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Correio Braziliense

Viagens a lugares com alto índice de poluição do ar podem ser perigosas

Segundo os autores do estudo, uma temporada de sete dias é suficiente para comprometer funções pulmonares de turistas


postado em 31/05/2019 06:00 / atualizado em 31/05/2019 11:01

Nova Déli, na Índia, foi uma das cidades visitadas: comprometimentos respiratórios identificados por cientistas variaram de 6% a 20%(foto: Dominique Faget/AFP - 30/10/18)
Nova Déli, na Índia, foi uma das cidades visitadas: comprometimentos respiratórios identificados por cientistas variaram de 6% a 20% (foto: Dominique Faget/AFP - 30/10/18)
 


Passar sete dias em cidades com alto nível de poluição é suficiente para comprometer as funções pulmonares, mostra estudo americano com 34 voluntários. Resultado inédito mostra a importância de incluir medidas preventivas nos preparativos para a viagem

Mesmo curta, aquela viagem para um país com alto nível de poluição do ar pode comprometer a saúde. O alerta é feito por pesquisadores da Escola da Medicina da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, em um artigo divulgado na última edição do Journal of Travel Medicine. Segundo os autores do estudo, uma temporada de sete dias é suficiente para comprometer funções pulmonares de turistas, levando a tosses e dificuldades respiratórias durante o passeio e depois que voltam para casa.

Pesquisador sênior do estudo, Terry Gordon, professor do Departamento de Medicina Ambiental da universidade americana, conta que é a primeira vez que uma investigação do tipo é publicada. “Tivemos vários relatos de que turistas se sentiram mal ao visitar cidades poluídas. Então, tornou-se importante para nós entender o que realmente estava acontecendo com a saúde deles”, diz.

O aumento da quantidade de viajantes estrangeiros e da diversidade de locais visitados também motivou a equipe de cientistas. A Organização Mundial do Turismo estima que, até 2030, o número de pessoas viajando internacionalmente chegue a 1,8 bilhão — ou seja, de cada cinco pessoas, uma estará viajando.

Para o estudo, os pesquisadores analisaram seis medidas de saúde pulmonar e cardíaca em 34 homens e mulheres que viajavam ao exterior por pelo menos uma semana a partir da área metropolitana de Nova York.  Todos os voluntários tinham um índice de massa corporal normal (entre 21 e 29 para os homens e entre 18 e 26 para as mulheres), e nenhum deles apresentava condições de saúde preexistentes.

A maioria visitou parentes em cidades com níveis consistentemente altos de poluição do ar, como Ahmedabad e Nova Déli, na Índia, Rawalpindi, no Paquistão, e Xian, na China. Outros destinos escolhidos, como Pequim, na China, e Milão, na Itália, são fortemente poluídos durante alguns meses do ano, mas têm um ar relativamente mais limpo em outros momentos. Os participantes que foram para a Europa escolheram cidades que apresentam níveis consistentemente mais baixos de poluição do ar, como Genebra, na Suíça, e San Sebastien, na Espanha.

A equipe de pesquisadores considerou que Nova York, cidade de partida dos turistas, tem níveis relativamente baixos de poluição do ar — em parte, por causa de regulamentos rígidos, de sua localização na costa e de padrões climáticos. De forma geral, descobriu-se que estar em uma cidade poluída por cerca de uma semana reduziu as medidas da função pulmonar de alguns participantes, com comprometimento variando de 6% a 20%.

Para o hospital

Antes de embarcar, os participantes aprenderam como medir a função pulmonar e a frequência cardíaca diariamente usando espirômetros comercialmente disponíveis (para medir a função pulmonar), monitores de pressão arterial de pulso e sensores de frequência cardíaca. Na volta, a equipe de pesquisadores considerou os dados coletados nos equipamentos, os relatos dos voluntários e níveis de poluição do ar de agências governamentais locais.

Os participantes também classificaram a quantidade de sintomas respiratórios que apresentavam, usando uma pontuação que variou de um a cinco sintomas. Aqueles que visitaram as cidades altamente poluídas relataram até cinco sintomas, enquanto aquelas que visitaram cidades de baixa poluição tiveram menos ou nenhum. Dois turistas precisaram procurar atendimento médico devido às complicações respiratórias.

Os níveis de poluição das cidades estudadas não fizeram diferença significativa na pressão sanguínea dos visitantes, diferentemente das funções respiratórias. M.J. Ruzmyn Vilcassim, pós-doutorando no Departamento de Medicina Ambiental da universidade americana e investigador principal do estudo, chama a atenção para as implicações do fenômeno constatado. “O que os viajantes devem saber é que os efeitos potenciais da poluição do ar na saúde são reais e que, por isso, devem tomar todas as precauções necessárias”, reforça.

Máscaras

Terry Gordon sugere que aqueles que visitam cidades altamente poluídas devem considerar o uso de máscaras ou consultar um médico antes de viajar caso tenham dificuldades respiratórias ou cardíacas. Outro cuidado é fazer uma pesquisa mais aprofundada sobre o destino escolhido e evitar viajar em períodos mais críticos quanto à poluição do ar. Por exemplo, em Nova Déli, na Índia, os agricultores queimam os campos durante os meses de inverno, aumentando os níveis de poluentes na cidade.

Embora os participantes tenham voltado gradualmente ao estado normal de saúde, os pesquisadores dizem que é preciso haver mais pesquisas de acompanhamento a fim de detectar a possibilidade de efeitos a longo prazo ou se estadias mais longas influenciam o impacto da poluição sobre a saúde pulmonar. Na próxima etapa do estudo, a equipe planeja avaliar viajantes internacionais mais suscetíveis aos efeitos da poluição do ar, como idosos e pessoas com asma e/ou problemas cardíacos.


Referência  internacional


Os pesquisadores usaram padrões internacionais para categorizar cidades altamente poluídas como aquelas com mais de 100 microgramas por metro cúbico de material particulado (PM) ou poeira poluidora do ar. A poluição moderada engloba de 35 a 100 microgramas por metro cúbico de PM. Baixos níveis de poluição equivalem 
a medições com menos de 35.


“O que os viajantes devem saber é que os efeitos potenciais da poluição do ar na saúde são reais e que, por isso, devem tomar todas as precauções necessárias”, M.J. Ruzmyn Vilcassim, investigador principal do estudo 

 

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