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Correio Braziliense

Cientistas apontam impacto dos micro-organismos no corpo humano

Três estudos divulgados nesta semana relacionam a microbiota com partos prematuros, diabetes e doença inflamatória intestinal


postado em 30/05/2019 06:00 / atualizado em 29/05/2019 23:41

Pesquisadores têm se dedicado a entender mecanismos ligados a esses grupos de micro-organismos presentes em áreas como o intestino e o aparelho urinário(foto: M. Dodd/Divulgação)
Pesquisadores têm se dedicado a entender mecanismos ligados a esses grupos de micro-organismos presentes em áreas como o intestino e o aparelho urinário (foto: M. Dodd/Divulgação)

 

Os microbiomas — comunidade de bactérias, fungos e vírus — são essenciais para o bom funcionamento do corpo humano e podem ajudar a entender uma série de complicações na área da saúde. Por isso, pesquisadores têm se dedicado a entender mecanismos ligados a esses grupos de micro-organismos presentes em áreas como o intestino e o aparelho urinário. Nas edições desta semana das revistas britânicas Nature e Nature Medicine, estudos demonstram associação entre a composição de microbiotas e a ocorrência de parto prematuro, doença inflamatória intestinal (DII) e diabetes tipo 2. Os trabalhos fazem parte do projeto Integrative Human Microbiome Project (iHMP), cujos resultados podem contribuir para o desenvolvimento de intervenções médicas mais eficazes.


Curtis Huttenhower, pesquisador da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e autor principal de um dos estudos, analisou 132 indivíduos com DII e pessoas saudáveis (grupo controle). Ele e colegas identificaram alterações na composição da microbiota, nas moléculas derivadas do hospedeiro (voluntários) e do microbioma no intestino dos participantes que tinham a doença, além de mudanças na expressão gênica. “Os dados disponíveis fornecem a descrição mais abrangente até o momento das atividades microbianas e do hospedeiro nas doenças inflamatórias intestinais. Essas enfermidades afetam mais de 3,5 milhões pessoas, e sua incidência está aumentando em todo o mundo.”

As formas mais prevalentes de DII são a doença de Crohn e a colite ulcerativa. Para a equipe, os novos dados podem ajudar a entender melhor o surgimento dessas complicações mais incidentes e contribuir com informações valiosas para a construção de terapias mais eficazes. “É importante, no futuro, usar as informações relativas a essas moléculas dentro da clínica, criando melhores biomarcadores preditivos de progressão das enfermidades, o que também poderá fornecer alvos para melhores tratamentos”, frisam os autores.

Efeito metabólico

 


Em um segundo artigo publicado na Nature, cientistas liderados por Michael Snyder, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, relataram a interação entre a atividade do hospedeiro e do microbioma no estado de pré-diabetes — uma condição que pode levar ao diabetes, mas que nem sempre não é diagnosticada. “Diabetes tipo 2 é um problema de saúde crescente, mas pouco se sabe sobre os estágios iniciais da doença e seus determinados processos biológicos”, destacam os autores.

Snyder e sua equipe estudaram 106 indivíduos saudáveis e pré-diabéticos durante quatro anos, analisando mudanças moleculares, genéticas e microbianas. Descobriram padrões que definem o desenvolvimento precoce da doença, o que poderá ajudar na detecção do diabetes tipo 2 antes do usual. “Identificamos assinaturas moleculares iniciais em um indivíduo que precedeu o início do diabetes tipo 2, como marcadores de inflamação do receptor de interleucina-1 e da proteína C-reativa de alta sensibilidade”, detalharam. “Esse tipo de dado poderá permitir pesquisas adicionais sobre estados saudáveis, pré-diabéticos e diabéticos que ajudem no monitoramento da doença, fornecendo uma gama maior de tratamentos e recursos preventivos”, ressaltaram.

Risco de prematuridade

Além de doenças cada vez mais comuns, os cientistas do grupo iHMP também resolveram se aprofundar na relação da microbiota com o parto prematuro, um tema que, segundo eles, merece ainda mais atenção. “Nosso trabalho contribui para o entendimento do microbioma vaginal para o risco de parto prematuro, cuja incidência é superior a 10% em todo o mundo”, justifica, em comunicado,  Gregory Buck, pesquisador da Universidade de Commonwealth Virgina, nos Estados Unidos.

Em artigo publicado na revista Nature Medicine, Buck e colegas relatam como estudaram 1.527 grávidas e identificaram mudanças no microbioma vaginal associadas ao risco de partos prematuros (com menos de 37 semanas de gestação), particularmente em mulheres de ascendência africana. A equipe observou que mulheres que tiveram o filho antes do recomendado apresentaram níveis mais baixos de Lactobacillus crispatus — micro-organismos anteriormente associados à saúde feminina.

Também identificou-se nível mais elevados das bactérias BVAB1, Sneathia amnii e TM7-H1, quadro ainda não observado por cientistas. “Em conjunto, nossos dados sugerem que, com outros fatores genéticos associados ao microbioma, os biomarcadores imunológicos podem ser úteis na definição do risco de parto prematuro, e que esse risco pode ser avaliado já no início da gravidez”, ressaltam.


Em grande quantidade


Estima-se que um homem de 70 quilos seja formado por 70 trilhões de células e que, apenas em seu intestino, existam 100 trilhões de bactérias. Em termos genéticos, a relação também chama a atenção. Um indivíduo recebe do pai cerca de 23 mil genes e tem em média 3,3 milhões de genes pertencentes a bactérias alojadas em seu corpo. 

Palavra de especialista:


Impulsionando a medicina de precisão


“A medicina de precisão pode ser definida como uma abordagem emergente para tratamento de doenças e prevenção que leva em conta a variabilidade individual em genes, ambiente e estilo de vida. Agora, estudos do Projeto Microbioma Humano fornecem dados da microbiota humana ao rastrear duas doenças e um tipo de gravidez. Esses recursos serão de grande valor para abordagens de medicina de precisão. Esses documentos também oferecem excelentes exemplos de perfis personalizados que antes não existiam. Os três artigos fornecem dados extremamente necessários para treinar algoritmos ou projetar futuros experimentos. Desenvolver ferramentas clínicas e tratamentos nessa área será essencial para a conservação da nossa saúde, fornecendo dados ricos sobre os seres humanos, seus micróbios residentes e como eles interagem com o organismo. Afinal de contas, não somos apenas bactérias. Certo?” Verónica Lloréns-Rico e Jeroen Raes, pesquisadores do Instituto Rega de Pesquisa Médica, na Bélgica

 

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