Publicidade

Correio Braziliense

Fumaça do cigarro aumenta o risco de hipertensão, aponta pesquisa

Estudo com mais de 131 mil fumantes passivos mostra que a condição amplia, em média, em 13% a possibilidade de desenvolvimento de pressão alta. Para especialistas, resultado reforça a importância de diversificar medidas de combate ao tabagismo


postado em 08/05/2019 06:00 / atualizado em 07/05/2019 22:12


Estudos têm mostrado que a condição de fumante passivo também é uma ameaça à saúde. Pesquisadores coreanos acabam de revelar uma consequência da exposição indireta ao cigarro que a torna ainda mais preocupante: há aumento  significativo no risco de surgimento de hipertensão, doença crônica responsável por infartos, derrames e insuficiência renal. Detalhes do trabalho inédito foram apresentados no EuroHeartCare 2019, um congresso científico da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), realizado, na semana passada, em Milão, na Itália.

No estudo, foram analisados 131.739 indivíduos — um terço deles do sexo masculino — que nunca haviam fumado e com idade média de 35 anos.  Os cientistas analisaram os níveis de cotinina — principal metabólito da nicotina — presentes na urina dos voluntários e os correlacionaram com informações sobre saúde cardiológica. Como resultado, concluíram que o tabagismo passivo em casa ou no trabalho está associado ao aumento médio de 13% no risco de hipertensão.

Quanto mais tempo de contato com a fumaça do cigarro e a idade do indivíduo, maior a vulnerabilidade. A pesquisa mostra que viver com um fumante depois dos 20 anos de idade está associado a um risco 15% maior de surgimento da hipertensão. A exposição ao tabagismo passivo por 10 anos ou mais foi relacionada a um aumento de 17%. Homens e mulheres foram igualmente afetados.

Os pesquisadores acreditam que as estatísticas obtidas reforçam a necessidade de evitar o contato com o cigarro o máximo possível.“Nosso estudo mostra que o risco de hipertensão arterial é maior à medida que aumenta o tempo de tabagismo passivo, mas mesmo as menores quantidades são perigosas. Os resultados sugerem que é necessário se manter completamente longe do fumo passivo, não apenas reduzir a exposição”, frisa Byung Jin Kim, professor da Universidade Sungkyunkwan, na Coreia do Sul.

Lázaro Fernandes de Miranda, coordenador de Cardiologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e conselheiro da Sociedade Brasileira de Cardiologia do Distrito Federal, acredita que o estudo traz dados bastante coerentes com os conhecimentos acumulados em estudos menores e relacionados ao tema. “Já vimos, em alguns feitos no Japão inclusive, que maridos e mulheres não fumantes expostos ao cônjuge fumante têm risco 50% maior de sofrer algum malefício provocado pelo cigarro. Nos filhos, a taxa é de 25%. Esse é um cenário extremamente preocupante”, opina.

Não acalma


O especialista ressalta que um dos destaques do trabalho está em dar foco à hipertensão arterial. “Temos uma frase de fumante que é desmentida mais uma vez com essa investigação. Geralmente, eles argumentam que fumam porque se sentem muito nervosos, para acalmar, mas ocorre justamente o contrário. O cigarro aumenta a pressão do indivíduo. A nicotina causa uma ação nos vasos arteriais semelhante à adrenalina e à noradrenalina, que estão relacionadas à agitação, o que não condiz com relaxamento”, explica.

Os autores optaram por analisar a hipertensão arterial devido à alta incidência da doença e da necessidade de combatê-la. No artigo, frisam que a doença crônica é a principal causa global de morte prematura, responsável por quase 10 milhões de mortes em 2015, e que os afetados são sempre aconselhados a parar de fumar. Os cientistas ressaltam ainda que pesquisas anteriores sugeriram uma ligação entre tabagismo passivo e hipertensão em não fumantes, mas a maioria dos trabalhos não foi extensa, incluiu apenas mulheres e utilizou apenas questionários, sem análises mais apuradas em relação aos efeitos do fumo passivo ao organismo.

Mais rigidez


Para a equipe coreana, os dados obtidos reforçam a necessidade de endurecer as regras relacionadas ao fumo em ambientes compartilhados. “Embora tenham sido feitos esforços em todo o mundo para minimizar os perigos do tabagismo passivo, nosso estudo mostra que mais de um em cada cinco nunca fumantes ainda estão expostos ao fumo passivo”, diz Byung Jin Kim. “São necessárias proibições mais rígidas, acompanhadas de novas formas de ajudar os fumantes a se livrar do vício. O fato de saber que os membros da família sofrem pode ser uma motivação extra.”

Lázaro Fernandes de Miranda aposta nas mesmas aplicações para o estudo.“Esse tipo de informação é mais uma que pode ser usada para convencer as pessoas a pararem de fumar, não só pela saúde delas, mas também para garantir uma vida saudável aos parentes e aos amigos. Por mais que o indivíduo tenha prazer fumando, existem outras prioridades, como o bem-estar da família”, explica o médico brasileiro.

O especialista também ressalta a necessidade de manter a fiscalização em relação às regras de proibição relacionadas ao cigarro. “Já temos uma legislação bastante dura para o fumo em lugares públicos, em diversos países e, aqui no Brasil, isso também foi adotado cedo. Esse é um ganho importante, mas que precisa ser mantido, com uma fiscalização constante.”

O médico brasileiro chama a atenção para os efeitos à saúde de outras substâncias com características semelhantes. “Sabemos que não só a fumaça do cigarro, mas muitas outras também são nocivas. Esse é um ponto a se destacar: a necessidade de combater a poluição causada por substâncias tóxicas a que todos somos expostos cotidianamente.”

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade