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Correio Braziliense

Smartphones potencializam necessidade de socialização humana

Pesquisadores buscam entender mecanismos ligados ao uso de smartphones para criar medidas de combate aos excessos. Uma das constatações é de que o aparelho potencializa uma necessidade que faz parte da história evolutiva humana: a de interação social


postado em 12/05/2019 08:00 / atualizado em 11/05/2019 23:42

(foto: Arte/CB/D.A Press )
(foto: Arte/CB/D.A Press )


Você pode ir ao cinema ou ao mercado sozinho. Se pensar melhor, porém, está acompanhado. Graças aos smartphones, a interação social é frequente, mesmo a distância. Um grupo de pesquisadores canadenses mostra que o aparelho, considerado indispensável por muitas pessoas, ajuda a atender a uma necessidade existente desde os primórdios da história humana: a sociabilidade. E a forma como ele é usado varia pouco conforme a faixa etária do dono, indica outro grupo de cientistas — dessa vez, americanos. Para autores e especialistas, os resultados de ambos os estudos podem ajudar na criação de estratégias que estimulem o uso mais saudável desses dispositivos móveis.

“Há alguns anos, venho observando as experiências de pessoas com smartphones e ouvindo sobre as frustrações delas com a forma como se envolvem com o telefone. Por outro lado, quando as perguntamos sobre o que acham significativo sobre o fato der ter o aparelho, ninguém diz: ‘Ah, nada’. Todas podem apontar experiências que têm um significado pessoal”, diz ao Correio Alexis Hiniker, professor-assistente da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e um dos autores do segundo estudo, apresentado na ACM CHI, conferência sobre fatores humanos em sistemas computacionais realizada, na última terça-feira, na Escócia.

No estudo, Hiniker e sua equipe entrevistaram três grupos de usuários de smartphone — alunos do ensino médio, universitários e adultos graduados —, com idade entre 14 e 64 anos. As entrevistas com os 39 voluntários começaram com perguntas básicas e um desafio simples: “passear” pelos aplicativos do aparelho sem muita preocupação. Nas entrevistas sobre a experiência, os autores identificaram uma série de gatilhos comuns.

Por exemplo, os voluntários começavam a usar o aparelho enquanto aguardavam um amigo, durante tarefas tediosas e repetitivas, em situações socialmente desajeitadas e quando esperavam receber uma mensagem ou uma notificação. “Pensávamos que teríamos uma visão mais distinta sobre os comportamentos dos participantes conforme a faixa etária”, conta Jonathan Tran, um dos autores do trabalho e pesquisador da Universidade de Washington.

As justificativas para o uso do smartphone também variaram pouco. “Os participantes falaram sobre tudo nos mesmos termos: os alunos do ensino médio disseram: ‘Sempre que tenho um momento morto, se tiver um minuto entre as aulas, pego meu telefone’. E os adultos, ‘Sempre que tenho um instante de espera, se eu tiver um minuto entre ver pacientes no trabalho, pego meu telefone’”, ilustra Tran.

Significados diversos 

Em uma segunda etapa, os cientistas pediram aos voluntários que sugerissem uma estratégia que pudesse ajudá-los a utilizar o aparelho com moderação. “Muitos esboçaram mecanismos de bloqueio, em que o telefone essencialmente não responde aos comandos por um período de tempo. Mas os participantes mencionaram que, embora se sentissem mal com relação ao comportamento, não era o suficiente para utilizarem essas soluções. Houve alguma ambivalência”, frisa Tran.

Segundo a equipe, o resultado sinaliza a possibilidade de uma ideia mais sutil por trás do relacionamento das pessoas com os smartphones. “Se o telefone não fosse valioso, com certeza, o mecanismo de bloqueio funcionaria muito bem. Nós poderíamos simplesmente parar de ter esses dispositivos, e o problema seria resolvido. Mas esse não é realmente o caso”, ressalta Hiniker.

Um dos sinais constatados que sinalizam a existência dessa relação mais complexa é o fato de os voluntários atribuírem significados diversos à experiência com o aparelho, principalmente quando se conectam ao mundo real por meio de aplicativos. “Um participante falou sobre como um gerador de memes o ajudou a interagir com a irmã porque eles se identificavam o tempo todo. Outra mencionou que o Kindle permitiu que ela se conectasse com o pai, que estava lendo os mesmos livros”, conta Hiniker.

Segundo o pesquisador, há, inclusive, uma análise econômica nessa relação. “As pessoas descrevem isso como um cálculo.  Pensam: ‘Quanto desse tempo é realmente investido em algo duradouro, que transcende esse momento específico de uso?’. Elas se importam se o período gasto no celular gerou algum valor, não é a quantidade de tempo que as preocupa, mas como ele é gasto”, resume.

“Estamos tentando oferecer boas notícias: mostrar que nosso desejo por interação humana é viciante e que há soluções bastante simples para lidar com isso”
Samuel Veissière, professor e pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade McGill

“As pessoas têm uma boa noção do que é importante para elas. Por isso, podem tentar adaptar o que está em seu telefone para apoiar o que consideram significativo. A solução não é se livrar da tecnologia”
Alexis Hiniker, pesquisador e  professor-assistente da Universidade de Washington 

Em vez de antissocial, hipersocial 

A dedicação excessiva ao smartphone sempre levanta questões sobre falta de sociabilidade. Um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology sugere o contrário. O hábito pode ser hipersocial, não antissocial. “Há muito pânico em torno desse tópico. Estamos tentando oferecer boas notícias: mostrar que nosso desejo por interação humana é viciante e que há soluções bastante simples para lidar com isso”, ressalta Samuel Veissière, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade McGill, no Canadá, e um dos autores do trabalho.

 

O cientista revisou uma série de estudos sobre o uso disfuncional da tecnologia inteligente a partir de uma perspectiva  evolucionária. Descobriu que as funções mais viciantes do aparelho compartilham uma característica: exploram o desejo humano de se conectar com outras pessoas. Veissière explica que o desejo de vigiar e monitorar os outros — e também de ser visto e monitorado — está no fundo de nosso passado evolucionário. O cientista destaca que os seres humanos evoluíram para ser uma espécie exclusivamente social e exigem informações constantes de terceiros. Isso serve como um guia para um comportamento culturalmente apropriado. “É também uma maneira de encontrar significado, objetivos e um senso de identidade”, complementa.

 

A psicóloga clínica Patricia Luque também acredita que a forma de utilização do celular atualmente apenas muda um comportamento social que é constante na história humana. “Isso ocorre desde que o homem vive nas cavernas. O mote principal não muda, apenas a maneira que ele ocorre. Hoje, temos reuniões virtuais, por exemplo. Só muda o meio como é feito”, frisa. “Talvez, no futuro, manteremos nossas conversas, mas isso poderá ser feito também com robôs.”


Cérebro sobrecarregado

Apesar da demanda natural de sociabilidade, Veissière admite que o ritmo e a escala da hiperconectividade fazem com que o sistema de recompensas do cérebro possa ser sobrecarregado, levando a vícios prejudiciais. Dessa forma, desativar as notificações e configurar os horários apropriados para verificar o telefone, por exemplo, podem ajudar a recuperar o controle sobre o smartphone. “As políticas de local de trabalho que proíbem e-mails noturnos e de fim de semana também são importantes. Em vez de começar a regulamentar as empresas de tecnologia ou o uso desses dispositivos, precisamos começar a conversar sobre a maneira correta de usar os celulares”, defende.

 

Luque lembra que, apesar de despertar preocupações, o risco de ter as interações sociais comprometidas devido à dedicação excessiva a um aparelho da moda já desencadeou reações parecidas no passado. “Lembro que fiz pesquisas analisando o cenário de quando surgiu o rádio. Nessa época, muitas pessoas achavam que ele ia extinguir completamente o contato social, e isso não ocorreu”, ilustra. 

 

Demanda por novos recursos 

Os celulares do futuro deveriam ter recursos mais eficazes para ajudar no controle do tempo dedicado a eles, defende Alexis Hiniker. O professor da Universidade de Washington sugere que os projetistas abandonem a ideia de mecanismos de bloqueio total do sistema e criem aplicativos que permitam que o usuário controle o seu envolvimento. 

 

“As pessoas têm boa noção do que é importante para elas. Por isso, podem tentar adaptar o que está em seu telefone para apoiar o que consideram significativo”, justifica. “Isso é muito motivador. A solução não é se livrar da tecnologia. Ela fornece um valor enorme”, justifica.

 

João Armando, psiquiatra do Instituto Castro e Santos, em Brasília, chama atenção para a necessidade de novos recursos nesse sentido. “Cada vez mais dependências que não são químicas são estudadas, como os jogos de videogame. O que víamos com esses eletrônicos antigamente hoje migrou para o celular. Temos que acompanhar essas mudanças para saber lidar com elas da melhor forma possível.”

 

Para o psiquiatra, outro ponto que merece destaque é a substituição do contato físico pelo virtual, tema que pode ser aprofundado em futuras pesquisas. “Acredito que também vale observar mais a fundo o que essa troca de sociabilidade gera na vivência. Vemos que muitos jovens perdem um pouco a interpretação física, como o toque e o olhar.  É outro tipo de vivência, que pode causar prejuízos”, frisa. 

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