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Correio Braziliense

Se iniciado logo após a infecção, tratamento contra HIV é ainda mais eficaz

A ingestão de antirretrovirais logo após a infecção faz com que as células humanas que atacam o vírus invasor trabalhem por mais tempo. Descoberta feita por grupo internacional de cientistas poderá ajudar no desenvolvimento de vacinas contra a Aids


postado em 23/05/2019 06:00

Além de reforçar a importância da terapia imediata, a descoberta poderá ajudar na criação de vacinas para a Aids(foto: Amaro Jr./CB/D.A Press)
Além de reforçar a importância da terapia imediata, a descoberta poderá ajudar na criação de vacinas para a Aids (foto: Amaro Jr./CB/D.A Press)
 

 

Como ocorre com outras infecções, quanto mais cedo for iniciado o tratamento contra o HIV — por meio de antirretrovirais —, melhor será o combate ao vírus. A questão é ressaltada por médicos. Agora, um grupo internacional de cientistas mostra detalhes desse mecanismo. Em pesquisa com mulheres africanas, os pesquisadores observaram que um tipo de células imunes que atacam agentes infecciosos mantém essa função estável por mais tempo quando o antirretroviral começa a ser ingerido cedo. Além de reforçar a importância da terapia imediata, a descoberta, apresentada na última edição da revista especializada Science Translational Medicine, poderá ajudar na criação de vacinas para a Aids.

Normalmente, a infecção pelo HIV induz uma resposta maciça de células imunes chamadas TCD8. De início, essas moléculas suprimem os níveis virais, mas a resposta logo se torna falha, o que permite que o patógeno se recupere e se estabeleça no organismo. Os cientistas resolveram investigar se a ingestão imediata de antirretrovirais poderia interferir nesse processo. Para isso, analisaram um grupo de africanas com idade entre 18 e 23 anos, participantes do grupo de pesquisa FRESH.

Todas as mulheres não tinham o HIV no momento em que se inscreveram no programa, em 2012. Os pesquisadores  concentraram-se em 46 participantes que foram diagnosticadas como soropositivas posteriormente. Desse grupo, 26 começaram a receber tratamento antirretroviral entre 24 e 48 horas após a detecção inicial do vírus, oito passaram a receber o medicamento depois desse período e 12 iniciaram o tratamento apenas quando o nível das células imunes TCD4 ficou abaixo de 350 (conforme a diretriz de tratamento padrão na África do Sul).

Os resultados mostraram que a resposta imediata das células TCD8 específicas para o HIV de mulheres que receberam o tratamento precocemente foi muito menos intensa, o que fez com que ela permanecesse funcional e persistente. Houve ainda aumento das respostas das células TCD4. “De certo modo, esse estudo mostra que limitar a quantidade de vírus que o sistema imunológico encontra pode estimular respostas de células TCD8,  tornando-as muito mais potentes e levando ao desenvolvimento de uma memória imunológica de longo prazo”, explica ao Correio Bruce Walker, diretor do Instituto Ragon, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo.

Para o cientista, o resultado ajuda a explicar por que algumas pessoas com HIV não sofrem com a doenças por décadas mesmo não sendo medicadas. “Elas parecem fazer isso com o próprio corpo. Como? Agora nós sabemos”, complementa autor. Segundo David Urbaez, infectologista do Laboratório Exame, em Brasília, o estudo mostra que, quando o tratamento é iniciado cedo, pode-se colocar o vírus em inatividade antes de ele atingir o pico. “Com isso, temos um repertório maior para aumentar a resposta imunológica. O grande problema do HIV é que a resposta imune é alta no começo, mas deixa de funcionar porque o vírus tem mecanismos para fugir, para não ser reconhecido”, detalha.

Prevenção

 

 

Para os cientistas, os novos dados relacionados ao HIV e à resposta imune do corpo à presença do vírus podem ajudar a tornar realidade um dos principais metas do combate à Aids. “Os resultados têm implicações para o desenvolvimento de vacinas contra o HIV, já que esse tipo de imunidade funcional é o que precisaríamos em uma fórmula protetiva”, explica Bruce Walker.

David Urbaez pondera que o HIV ainda não é tão bem conhecido para que seja possível a criação de uma fórmula preventiva. “Existem mecanismos relacionados a ele e à reação imune que ainda são mistérios para nós. Esse trabalho conseguiu dar um passo a mais, é um degrau extra na construção de uma vacina. É como o trabalho da agulha no crochê, você vai colocando aos poucos para conseguir compreender um sistema complexo”, justifica.

A equipe de pesquisadores também considera que o trabalho poderá ajudar no desenvolvimento de tratamentos mais eficazes. “Compreender o que constitui uma resposta imunológica ‘boa’ ao HIV nos dá informações importantes para o desenvolvimento de outras intervenções que possam alcançar esses tipos de respostas em infecções crônicas”, diz Bruce Walker.

Apesar dos resultados promissores, o cientista reforça a necessidade de maior aprofundamento no estudo a fim de, por exemplo, tornar a reação imune ao HIV mais eficiente. “Agora precisamos ver se essas respostas podem controlar o HIV na ausência de tratamento contínuo dos medicamentos antirretrovirais ou se podemos aumentar ainda mais suas respostas imunológicas de outras formas.”

 


Testes semanais


O estudo chamado Mulheres Ascendendo através da Educação, Suporte e Saúde, (FRESH, pela sigla em inglês) foi conduzido em KwaZulu-Natal, província sul-africana com uma das maiores taxas de infecção por HIV no mundo. Envolveu mulheres que não estavam na escola ou empregadas e eram sexualmente ativas. Além de participar de sessões duas vezes por semana em que eram abordados temas como desenvolvimento de carreira, autoestima, relacionamentos, violência baseada em gênero e prevenção e tratamento do HIV, as mulheres eram submetidas a testes de HIV a cada encontro.



“Limitar a quantidade de vírus que o sistema imunológico encontra pode estimular respostas de células TCD8,  tornando-as muito mais potentes e levando ao desenvolvimento de uma memória imunológica de longo prazo”

Bruce Walker, diretor do Instituto Ragon, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo

 

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