imagens de vídeo registradas ao longo dos recifes, a equipe conseguiu verificar a precisão do método de mapeamento.

“Se quisermos conservar alguma coisa, é imperativo saber onde ela está localizada e quanto dela você tem”, disse Sam Purkis, professor e presidente do Departamento de Geociências Marinhas da Escola Rosenstiel, da UM. “Chegarmos a esse nível de compreensão sobre recifes de coral é especialmente desafiador porque eles estão submersos e, portanto, obscurecidos da visão cotidiana. Com esse estudo, demonstramos o potencial de usarmos imagens de satélite para fazer mapas de recifes de corais em escala global.”

O novo modelo permite a criação de mapas detalhados de partes específicas de um recife(foto: Fundação Khaled bin Sultan Living Oceans/Divulgação)
O novo modelo permite a criação de mapas detalhados de partes específicas de um recife (foto: Fundação Khaled bin Sultan Living Oceans/Divulgação)

Custos reduzidos

Os cientistas agora têm uma maneira de olhar sob as ondas para identificar, com precisão, grandes áreas de recifes de corais a um custo bastante reduzido. Os levantamentos tradicionais são caros e têm um escopo limitado, exigindo horas de pesquisas subaquáticas conduzidas por mergulhadores altamente treinados. Usando esse novo modelo, os pesquisadores podem criar mapas detalhados de habitats em uma escala regional, sem ter que inspecionar o recife inteiro pessoalmente.

“As imagens de satélites ou geradas por aeronaves e drones se tornarão uma ferramenta cada vez mais importante para enfrentar a crise dos recifes de corais na escala global, da forma em que está ocorrendo”, diz Purkis, que também é cientista-chefe interino da Living Oceans Foundation. Embora o atlas não cubra todos os recifes do mundo, ele abrange uma porção significativa das principais regiões em que essas formações marinhas se encontram. Além disso, fornece dados sobre a saúde dos corais antes do evento de branqueamento em massa de 2017.

Os cientistas estimam que mais de 50% dos recifes de corais do mundo foram perdidos nos últimos 40 anos devido a mudanças climáticas e outras pressões humanas. Os novos mapas detalhados podem ajudar os gestores de recursos locais a identificar as áreas que mais precisam de ações de conservação. “Eles são uma ferramenta essencial na conservação, pois fornecem uma visão de onde os recifes estão localizados e o status de sua saúde”,  explicou Alexandra Dempsey, diretora de Gestão Científica da Fundação Khaled bin Sultan Living Oceans.  Segundo a especialista, os cientistas usarão esses mapas como dados básicos para ajudar a rastrear mudanças na composição e na estrutura dos recifes ao longo do tempo.

“É especialmente desafiador porque eles estão submersos (…) Com esse estudo, demonstramos o potencial de usarmos imagens de satélite para fazer mapas de recifes de corais em escala global”
Sam Purkis, professor e presidente do Departamento de Geociências Marinhas da Escola Rosenstiel

 

 

Estrutura que cobre o esqueleto de corais os protege do branqueamento (foto: Nette Willis/AFP )
Estrutura que cobre o esqueleto de corais os protege do branqueamento (foto: Nette Willis/AFP )

Tipo de tecido influencia

As mudanças climáticas e o aquecimento dos oceanos ameaçam os recifes de corais e interrompem a relação harmoniosa entre estes e suas algas simbióticas, um processo conhecido como branqueamento de corais. No entanto, um novo estudo realizado por cientistas da Universidade do Havaí (UH) em Manoa e da Academia de Ciências da Califórnia revela que tecidos moles que cobrem o esqueleto de coral rochoso podem promover a recuperação dessas estruturas marinhas após um evento de branqueamento.

Esses tecidos moles, que abrigam algas benéficas, representam uma fonte de energia para os corais. O estudo, liderado por Chris Wall, estudante de graduação do Instituto de Biologia Marinha do Havaí na Escola de Oceanos e Ciências da Terra (SOEST), mostrou que os corais com tecidos mais espessos podem estar melhor equipados para sobreviver ao branqueamento em um oceano cada vez mais aquecido.

No outono de 2014, Wall e seus colegas estudaram colônias de duas espécies de corais, coral de arroz e coral de dedo, na baía de Kane'ohe, O'ahu, Hawai'i, quando a água do mar no local atingiu temperaturas excepcionalmente altas, de 30ºC, perto do máximo que os corais havaianos podem tolerar. A equipe estava interessada em como as colônias sensíveis ao estresse térmico respondiam e se recuperavam do branqueamento em comparação com colônias adjacentes, que permaneciam pigmentadas e não branqueavam.

 

 

Resiliência

Durante o evento de aquecimento e três meses depois, a equipe avaliou os animais de coral e suas algas simbióticas, e, durante todo o estudo, mediu fatores ambientais, incluindo níveis de luz, temperatura da água, taxas de sedimentação e nutrientes da água do mar para entender melhor como os fatores ambientais influenciavam a severidade do branqueamento de corais e as taxas de recuperação. Os pesquisadores também usaram assinaturas químicas naturais nos tecidos dos corais para testar como eles estavam se comportando e o que comiam durante e depois do estresse.

As colônias de tecidos mais duros não morreram e mostraram resiliência notável, recuperando-se de perdas em seus simbiontes em três meses. Essa recuperação foi acelerada por fatores ambientais, como temperaturas da água mais baixas e menores concentração de nutrientes. Os pesquisadores determinaram que os tecidos dos corais são muito importantes no processo de recuperação, sendo que aqueles mais espessos podem ser capazes de sobreviver melhor e de se recuperar do estresse.

 

 

Em defesa da biodiversidade

Ministros do Meio Ambiente das maiores economias do mundo, pesquisadores e personalidades se mobilizaram pela preservação da biodiversidade após a divulgação, ontem, de um relatório das Nações Unidas indicando que 1 milhão de espécies correm risco de extinção. O documento inédito apresenta projeções sombrias para o planeta, como consequência dos excessos humanos. Atividades como desmatamento e sobrepesca fazem com que 75% do ambiente terrestre esteja “seriamente perturbado”, assim como 66% do ambiente marinho.

Em uma “carta à biodiversidade”, os ministros do Meio Ambiente do G7 se comprometeram a lutar contra a destruição da natureza por meio de “ações concretas”. Em uma carta aberta aos governos, centenas de especialistas e personalidades, como a primatóloga Jane Goodal e a atriz Marion Cotillard, reclamaram do fim dos “financiamentos que destroem a natureza”.  “Devemos mudar radicalmente a maneira como vivemos”, escreveram no texto #Call4Nature.

A expectativa de ambientalistas é de que na Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP-15), que ocorrerá no próximo ano, na China, os Estados-membros adotem uma estrutura ambiciosa de ação até 2050 para preservar o planeta. “O objetivo deve ser a qualidade de vida e não o crescimento econômico”, indicou Eduardo Brundizio, um dos principais autores do estudo divulgado ontem.

Principais ameaças

Depois de três anos de trabalho, os 450 especialistas envolvidos na pesquisa identificaram os cinco maiores responsáveis pela ameaça à biodiversidade na Terra: uso da terra (agricultura, desmatamento), exploração direta de recursos (pesca, caça), mudança climática, poluição e espécies invasoras.

 

Robert Watson, presidente do grupo de especialistas da ONU sobre Biodiversidade (IPBES), responsável pelo estudo, lembrou dos impactos dessas atividades para a espécie humana. “Estamos acabando com as bases das nossas economias, nossos meios de subsistência, a segurança alimentar, a saúde e a qualidade de vida em todo o mundo.” 

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