Publicidade

Correio Braziliense

Estudo mostra como é possível escutar 'sons silenciosos'; entenda

Há indivíduos em que ocorre cooperação entre as áreas auditiva e visual do cérebro diante de um estímulo que deveria silenciar uma delas, segundo cientistas britânicos


postado em 21/05/2019 06:00 / atualizado em 21/05/2019 11:42

 
 
A habilidade de escutar imagens, flashes e movimentos silenciosos ficou popularmente conhecida em GIF’s espalhados pela internet. Um famoso é o de torres de alta-tensão “brincando” de pular cordas. Mesmo sem som, há quem, ao ver o GIF, escute o barulho da torre de ferro pulando e estremecendo o chão. O mesmo acontece quando um pianista simula tocar uma música com os dedos e consegue escutá-la. A façanha é resultado de uma habilidade chamada ouvido visual. Segundo pesquisadores da City, University of London algumas pessoas podem ser mais suscetíveis a desenvolvê-la e outras podem aprendê-la. O estudo é o primeiro a fornecer informações sobre mecanismos cerebrais implícitos nesse mecanismo que, para os autores, é similar ao dos sinestésicos.

A sinestesia é um distúrbio neurológico em que um estímulo de um sentido causa reações em outro, criando uma mistura sensorial entre visão, olfato, audição, paladar e tato. Por exemplo, para alguém com esse problema, o número 5 pode ser sempre verde, a segunda-feira ter gosto adocicado e um solo de guitarra produzir imagens de bolhas. “Já sabíamos que algumas pessoas ouvem o que veem. Luzes indicadoras de carros, placas de neon piscando e movimentos das pessoas enquanto andam podem desencadear uma sensação auditiva. O estudo revela diferenças individuais que ocorrem normalmente na interação entre os sentidos de visão e audição”, explica Elliot Freeman, professor sênior em psicologia na instituição britânica e autor do estudo, cuja publicação está prevista para a edição de junho do Journal of Cognitive Neuroscience.

A maioria das pesquisas na área é baseada na teoria de que as regiões do cérebro responsáveis pelos processamentos visual e auditivo normalmente competem. Freeman e os colegas sugerem que essas áreas cerebrais podem cooperar em pessoas que têm o ouvido visual. Uma hipótese é de que os sinestésicos têm conexões cruzadas raramente ricas entre partes específicas do cérebro. Outra é de que todos têm essas conexões, mas elas são mais ativas em sinestésicos e inibidas em outros.

“A sinestesia que ocorre no GIF de uma torre de energia pulando corda é chamada pela literatura científica de sinestesia auditiva de movimento. Ela ocorre em função de uma resposta auditiva evocada por um estímulo visual em movimento. Toda função mental, como atenção, memória e percepção, tem um substrato neurobiológico (estruturas, vias neurais e um padrão de neurotransmissão), e isso se aplica ao ouvido visual”, detalha Rui de Moraes Jr., professor adjunto do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB).

Treinamento

Para explorar como as partes visuais e auditivas do cérebro interagem em ouvintes visuais, os pesquisadores britânicos usaram, em voluntários, a estimulação de corrente alternada transcraniana (tACS, na sigla em inglês). Essa técnica é um tipo de estimulação cerebral por meio de corrente alternada fraca, usada por neurocientistas para alterar temporariamente a atividade cerebral de um paciente. A técnica foi escolhida para medir mudanças no comportamento ou no desempenho dos participantes da pesquisa durante a execução de uma tarefa capaz de estimular o ouvido visual, além de responder a questões sobre as partes do cérebro envolvidas.

O primeiro teste contou com 36 pessoas, incluindo 16 músicos clássicos da London Royal College of Music. Os participantes foram submetidos a tACS enquanto assistiam a sequências auditivas e visuais de código Morse. A técnica foi aplicada na parte de trás da cabeça ou nos lados, onde estão localizadas as áreas visual e auditiva do cérebro, respectivamente. Os participantes foram classificados em ouvinte visual ou não visual tendo como base os próprios relatos sobre ouvir flashes silenciosos.

A equipe percebeu que os músicos eram significativamente mais propensos a relatar experiências de audição visual. Para os cientistas, isso pode ocorrer por que o treinamento musical promove uma atenção conjunta tanto ao som da música quanto à visão dos movimentos coordenados do maestro ou de outros músicos. “A pesquisa sugere que algumas pessoas podem ser naturalmente mais suscetíveis a desenvolver o ouvido visual e também que a habilidade de experimentá-lo pode ser uma resposta treinável, o que explicaria por que os músicos eram mais propensos a ter a habilidade”, destaca Freeman.

Também constatou-se que, nos participantes de ouvido não visual, a estimulação nas áreas auditivas reduziu significativamente o desempenho auditivo, mas melhorou o visual. Enquanto o padrão oposto foi encontrado na estimulação na área visual: pior visão e melhor audição. Segundo os cientistas, esse padrão recíproco sugere uma interação competitiva entre as áreas visuais e auditivas do cérebro, cada uma restringindo o desempenho da outra. Esse cenário foi notavelmente ausente em ouvintes visuais, o que sugere que suas áreas auditiva e visual não estavam competindo, mas cooperando.

Um segundo experimento foi conduzido com 16 participantes para verificar se mesmo pessoas sem consciência do ouvido visual usam, à vezes, áreas auditivas do cérebro para fazer julgamentos puramente visuais. Os cientistas descobriram que a tACS nas áreas auditivas do cérebro afeta a exatidão dos julgamentos visuais quase tanto quanto estimula as áreas visuais.

“Esse tipo de fenômeno chama a atenção porque são comuns, como o próprio pesquisador exemplifica com o GIF das torres. Mas é difícil entender e classificar o ouvido visual porque é uma experiência individual. Não há como saber se uma pessoa realmente ouve ou vê algo a partir de um estímulo, ou se é apenas um reflexo imaginário do cérebro”, pondera Daniel Mograbi, professor-assistente do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e PhD em psicologia e neurociências pela King’s College London.

Freeman conta que ele e a equipe também se surpreenderam ao descobrir que, de forma geral, os participantes com audição visual apresentaram melhor desempenho em tarefas visuais e auditivas. “Talvez, sua cooperação audiovisual beneficie o desempenho porque mais partes do cérebro estão envolvidas no processamento de estímulos visuais. Essa cooperação também pode beneficiar a performance musical, explicando por que os músicos que testamos relataram ter ouvido visual”, cogita o pesquisador.

* Estagiária sob supervisão de Carmen Souza 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade