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Correio Braziliense

Sem trégua para os civis: estudo aponta para vulnerabilidade de migrantes

Moradores de áreas de conflito armado ficam mais vulneráveis à ocorrência de ataques cardíacos, diabetes e derrames, mostra estudo britânico com dados de 23 confrontos. Estresse e falta de assistência hospitalar estão entre os fatores que levam à fragilidade


postado em 29/05/2019 06:00 / atualizado em 29/05/2019 12:13

Deixar a casa para escapar de locais com maior conflito, como ocorre na Síria, é uma das condições que impactam a saúde(foto: Delil souleiman/AFP)
Deixar a casa para escapar de locais com maior conflito, como ocorre na Síria, é uma das condições que impactam a saúde (foto: Delil souleiman/AFP)

 

Conflitos armados têm impacto direto na saúde de civis: de ferimentos provocados por bombas e outros artefatos bélicos a doenças infecciosas que se espalham por áreas devastadas. Quem sobrevive aos combates segue vulnerável durante anos, segundo um estudo publicado na edição de hoje da revista científica Heart. Ao revisar pesquisas ligadas ao tema, investigadores do Imperial College London e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, ambos no Reino Unido, concluíram que passar por esse tipo de experiência deixa os indivíduos mais suscetíveis a serem acometidos por ataque cardíaco, diabetes e acidente vascular cerebral (AVC), o popular derrame.


A análise englobou 65 estudos, incorporando informações de 23 conflitos armados em países de baixa e média rendas — como Síria, Líbano, Bósnia, Croácia, Palestina, Colômbia e Sudão. Mohammed Jawad, do Imperial College London e integrante da equipe, frisa, em comunicado, o ineditismo dos resultados obtidos. “Devido à natureza da guerra, os dados costumam ser escassos e irregulares, mas nosso estudo mostra evidências de uma ligação entre os conflitos armados e o aumento das mortes por doenças cardíacas e derrame. Essa é a primeira revisão desse tipo a examinar esses vínculos.”

De acordo com os pesquisadores, o conflito armado pode potencialmente afetar as condições crônicas de saúde de civis por meio de dois mecanismos principais. O primeiro deles está ligado ao aumento do estresse e da ansiedade pelo fato de o indivíduo viver em uma zona de combate. A situação de tensão pode elevar a pressão arterial dos moradores e agravar ou dar início a comportamentos de risco para doenças cardiovasculares, como fumar e ingerir álcool.

O outro mecanismo é voltado para questões estruturais. Os confrontos atingem prédios e pessoas ligados aos sistemas de saúde, o que compromete atendimentos médicos, interrompe programa de prevenção e triagem e reduz a disponibilidade de medicamentos. Nesse último caso, há um efeito direto na adesão a remédios prescritos para complicações crônicas associadas a doenças cardiovasculares — como estatinas (redução do colesterol) e insulina (diabetes).

“Mesmo que os civis estejam dispostos e sejam capazes de procurar serviços de saúde durante conflitos armados, o acesso é limitado devido a fechamentos hospitalares, bloqueio de estradas, falta de medicamentos disponíveis e muito mais”, lista Christopher Millett, professor de saúde pública no Imperial College. A equipe destaca que a revisão foi incapaz de identificar mecanismos claros subjacentes aos resultados, que, segundo eles, são provavelmente complexos e numerosos.

Refugiados

 

 

Principal autor do artigo, Christopher Millett lembra ainda que nem sempre fugir das áreas de tensão protege os indivíduos desse impacto negativo. “A experiência de conflitos armados, seja eventos traumáticos específicos, seja por deslocamento de casa, parece colocar populações civis em maior risco de aumento da pressão arterial, de uso de álcool e tabagismo, que são fatores de risco estabelecidos para doenças cardíacas.”

A falta de conclusões sobre refugiados, aliás, é uma das limitações do estudo, admitem os pesquisadores. Mohammed Jawad reforça que essas pessoas estão expostas a um “duplo fardo”: o impacto do próprio conflito armado e o da migração forçada. “Desse modo, uma melhor compreensão de como as guerras afetam seu risco de diferentes doenças é importante”, defende. A falta de estudos que tratam da questão entre saúde de civis e combates no Oriente Médio também é lembrada pelo pesquisador.

Dados consistentes

 

Segundo Jawad, há ainda que ser considerada a dificuldade para a coleta de dados em cerca de dois terços dos 65 estudos analisados. Mesmo assim, os resultados do estudo foram amplamente consistentes quando ele e a equipe restringiram a análise às pesquisas consideradas de maior qualidade.

Em um deles, a equipe analisou as causas da morte antes e depois da invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003. Dados coletados de pesquisas domiciliares mostraram que a taxa de mortes por ataque cardíaco ou AVC aumentou significativamente, cerca de 55%: de 147,9 por 100.000 pessoas antes da invasão para 228,8 por 100.000 após. Outra investigação também considerada mostrou que a doença cardíaca foi a principal causa de cerca de metade das mortes não violentas durante a invasão liderada por americanos.

 

55%: Aumento de mortes por ataque cardíaco ou AVC no Iraque considerando antes e depois da invasão liderada pelos Estados Unidos, em 2003.


“Mesmo que os civis estejam dispostos e sejam capazes de procurar serviços de saúde durante conflitos armados, o acesso é limitado devido a fechamentos hospitalares, bloqueio de estradas, falta de medicamentos”
, Christopher Millett, professor de saúde pública no Imperial College London e principal autor do artigo.

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